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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Depois do capitalismo

13/2/2009

Por Michelle Portela, de Manaus

Agência FAPESP – “As organizações e governos precisam incorporar as experiências dos diversos movimentos sociais, em especial o indígena e o camponês, protagonistas nas lutas sociais na Amazônia, se quiserem contribuir efetivamente para a construção de um novo modelo de civilização. Isso envolve processar a fusão do pensamento marxista às características particulares dos povos, em uma cultura denominada ecossocialismo.”

A proposta é de Michael Löwy, diretor de pesquisas em ciências sociais do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS). Filho de imigrantes judeus da Áustria, Löwy nasceu em São Paulo em 1938, onde se graduou em ciências sociais pela Universidade de São Paulo, em 1960. No ano seguinte, mudou-se para Paris.

A obra de Löwy abrange diversas questões, que vão do marxismo ao surrealismo, sendo marcada por um interesse constante pelo pensamento libertário. Seus livros e ensaios voltam-se principalmente para a sociologia do conhecimento.

Entre seus livros estão Romantismo e Messianismo: ensaios sobre Lukács e Benjamin (publicado no Brasil em 1990), Revolta e Melancolia: o Romantismo na contramão da modernidade (1995), A Guerra dos Deuses: religião e política na América Latina (2000), Nacionalismo e Internacionalismos: da época de Marx até nossos dias (2000), A Estrela da Manhã: Surrealismo e Marxismo (2002) e Walter Benjamin: Aviso de Incêndio - Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história" (2005).

Löwy concedeu entrevista à Agência FAPESP, em Manaus, pouco antes do Fórum Social Mundial, cuja nona edição foi realizada em Belém, de 27 de janeiro a 1° de fevereiro.

Para o sociólogo, a esquerda precisa encontrar um ponto de convergência entre as mobilizações camponesas, indígenas e o movimento urbano. Se, porém, até agora, o socialismo fracassou nessa meta, tampouco o ambientalismo alcançou algo parecido, segundo afirma.

Agência FAPESP – Como o senhor vê a conjugação dos movimentos sociais com as iniciativas ambientais para a construção política, particularmente na Amazônia brasileira?
Michael Löwy – A experiência de Chico Mendes [1944-1988, líder seringueiro] e da Aliança dos Povos da Floresta [articulação entre índios, seringueiros e ribeirinhos] é apaixonante. São exemplos de como partir de uma questão concreta até conseguir articular uma aliança para defender a floresta contra a destruição promovida pelos interesses econômicos. Chico e seus companheiros tinham uma visão claramente socialista. Por isso, é importante compreender que o ecossocialismo não é uma visão de futuro, mas algo que reúne os desafios e iniciativas atuais, como a defesa da floresta a partir da união entre os povos indígenas e camponeses. Há uma relação entre a utopia socialista e as lutas concretas que se dão no campo e na cidade.

Agência FAPESP – A Amazônia seria o terreno mais fértil para a construção dessa nova experiência?
Löwy – Nós, ecossocialistas, estamos entusiasmados com o Fórum Social Mundial. Viemos trazer nossa mensagem: as soluções capitalistas para o meio ambiente fracassaram. As respostas dos governos e das empresas são ineficazes para as questões ambientais mais dramáticas, como o aquecimento global. Nosso primeiro objetivo é elevar a consciência anticapitalista, fazer entender que o capitalismo é um sistema que leva à destruição do meio ambiente, promovendo catástrofes ambientais. Outro objetivo é mostrar que existem alternativas.

Agência FAPESP – Mas essa é uma questão que não pode ser abstrata.
Löwy – Sim, ela tem que partir de movimentos e reivindicações concretas. Queremos dialogar com movimentos indígenas, campesinos e outros, para, de um lado, trazer a nossa visão, e, de outro, aprender com eles. Sobretudo, queremos escutar para aprender. A questão amazônica é fundamental para o Brasil e para a humanidade. É o que chamamos de poço de carbono. Se não fosse por ela, já teríamos entrado em um processo de aquecimento global catastrófico. A destruição da Amazônia coloca em perigo o conjunto da humanidade. É de interesse direto das populações que vivem na Amazônia, o problema é conjugar o interesse concreto com o universal.

