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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Crianças consumidoras: onde se quer chegar?

Por Reinaldo Canto




É interessante notar como acontecimentos inusitados imprimem em nossa vida constantes transformações, moldando nossos pensamentos e nossas ideias. A chegada de um ser especial faz tudo mudar, ou melhor, trás novos sentidos para muitas das mesmas questões.

A preocupação com a preservação ambiental, com a exaustão dos recursos naturais e com a perda da biodiversidade sempre foram encaradas, sem levar em conta a finitude da minha própria vida. A indignação com o nonsense pela forma como o ser humano tem lidado com o nosso sofrido planeta, já era motivo suficiente para fazer parte da batalha por corações e mentes em busca dessa difícil convivência entre o homem e a natureza.

Aí chega a paternidade e a visão se amplifica e ganha novos horizontes e contornos. Novas velhas perguntas passam a receber um olhar ainda mais crítico e atento: Minha filha vai crescer num planeta mais triste, com mais fome, guerras e destruição? O mundo que conhecemos hoje será muito diferente e pior de se viver daqui há 20, 30, 40 anos?

São perguntas que vêem seguidas de um arrepio na espinha ao imaginar para minha filha, que ainda não completou dois anos de idade, uma herança bastante amarga.. Fatos não faltam para fazer esse tipo de afirmação. Escassez de água e de produção de alimentos não são visões de catastrofistas de plantão, mas a pura realidade com sinais bastante claros para nenhum cartesiano colocar dúvida.

Das atuais para as próximas gerações

A esperança reside na expectativa de que, se soubermos orientar e educar as nossas crianças e jovens para frear o consumo e o desperdício desenfreado, além de respeitar as outras criaturas que habitam o planeta, estaremos contribuindo para formar as novas gerações com valores muito mais positivos em prol da sustentabilidade.. Agora, a tarefa não é nada fácil. Começando pela simples observação de que temos feito muito pouco para mudar essa realidade.

A nossa geração já tem elementos e informação suficientes sobre as graves conseqüências que a sociedade de consumo, ávida por energia e recursos naturais, vem causando notadamente nos últimos anos. Mesmo assim continua a consumir muito mais do que o planeta consegue repor. Nossos lixões e aterros sanitários, principalmente em grandes capitais brasileiras como São Paulo e Rio de Janeiro, entraram em colapso, como já alertou o jornalista Washington Novaes, em seus artigos no jornal O Estado de São Paulo. E, muitos desses materiais, ou melhor, pelo menos 30% de tudo o que vai abarrotar esses lixões e aterros sanitários são perfeitamente reaproveitáveis ou recicláveis e poderiam ter um destino mais nobre e reduzir os impactos ambientais causados pelas cadeias produtivas e seus consequentes descartes.

Recentemente, o escritor uruguaio Eduardo Galeano escreveu um artigo indignado contra a cultura do descartável. Galeano lembrou a sua infância e a utilização quase total de todo tipo de material. No Uruguai de 50 anos atrás, tudo era reaproveitado e até mesmo transformado em brinquedos como tampas e latas. Desperdício de alimentos, então, nem pensar. Cascas e restos de alimentos viravam doces, compotas deliciosas, o que aliás não diferencia muito das antigas estórias de muitas famílias brasileiras.

Não é que não existam mudanças ou novas atitudes em busca de um mundo mais sustentável. Aqui e ali surgem projetos dignos de nota: projetos de reciclagem, de redução de gastos de energia, de reaproveitamento de água e por aí afora. Mas convenhamos que diante do comportamento da maioria, é caminhar a passos de tartaruga, enquanto os efeitos do aquecimento global, da perda de florestas, da contaminação da água, correm a jato. Todos nós, uns mais outros menos consumimos mais do que das nossas reais necessidades e as possíveis exceções só confirmam a regra.

É exatamente aí que quero chegar: que lições estamos passando para as futuras gerações? E quais as contribuições que podemos dar aos nossos filhos?

Com certeza, o primeiro passo é ampliar nossas ações. Pensar nos 3 Rs - acrescidos de um R inicial proposto pelo Instituto Akatu pelo Consumo Consciente (Repensar; Reduzir; Reutilizar e Reciclar. Depois colocar em prática e viver uma vida mais simples e saudável.

