quinta-feira, 30 de outubro de 2008

'Marx tinha razão', afirma arcebispo

"Na sua análise do capitalismo, Karl Marx estava certo", palavra
do sucessor do cardeal Joseph Ratzinger e supervisor da encíclica
social. No livro "O Capital - Uma defesa do homem", o arcebispo de
München, Reinhard Marx, dirige uma surpreendente carta-reabilitação ao
fundador do comunismo.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, do jornal italiano La Stampa,
26-10-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"É preciso levá-lo a sério, é um erro considerá-lo morto, como
muitos o pensam. O movimento marxista tem causas reais e coloca
questões justificadas" - afirma o arcebispo designado por Bento XVI à
sede arquiepiscopal que foi sua. "Apoiemo-nos em Marx, porque ele
tinha razão. Na sua análise da situação do século XIX, existem pontos
irrefutáveis. A ética social da Igreja nunca confundiu a obra
filosófica de Marx com Stalin e o Gulag".

Em suma, "não se pode atribuir a Marx o que os seus epígonos
fizeram". Antes, o filósofo de Trier "analisou bem o caráter mercantil
do trabalho e previu a mercantilização de todos os setores da vida". E
o comunismo "não desapareceu definitivamente da face da terra com a
queda da URSS, já que vemos que Marx está vivendo agora um
renascimento, como confirma a triplicação das vendas na Alemanha do
primeiro volume do Capital".

Para o arcebispo, muito influente no episcopado europeu, "com o
tipo de capitalismo herdado da Segunda Guerra Mundial não iremos
longe". Depois do Times, de Londres, que há poucos dias reconheceu a
longividência de análise dos desenvolvimentos dos mecanismos
capitalistas, também na hierarquia eclesiástica Marx encontra
admiradores inesperados. Para remover, entretanto, os equívocos do
caminho, o arcebispo metropolitano afirma não se marxista, mas deseja
uma sociedade com uma economia "baseada em princípios éticos". Desse
ponto de vista, a doutrina social da Igreja constitui uma crítica
anticapitalista: "Um capitalismo sem um quadro ético é inimigo do
gênero humano". Por isso, "é preciso pedir desculpas a Marx por tê-lo
deixado ao esquecimento", assegura o prelado à revista Der Spiegel.

Exulta a Rifondazione Comunista [1]: "Até o arcebispo de München o
diz: o comunismo é atual e necessário". Claudio Grassi, da secretaria
do PRC: "São trechos do documento conclusivo do congresso da
Rifondazione vindo de 'comunistas identitários'?" - pergunta-se
retoricamente Grassi. "Não. É o arcebispo católico de München. Quanto
os dirigentes da esquerda italiana, que definem o comunismo como uma
palavra 'indizível', tem o olhar voltado para trás!". Uma "benção"
muito mais clamorosa, porque vem de um eclesiástico de peso. O
arcebispo Marx é membro do Pontifício Conselho Justiça e Paz. A sua
releitura do pai do comunismo não passará inobservada: o prelado
alemão foi escolhido para a supervisão das contribuições que
confluirão na próxima encíclica social de Ratzinger.

Notas:

1. O Partito della Rifondazione Comunista (Partido da Refundação
Comunista), PRC ou simplesmente Rifondazione Comunista é um partido
político da esquerda radical italiana, pacifista e ligado aos
movimentos sociais. Foi fundado em 1991, por antigos membros do
extinto Partido Comunista Italiano

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