Agência FAPESP – Como o senhor avalia a situação atual na região?
Löwy – O inimigo na Amazônia são os interesses do agronegócio, das multinacionais, para os quais a floresta é fonte de mercadoria ou, simplesmente, sinônimo de pasto para o gado ou terra para soja, o que seja. Há um enfrentamento fundamental e, infelizmente, o progresso destrutivo do capitalismo está ganhando. A destruição da floresta não apenas não se reduz como avança, e a avidez destruidora é muito mais agressiva e eficaz do que as tentativas limitadas de proteger e defender a região. Se continuar desse jeito, daqui a alguns anos, boa parte da floresta vai acabar e vamos ter de tirar o verde da bandeira e colocar cinzento, que é a cor da fumaça.

Agência FAPESP – Na Europa, os países tendem a parecer mais sensíveis à questão ecológica.
Löwy – De certa maneira, os países europeus são mais sensíveis até que seus interesses sejam prejudicados. Isso mostra os limites da consciência ecológica das classes dominantes. No último encontro do G8 [os sete países mais ricos do mundo mais a Rússia], discutiu-se a questão ambiental. A Europa se propôs a colocar cifras concretas na redução de gás carbônico enquanto outros países, como os Estados Unidos, aceitaram apenas discutir a questão. O presidente da França incluiu a palavra “seriamente” e ficou por isso. A visão deles é determinada pela lógica do sistema.

Fonte: Agência FAPESP

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

The Financial Meltdown and a Socialist Response

By David Finkel

THE FINANCIAL AND stock market meltdown of September-October 2008 is unlike anything that the vast majority of us have seen in our lifetimes. Americans would have to be old enough to remember 1929 and the onset of the Great Depression to have seen a crisis of this magnitude. People in Japan, it’s true, know all about the “lost decade” after the late 1980s bank crashes – but the current situation is a disaster on a global scale.

The reference to 1929 does not mean necessarily that the world economy today is headed for the same destination, i.e. a Great Depression. Actually, the outcome of this crisis is unpredictable. Among other differences, the 1929 stock market crash and subsequent credit crisis led to the Great Depression of the 1930s in part because governments responded with “tight money” policies until too late, an act of suicide which central banks and governments today definitely will not repeat. Quite the contrary, extremely energetic state interventions in Europe and the USA – very much against the recent ideological free-market “run of play” – have halted the fears of a total global banking collapse and the short-term stock market panic.

It’s indeed instructive how quickly the entire ideology of “unleashing the free market” and financial deregulation could be thrown aside in order to rescue giant banks that are “too big to fail.” The U.S. Treasury will not only be purchasing (at above-market rates) the “toxic assets” held by these institutions, but pumping hundreds of billions more into them by buying “preferred shares” in them. This means “non-voting shares,” so that the bailout of these collapsing banks still leaves them under private control. Nonetheless the U.S. government, that bastion of rightwing free-market conservatism, is taking measures that the most liberal Democrats wouldn’t have dreamed of proposing six months ago. Many European governments (e.g. Britain) are going further in partial nationalization of banks, even if these measures are intended to be temporary.

There’s the bailout for the corporate and Wall Street incompetents and crooks who helped drive the economic ship into the ground. The obvious question becomes, then, where’s “the rescue package” for working people who are losing their homes, their jobs, their credit, their health insurance and their hopes for security in retirement? What can, or should, government do to confront our emergency? This question has to be addressed in the context of where the U.S. and global economies are heading.

Regarding the underlying economy, all that seems certain now is that a recession has begun, on a global scale and likely to be sharp and severe for the next 18-24 months. The figures for September show escalating job losses in the United States and many European countries. Beyond that, we don’t know where the present crisis leads in the long run and we won’t try to speculate here. But there are a number of important ideas that socialists have to present about what the crisis means for working people and what kind of response is necessary.