No caso das crianças, trocar o material, ou seja, mais uma boneca, ou um novo carrinho por mais afeto e compartilhamento de momentos em família, como um passeio ao ar livre, por exemplo. Os terapeutas são unânimes em afirmar que o afeto é mais importante que o material e o contato com a natureza é a melhor maneira de fazer com que as crianças a admirem e respeitem.

Se elas vão receber um planeta mais caótico para se viver, nós temos no mínimo, o dever de orientá-las desde os seus primeiros passos. E isso, é claro, não é responsabilidade apenas dos pais, mas da escola, dos governos e também das empresas que precisam fazer a sua parte em prol de um mundo melhor.

Bombardeio publicitário

Se a vida já não parece fácil, a nossa tarefa, como pais, fica ainda mais difícil e complicada quando assistimos pasmos, a publicidade insana voltada para as crianças. São anúncios na televisão, outdoors e vitrines de supermercados que se utilizam de todos os recursos para atrair os pequenos. São brinquedos e alimentos muito atraentes na sua apresentação e pouco saudáveis em muitos sentidos, seja para o planeta, como também para a saúde das crianças. É o caso de brindes associados a alimentos industrializados e fast-foods pouco nutritivos e muito calóricos responsáveis pela incidência da obesidade infantil.

Organizações de defesa do consumidor, como o IDEC e o Instituto Alana, há tempos lutam contra a publicidade infantil que, aliás, já é proibida em muitos países desenvolvidos. Em recente entrevista, a coordenadora de educação e pesquisa do Instituto Alana, Laís Pereira, afirmou que crianças até os 12 anos ainda não formaram um pensamento crítico sendo presas fáceis da publicidade irresponsável. Outra informação da pesquisadora, que é também bastante preocupante para pais e educadores, se refere às crianças de até quatro anos de idade. Segundo ela, nessa faixa etária, a criança não distingue a diferença entre publicidade e conteúdo de um programa.

As agências de propaganda e as indústrias responsáveis por esses produtos costumam alegar que quaisquer proibições aos anúncios constituem restrições a liberdade de expressão e de informação. Não creio que isso faça sentido. Antes de mais nada essas bem vindas restrições viriam ao encontro do que estabelece o Código de Defesa do Consumidor e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Instrumentos do mais alto nível que vem contribuindo e muito para o aprimoramento da democracia e da cidadania em nosso país e proteger os direitos mais elementares da nossa sociedade e das nossas crianças.

Esses são apenas alguns exemplos dos enormes desafios pelos quais nós pais temos que lutar. E é evidente que tais lutas vão muito além de nossas atitudes pessoais. É preciso agir também coletivamente ao participar e enfrentar forças que, muitas vezes, tem como interesse apenas os ganhos imediatos e como resultado final, enormes prejuízos sociais. O futuro dos nossos filhos é uma boa razão para manter a espinha ereta e o olhar firme no horizonte. As crianças merecem essa chance.

* Reinaldo Canto é jornalista, ex-Diretor de Comunicação do Greenpeace e ex-Coordenador de Comunicação do Instituto Akatu. BLOG – cantodasustentabilidade.zip.net

Fonte: Envolverde

sábado, 27 de dezembro de 2008

A NATUREZA E A DICOTOMIA RAZÃO VERSUS INSTINTO




Foi por mostrar uma natureza suplicante, rastejante, e nem por isso em posição inferior, mas como quem se encontra prestes a engolir o impassível ser humano que a confronta imóvel, protegido e frio, que me impressionou tanto esta fotografia de Monica Denevan. A imagem é uma bela representação da postura que tem marcado a relação humana com a castigada mãe natureza, haja vista, a título de exemplo, o que temos feito diante da problemática do aquecimento global.
A cada dia que passa recebemos mais evidências de que nossos esforços na mitigação do efeito estufa antrópico(1) estão longe de serem suficientes e muito aquém de metas assumidas. Apesar disto, na última Conferência das Partes (COP14)(2), o que se viu foram nações buscando defender seus próprios interesses, seus confortos adquiridos ao longo do tempo, e cedendo em geral apenas onde não seriam necessários grandes esforços.
Obviamente não será o suficiente. As conseqüências de nossa displicência logo se mostrarão, e quando a situação recrudecer-se a extremos e o homem resolver finalmente reagir como deveria, talvez seja tarde demais.
Mas a sábia natureza sempre caminha para o equilíbrio, e as fontes de desordem mais cedo ou mais tarde são eliminadas. Neste caso a fonte somos nós e, conforme já dizia Raulzito lá pelos idos de 1973:

“Buliram muito com o planeta
E o planeta como um cachorro eu vejo
Se ele já não aguenta mais as pulgas
Se livra delas num sacolejo”(3)

O ímpeto hematófago(4) a humanidade, que suga sem piedade os recursos do planeta, é mais forte que qualquer razão. O ser humano prova a cada dia ser um animal como qualquer outro, apesar de se achar superior aos demais.
O instinto competitivo animal impele os indivíduos a tomarem para si e consumir o máximo de qualquer recurso(5) que lhe seja caro (aqui não no sentido estritamente financeiro da palavra, mas no mais amplo). Um animal qualquer, diante de uma fonte abundante de alimento, come e reproduz-se a exmo, até que a fonte se esgote e, se não houver alternativas, a mortalidade seja generalizada. O homem, claro, é um pouco mais pretencioso que os demais animais, de modo que para nós estes recursos representam, além de coisas básicas como água e alimento, também regalias como carrões potentes, espaçosas casas ou um carrinho de supermercado lotado de guloseimas. Mas todas as espécies existentes sobre o planeta evoluíram aperfeiçoando-se para passarem seus genes para as gerações seguintes, na maior quantidade possível e enquanto houver condições para isto, buscando a dominância e a perpetuidade e nunca levando em consideração as necessidades das outras. Para isto são necessários recursos naturais, o quanto mais melhor.
Quando surge uma espécie com um alto poder adaptativo ou num meio com grande abundância de recursos, esta logo domina o ambiente e se multiplica geometricamente, numa curva ascendente, monopolizando uma grande quantidade destes recursos para si. Porém isto dura pouco, pois a capacidade de suporte(6) do meio é limitada, e logo o crescimento estabiliza-se ou a densidade populacional cai abrupta e verticalmente, devido ao esgotamento de algum destes recursos (em geral alimento). É o ímpeto competitivo, a força motriz básica da evolução descrita por Darwin a mais de um século, que governa estas atitudes. A natureza é rica em exemplos deste tipo e o homem é apenas mais um.
Para que deixemos de ser apenas mais uma destas espécies, o grande desafio está aí, crescendo diante de nossos olhos. Trata-se de suplantar e dominar com a razão nossos mais básicos instintos, os impulsos primevos de “alimentar-se” e reproduzir, passando a consumir menos e retirar da natureza apenas o que ela pode repor num tempo viável. Isto faria com que nossa curva de crescimento populacional se estabilizasse sem quedas abruptas (que representariam uma mortalidade generalizada).
Porém, por enquanto, a razão tem perdido feio esta luta, diria que está próxima de ser nocauteada...

(1) O efeito estufa é um fenômeno natural, que mantêm o planeta terra numa temperatura média agradável, tornando a vida como ela é hoje viável. Porém algumas atividades humanas potencializam este efeito, gerando o que chamamos de “efeito estufa antrópico”, que é um aquecimento da atmosfera acima do que ocorreria sem a intervenção humana.
(2) A Conferência das Partes reúne-se anualmente e é o órgão decisório supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que, por sua vez, é um tratado internacional do qual são signatários mais de 150 Estados, criado com o objetivo de fazer frente às mudanças climáticas mundiais. COP14 é a sigla para a 14ª Conferência das Partes, que ocorreu em dezembro de 2008 na Polônia.
(3) Trecho da música “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”, composta por Raul Seixas.
(4) Hematófagos são parasitas que se alimentam de sangue, a exemplo das citadas pulgas da música de Raul Seixas.
(5) Num conceito biológico, recurso é tudo aquilo que é necessário para uma espécie e virtualmente esgotável. Como exemplos poderíamos dar os alimentos, a água, ou o próprio espaço físico.
(6) Capacidade de suporte é o tamanho máximo estável de uma população, determinado pela quantidade de recursos disponíveis e pela demanda mínima individual.