Capitalism – all the way from the 17th century until that time in the future when it will be overthrown – is inherently a system of booms and bubbles and busts and panics. That’s true with or without “heavy state intervention” or “the unfettered free market.” But the magnitude of the present disaster in global credit markets marks the colossal failure, and the terminal point, of a whole “regime” of deregulation of finance capital, especially in the USA, in which the “unfettered free market” would produce ever-growing wealth and the institutions would somehow police themselves. The Depression-era rules regarding the separation of commercial and investment banking were obliterated (Enron showed where this kind of deregulation would lead in the energy industry, but the obvious lessons were disregarded).

What happened in reality, as everyone now knows, was the combination of a housing bubble, those subprime loans imposed overwhelmingly in poor and communities of color, massive increases in personal and corporate debt, and the proliferation of “derivatives,” based on the packaging and recirculation of debts. Banks throughout the world economy made enormous paper profits by selling each other the equivalent of casino chips. In the end, they have wound up sitting on uncounted trillions of dollars in fictitious value (those “toxic assets” consisting of loans that will never be repaid). No wonder they stopped lending money even to each other – because each bank not only feels the need to hoard its own cash, but also suspects all other banks of hiding their real conditions just as it’s hidden its own.

The current wave of government intervention was essential in order to prevent the threat of a complete shutdown of credit – the oil in the engine of global capitalism – a threat that had caused stock markets to plunge by 40% in a few weeks. The political tide in the United States is also turning toward re-regulation, not only cosmetically in reducing the obscene pay of Wall Street CEOs but placing some controls on the behavior of finance capital. This trend will accelerate in 2009 with larger Democratic majorities in Congress and the likelihood of a Democratic president – although Barack Obama’s economic advisors include the likes of Robert Rubin, one of the Clinton-era architects of deregulation.

Regulation in itself, however, does little to address the real catastrophe facing tens of millions of working class families. And yet the measures that need to be taken in this emergency are quite clear, including these:

Immediate ban on foreclosures. Not only homeowners are being thrown on the street, but renters who didn’t even know their landlords were in foreclosure! Thanks to some popular struggles, the Cook County (IL) sheriff has suspended eviction of renters – an example that needs to spread. But no one should lose their home until there’s a –
Rewriting of mortgages to their real value. There’s no point in pretending that homes in today’s market are worth their paper value in the housing bubble. Mortgages on primary residences, not only those now in foreclosure, need to be written down by 30-40%, with interest payments reduced to abolish those subprime “adjustable-rate” schemes that were jammed down the throats of lower-income people and communities of color. (There are many cases where African-American women in particular could only get these extortion-rate loans even though their income and credit rating should have qualified for standard-rate mortgages.)
The government should take over these mortgages, paying the banks no more than their actual – not paper – value, and the more subprime lenders that go out of business in the process, the better. Further, no family should have to make mortgage payments exceeding 15% of household income. This will also have the effect of a serious “stimulus program” for working class America.
Change government priorities to what we need and eliminate what we can’t afford. At a time when federal, state and city budgets are choked by debt, “what we can’t afford” is obvious: the cost of empire. That means the Bush gang’s $3 trillion war in Iraq has got to go. U.S. military bases in 150 countries; hundreds of billions for weapons in space; those bloated contracts for Halliburton and private mercenary forces like Blackwater – all those expenses need to be zeroed out, and the world as well as our own society will be better for it.
What is it then that we really need? For openers, the following:

Guaranteed universal health care is an absolute must, especially at a time of growing employment insecurity. There are already at least 45 million people in this country without health insurance, a number growing all the time. For all those families, the real-life threat of a “terrorist attack” is negligible compared to the daily terror of being bankrupted by an illness, or even permanent injury or death from lack of treatment. A single paper universal health insurance program is the proven, affordable method for resolving this crisis, cutting costs, saving lives, and protecting families from bankruptcy at the same time.
A jobs program on the scale of the 1930s is necessary and feasible. There is no lack of work to be done – especially when our infrastructure needs to be not only repaired but converted to the imperatives of a sustainable economy to avoid environmental disaster. Wherever corporate America won’t invest in renewable energy, massive recycling, mass transit and news transportation technologies, the government should step in with the necessary resources, creating literally millions of productive jobs at union wages.
Universal higher education can be guaranteed by supporting sustainable university tuition at public institutions, and by removing the crushing burden of student loans. This society has the resources to guarantee free higher education to all – but at the very least, rather than leaving school with tens of thousands of dollars in debts they can’t pay, students must have access to no-interest loans that they can repay after graduation with payments not exceeding 10% of their income.
There’s a great deal more that can and should be done to meet human needs rather than corporate profit in our society – as well as addressing the global crises of hunger, poverty and health, and the threats of irreversible environmental catastrophe within a few short decades. In reality, the way out of the global economic crisis lies in a democratically controlled “sustainability revolution” as profound as the industrial and scientific revolutions of previous centuries. That journey has to begin with immediate human needs, and the above measures are first steps in addressing our emergency at home. What’s needed most urgently right now are the mass labor and social movements capable of fighting for these demands and winning them!

-- David Finkel is an editor of Against the Current and member of the National Committee of Solidarity.

Fonte: Solidarity

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Crise de humanidade

28/10/2008

Por Leonardo Boff

A crise econômico-financeira, presivísvel e inevitável, remete a uma crise mais profunda. Trata-se de uma crise de humanidade. Faltaram traços de humanidade minimos no projeto neoberal e na economia de mercado, sem os quais nenhuma instituição, a médio e longo prazo, se agüenta de pé: a confiança e a verdade. A economia presupõe a confiança de que os impulsos eletrônicos que movem os papéis e os contratos tenham lastro e não sejam mera matéria virtual, portanto, fictícia. Pressupõe outrossim a verdade de que os procedimentos se façam segundo regras observadas por todos. Ocorre que no neoliberalismo e nos mercados, especialmente a partir da era Thatcher e Reagan, predominiou a financeirização dos capitais. O capital financeiro-especulativo é da ordem de 167 trilhões de dólares, enquanto o capital real, empregado nos processos produtivos (por volta de 48 trilhões de dólares anuais). Aquele delirava na especulação das bolsas, dinheiro fazendo dinheiro, sem controle, apenas regido pela voracidade do mercado. Por sua natureza, a especulação comporta sempre alto risco e vem submetida a desvios sistêmicos: à ganância de mais e mais ganhar, por todos os meios possíveis.

Os gigantes de Wall-Street eram tão poderosos que impediam qualquer controle, seguindo apenas suas próprias regulações. Eles contavam com as informação antecipadas (Insider Information), manipulavam-nas, divulgavam boatos nos mercados, induziam-nos a falsas apostas e tiravam dai grandes lucros. Basta ler o livro do mega-especulador George Soros A crise do capitalismo para constatá-lo, pois ai conta em detalhes estas manobras que destroem a confiança e a verdade. Ambas eram sacrificadas sistematicamente em função do ganância dos especuladores. Tal sistema tinha que um dia ruir, por ser falso e perverso, o que de fato ocorreu.

A estratégia inicial norte-americana era injetar tanto dinheiro nos “ganhadores”(winner) para que a lógica continuasse a funcionar sem pagar nada por seus erros. Seria prolongar a agonia. Os europeus, recordando-se dos resquícios do humanismo das Luzes que ainda sobraram, tiveram mais sabedoria. Denunciaram a falsidade, puseram a campo o Estado como instância salvadora e reguladora e, em geral, como ator econômico direto na construção na infra-estutura e nos campos sensíveis da economia. Agora não se trata de refundar o neoliberalismo mas de inaugurar outra arquitetura econômica sobre bases não fictícias. Isto quer dizer, a economia deve ser capítulo da política (a tese clássica de Marx), não a serviço da especulação mas da produção e da adequada acumulação. E a política se regerá por critérios éticos de transparência, de equidade, de justa media, de controle democrático e com especial cuidado para com as condições ecológicas que permitem a continuidade do projeto planetário humano.