Autor: Jean Fábio Bianconcini

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Destruição da Amazônia na prateleira do supermercado

12/11/2008

Andrea Vialli

Há um pouco de destruição da floresta amazônica em cada prateleira do supermercado. E nós, consumidores, ainda dispomos de poucos meios para saber o quanto estamos contribuindo para a devastação do nosso bioma mais importante.

A carne, soja e madeira que consumimos por aqui estão na raiz do desmatamento da Amazônia. O que já era dito por ambientalistas que há tempos atuam na região foi comprovado com um estudo divulgado esta semana, durante o seminário "Conexões Sustentáveis: São Paulo - Amazônia". O levantamento é fruto de um extenso trabalho de reportagem das ONGs Repórter Brasil e Papel Social Comunicação.

A equipe acompanhou essas cadeias produtivas, para mostrar que a destruição da floresta favorece empresas intermediárias, que compram de produtores em situação irregular, e depois fabricam ou processam mercadorias consumidas pelos moradores de São Paulo e de outros grandes centros consumidores do País.

"Na ponta da cadeia produtiva, diversos atores se beneficiam. Madeireiras, frigoríficos e agroindústrias estão diretamente ligadas ao problema, pois compram de fornecedores que estão na linha de frente do desmatamento. Posteriormente, distribuem produtos industrializados para uma ampla rede de compradores", diz um trecho do documento, disponível para download no site do Movimento Nossa São Paulo.

Pecados da carne

O caso da carne é emblemático. O Brasil hoje tem o maior rebanho bovino do mundo - o número de cabeças, estimado em 250 milhões, supera até a população brasileira. Sim, tem mais boi que gente.

Entre 2003 e 2006 o rebanho bovino cresceu 10 milhões, sendo que 96% desse crescimento ocorreu na Amazônia Legal. Nesta região, os abatedouros que portavam o Serviço de Inspeção Federal (SIF) no ano de 2004 eram 27. Já em 2007 o número saltou para 87 . O grande incentivo é o preço da terra: cada hectare custa R$ 250, segundo informações do Greenpeace.

Uma pechicha: é só botar a mata abaixo e colocar gado lá. Tem quem compre. Nós.

Nunca é demais lembrar que a ocupação da área amazônica foi fartamente estimulada pelo governo na década de 1970, com subsídios para a pecuária e derrubada da floresta para fins agrícolas. Levas de migrantes do sul e sudeste do País foram incentivados a ir para o norte para "desbravar" a região. Mesmo hoje o governo dá pistas de que ainda não assimilou bem o conceito do desenvolvimento sustentável para a Amazônia.

Ainda sobre a carne, não é de hoje que vem sendo dados alertas de que o aumento no seu consumo é um forte ingrediente para o aquecimento global. O próprio Rajendra Pachauri, Nobel da Paz e presidente do Painel da ONU para as Mudanças Climáticas (IPCC) recomendou que, para o bem do planeta, as pessoas comam menos carne. Isso porque, para se produzir um quilo de proteína animal, são necessários vários outros de proteína vegetal - soja, milho. E haja terra para plantar grãos para alimentar gado para alimentar humanos... Nessa toada, não há floresta que resista. E vale lembrar que a Amazônia regula o clima e o regime de chuvas de todo o País...

Pactos

De toda forma, o alerta dado pelas ONGs uniu grandes empresas - que também precisam salvaguardar sua imagem - na assinatura de um pacto para vigiar suas cadeias produtivas e só comprar de fornecedores que estejam em conformidade com a lei. As três maiores redes varejistas - Pão de Açúcar, Wal-Mart e Carrefour assinaram. Os maiores frigoríficos também, incluindo os gigantes JBS Friboi e Marfrig. Como o papel aceita tudo, o cumprimento dos pactos será monitorado por um conjunto de ONGs e também pelo Ministério do Meio Ambiente.

Fonte: Portal do Meio Ambiente