Por que a crise atual é crise de humanidade? Porque nela subjaz um conceito empobrecido de ser humano que só considera um lado dele, seu lado de ego. O ser humano é habitado por duas forças cósmicas: uma de auto-afirmação sem a qual ele desaparece. Aqui predomina o ego e a competição. A outra é de integração num todo maior sem o qual também desaparece. Aqui prevalece o nós e a cooperação A vida só se desenvolve saudavelmente na medida em que se equilibram o ego com o nós, a competição com a cooperação. Dando rédeas só à competição do ego, anulando a cooperação, nascem as distorções que assistimos, levando à crise atual. Contrariamente, dando espaço apenas ao nós sem o ego, gerou-se o socialismo despersonalizante e a ruína que provocou. Erros desta gravidade, nas condições atuais de interdepedência de todos com todos, nos podem liquidar. Como nunca antes temos que nos orientar por um conceito adequado e integrador do ser humano, por um lado individual-pessoal com direitos e por outro social-comunitário com limites e deveres. Caso contrário, nos atolaremos sempre nas crises que serão menos econômico-financeiras e mais crises de humanidade.

Fonte: Portal do Meio Ambiente

Leonardo Boff: a economia especulativa não tem futuro

22/10/2008

O teólogo brasileiro Leonardo Boff realizou esta semana uma série de conferências na Suíça sobre Igreja, movimentos sociais, pobreza, ecologia e Teologia da Libertação

Geraldo Hoffmann


Leonardo Boff em entrevista na igreja do Espírito Santo, em Berna. (swissinfo)
Em entrevista à swissinfo, em Berna, ele falou sobre a atual crise financeira mundial, a falta de ética da economia especulativa, os governos esquerdistas da América Latina e criticou o papa por sua "opção pelos ricos europeus".

swissinfo: Qual é a avaliação que o senhor faz da atual crise financeira internacional?

Leonardo Boff: A crise não é conjuntural, ela é estrutural. Esse tipo de economia, que transformava tudo em mercadoria e se baseava em especulação, distanciada da economia real, não tem mais futuro. Ela significou um grande equívoco, porque difamou o Estado e a política, e em seu lugar colocava a mão invisível do mercado, a concorrência, as grandes corporações multinacionais. Tudo isso não deu certo. As empresas tiveram que pedir auxílio do Estado, se deram conta de que a lógica do mercado, que é competitiva e nada cooperativa, leva naturalmente para uma grande crise. Foi o que ocorreu.

Essa crise poderá ser usada como desculpa para se abandonar de vez as metas do milênio, de reduzir à metade a pobreza no mundo até 2015?

As metas do milênio, até agora, foram pouco levadas a sério. Foi antes uma retórica das grandes empresas. Elas tiraram muito pouco de seu lucros para investir nos países pobres. Foi uma espécie de acalmar a consciência, dada a disparidade imensa entre ricos e pobres. Mas não mudou a estrutura entre riqueza e pobreza, acumulação, processo de destruição da natureza, criação de pobres e famintos, por causa desse processo econômico especulativo, devastador das relações sociais e ecológicas. Essa máquina continua produzindo pobres. E não há metas de milênio que possam superá-las mantendo essa estrutura.

Os governos dizem não ter dinheiro para as metas do milênio nem para cumprir as metas do Protocolo de Kyoto, mas gastam trilhões para salvar os bancos. O que o senhor acha disso?

Essa prática mostra a profunda falta de ética, de sentido de valor e de prioridades, com que esse sistema sem coração, materialista, cruel e sem piedade, se organizou e se hegemonizou nos últimos 30 a 40 anos. Agora ele está mais interessado em salvar-se a si mesmo do que em salvar vidas. Não era uma economia para produzir meios de vida, mas para produzir acumulação. Esse modelo entrou em crise. Não sabemos qual seguirá. Mas seguramente será uma economia que vai ser controlada pela política e vai respeitar alguns princípios éticos.

O papa disse que o colapso dos bancos mostra que "o dinheiro não vale nada"? O senhor partilha essa opinião de Bento 16?

Essa é uma visão moralista. O dinheiro não vale nada e vale tudo, porque o Vaticano também tem preocupações financeiras. O dinheiro vale, desde que ele seja uma mediação para a vida, para a realização das transformações necessárias, para encontrar formas de realizar justiça. Não somos contra o dinheiro. Somos contra o dinheiro que se faz fim em sim mesmo. Mas somos a favor do dinheiro como meio para conseguir coisas necessárias para a vida, para ajudar as pessoas e especialmente para manter o planeta Terra vivo, que é a única casa comum que temos para habitar e que essa economia especulativa está colocando em risco.

O senhor acusou o papa de estar do lado dos ricos e de ser pouco solidário com os pobres. A que o senhor atribui isso?

O projeto principal do papa é conferir uma áura cristã à globalização, e isso a partir da Europa. O projeto dele é reconverter a Europa, para que, uma vez reconvertida, ela dê uma áura religiosa à globalização. Para nós que vivemos na periferia do mundo, onde moram mais de 52% de todos os católicos, essa opção pela Europa significa uma opção pelos ricos. E a Europa mesma não está interessada em assumir essa função religiosa de dar um nimbo de espiritualidade à globalização. A Europa é uma cultura crepuscular, secularizada, tem o cristianismo pelas costas e não na frente, como uma fonte de inspiração. Esse projeto do papa é um grande equívoco e não terá nenhuma conseqüência concreta.

A "opção pela Europa" significa que a Igreja esqueceu a "opção pelos pobres"?

Ao optar pela Europa, optou pelos ricos, porque a Europa é onde os ricos vivem e estão ao lado de outros países do Atlântico norte. Os pobres não têm centralidade. Não é que o papa não fale dos pobres. Quando esteve na América Latina, falou dos pobres, dos oprimidos, de vez em quando lembra a fome no mundo, mas não é o eixo estruturador da pastoral da Igreja. Não é a grande preocupação que move a Igreja a dizer, nós queremos ser a voz dos sem voz, queremos ser os advogados dos pobres. Isso ela não é. E os pequenos apelos que faz aqui e acolá não corrigem essa falta de projeto que venha a beneficiar os pobres.

"Leonardo Boff – Advogado dos pobres" é o título do livro sobre o senhor, que está sendo lançado na Suíça. Há muitos políticos e ONGs que também se consideram advogados dos pobres. A questão da pobreza para alguns é um bom negócio?

Primeiro, este título é excessivo. Há muitas outras pessoas e organizações que são muito mais advogdos dos pobres do que eu. Como teólogo, sempre tentei fazer uma Teologia da Libertação em favor dos pobres, contra a pobreza. Me mantive fiel a isso nos últimos 40 anos, apesar das perseguições. É um destino de vida. Agora, a pobreza não faz riqueza. A pobreza é um desafio à generosidade, à humanidade. As transformações políticas e sociais é que produzem continuamente e reproduzem a pobreza. Se não mudarmos essas estruturas haverá sempre pobres, tenderão a aumentar e tornarão a Terra cada vez mais degradada. Porque os pobres, por necessidade, degradam porque estão largados à sua própria sorte e porque são feitos pobres.

O que os ricos suíços e europeus podem fazer pelos pobres da América Latina?

Eu acho que eles têm que saber que pobre existe, que os pobres gritam e que eles também têm que escutar os gritos dos pobres. E fazer políticas de ajuda econômica, que é uma forma de reforçar a dimensão de cooperação, de solidariedade em nível internacional.

Em Berna, o senhor fez uma palestra sobre três supostos "advogados dos pobres": Lula, Fernando Lugo (Paraguai) e Rafael Correa (Equador). O que esses três presidentes têm em comum?

O que eles têm em comum é que vêm de baixo. Eles vêm da grande articulação do poder social, que ocorreu a partir dos anos 50 em toda a América Latina. Em comum eles têm projetos sociais, que colocam os povo e suas demandas básicas de saúde, comida, eduação e habitação no centro. E os três se reportam à Igreja da Libertação. Eles se educaram dentro do cristianismo libertador. Muitos ministros de Lula vêm da Teologia da Libertação. O presidente do Paraguai era um bispo da libertação. Rafael Correa é discípulo de François Houtart, que é um dos grandes sociólogos da libertação, na Bélgica, que formou muitos quadros na América Latina, na Ásia. Correa tenta na política do Equador, como Lula no Brasil e Fernando Lugo no Paraguai, viver essas dimensões que a Teologia da Libertação colocou como fundamentais, isto é, colocar o pobre no centro. E o pobre precisa de meios de vida, precisa comer, precisa morar, precisa ter saúde, e isso eles fizeram. Então, é uma contribuição que a Teologia da Libertação deu para a política. E isso é uma glória para essa teologia. Porque o importante não é a Teologia da Libertação, o importante é a libertação concreta dos pobres.

Mas as políticas sociais desses governos não acabam alimentando o assistencialismo, a cultura da esmola, a indústria da pobreza?

Tudo o que ajuda os pobres é bom, é fruto de generosidade. Porque há políticos, há classes sociais, para os quais os pobres são carvão a ser gasto na máquina produtiva, o pobre é um zero econômico, um peso da história. Tem gente que faz políticas, embora assistencialistas, paternalistas, mas ajuda os pobres. Entretanto, não é a política mais inteligente. Política inteligente é aquela que ajuda os pobres de tal maneira que eles saiam da pobreza, que não fiquem dependentes da benemerência pública, mas se desenvolvem até se tornar autônomos. O precesso emancipatório, de criar cidadania, criar autonomia, é um momento importante da libertação.

Lula, Lugo e Correa são católicos esquerdistas. A Igreja está tomando o poder na América Latina?

Graças a Deus, não. Eles são cristãos, são leigos que têm a sua autonomia, não têm ligação institucional com as conferências dos bispos. Eles têm uma relação que um cristão tem com sua Igreja, em democracias laicas, isto é, que têm a separação Igreja-Estado, e levam adiante ideais humanitários que têm a sua origem no cristianismo, mas que não dependem da hierarquia eclesiástica, nem são controlados pelas instâncias hierárquicas da Igreja.

O que senhor diz de neopopulistas como o presidente venezuelano Hugo Chávez, cujo programa social – as "missiones" – imita o discurso da Igreja pelo menos no nome?

Chavez fez um bem enorme para o povo. Porque ele nacionalizou o petróleo e usou esse imenso dinheiro não para obras faraônicas, mas para erradicar o analfabetismo, para criar um vasto projeto de saúde, criar políticas sociais, ajudar outros países. Entretanto, como há poucos movimentos sociais na Venezuela, a relação dele é mais direta com o povo. E aí há o risco do populismo. O ideal seria o presidente articular-se com os movimentos sociais, que por sua vez se articulem com as bases, e aí há um diálogo, uma resistência, uma negociação, o estabelecimento de uma agenda comum - isso faz a democracia participativa e evita o populismo.

Muitos movimentos sociais baseados na Teologia da Libertação também passaram para o lado governista. O lado subversivo da Teologia da Libertação acabou?

É muito curioso que o MST, Movimento dos Sem Terra, o Movimento dos Sem Teto, todos eles são movimentos autônomos. Apóiam Lula porque dizem Lula é nosso, nós ajudamos a criar o Lula. E ao mesmo tempo fazem críticas profundas ao Lula, por não ter feito a reforma agrária, por ainda obedecer muito a agenda neoliberal. Eles não se deixam conquistar pelo poder. São aliados do poder. Mas não há um submetimento, uma aliança fechada. São corpos autônomos, que dialogam, colaboram, têm diferenças, mas fundamentalmente assumem o mesmo projeto de base, que é um projeto social orientado para as grandes maiorias pobres.

Quais são as suas críticas ao governo Lula?

Eu não faria, deixaria os inimigos de Lula fazer porque eles têm muitas a fazer. A única coisa que eu diria é que Lula precisaria tentar fazer a reforma agrária. Foi uma promessa de campanha, não foi feita essa reforma agrária, e a população espera essa grande revolução que seria a maior da história brasileira.

Fonte:`Portal do Meio Ambiente

'Marx tinha razão', afirma arcebispo

"Na sua análise do capitalismo, Karl Marx estava certo", palavra
do sucessor do cardeal Joseph Ratzinger e supervisor da encíclica
social. No livro "O Capital - Uma defesa do homem", o arcebispo de
München, Reinhard Marx, dirige uma surpreendente carta-reabilitação ao
fundador do comunismo.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, do jornal italiano La Stampa,
26-10-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"É preciso levá-lo a sério, é um erro considerá-lo morto, como
muitos o pensam. O movimento marxista tem causas reais e coloca
questões justificadas" - afirma o arcebispo designado por Bento XVI à
sede arquiepiscopal que foi sua. "Apoiemo-nos em Marx, porque ele
tinha razão. Na sua análise da situação do século XIX, existem pontos
irrefutáveis. A ética social da Igreja nunca confundiu a obra
filosófica de Marx com Stalin e o Gulag".

Em suma, "não se pode atribuir a Marx o que os seus epígonos
fizeram". Antes, o filósofo de Trier "analisou bem o caráter mercantil
do trabalho e previu a mercantilização de todos os setores da vida". E
o comunismo "não desapareceu definitivamente da face da terra com a
queda da URSS, já que vemos que Marx está vivendo agora um
renascimento, como confirma a triplicação das vendas na Alemanha do
primeiro volume do Capital".

Para o arcebispo, muito influente no episcopado europeu, "com o
tipo de capitalismo herdado da Segunda Guerra Mundial não iremos
longe". Depois do Times, de Londres, que há poucos dias reconheceu a
longividência de análise dos desenvolvimentos dos mecanismos
capitalistas, também na hierarquia eclesiástica Marx encontra
admiradores inesperados. Para remover, entretanto, os equívocos do
caminho, o arcebispo metropolitano afirma não se marxista, mas deseja
uma sociedade com uma economia "baseada em princípios éticos". Desse
ponto de vista, a doutrina social da Igreja constitui uma crítica
anticapitalista: "Um capitalismo sem um quadro ético é inimigo do
gênero humano". Por isso, "é preciso pedir desculpas a Marx por tê-lo
deixado ao esquecimento", assegura o prelado à revista Der Spiegel.

Exulta a Rifondazione Comunista [1]: "Até o arcebispo de München o
diz: o comunismo é atual e necessário". Claudio Grassi, da secretaria
do PRC: "São trechos do documento conclusivo do congresso da
Rifondazione vindo de 'comunistas identitários'?" - pergunta-se
retoricamente Grassi. "Não. É o arcebispo católico de München. Quanto
os dirigentes da esquerda italiana, que definem o comunismo como uma
palavra 'indizível', tem o olhar voltado para trás!". Uma "benção"
muito mais clamorosa, porque vem de um eclesiástico de peso. O
arcebispo Marx é membro do Pontifício Conselho Justiça e Paz. A sua
releitura do pai do comunismo não passará inobservada: o prelado
alemão foi escolhido para a supervisão das contribuições que
confluirão na próxima encíclica social de Ratzinger.

Notas:

1. O Partito della Rifondazione Comunista (Partido da Refundação
Comunista), PRC ou simplesmente Rifondazione Comunista é um partido
político da esquerda radical italiana, pacifista e ligado aos
movimentos sociais. Foi fundado em 1991, por antigos membros do
extinto Partido Comunista Italiano