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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Desemprego atinge 8,2% em janeiro

25/02/2009 - O nível de desemprego nas seis maiores regiões metropolitanas do país subiu em janeiro e fechou o mês em 8,2%. O resultado superou em 1,4 ponto percentual o verificado em dezembro de 2008 (6,8%) e representa a maior taxa desde abril do ano passado (8,5%). Já na comparação com o mesmo período do ano anterior (8,0%) a taxa de desocupação ficou praticamente estável.

De acordo com dados divulgados na sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas desocupadas cresceu 20,6% na passagem de um mês para o outro, totalizando 1,9 milhão de pessoas em janeiro. Já em relação ao mesmo mês de 2008, esse volume se manteve no mesmo patamar.

A pesquisa revela, ainda que a população ocupada sofreu redução de 1,6% de dezembro a janeiro, fechando o mês com a marca de 21,2 milhões de trabalhadores.

Ainda segundo o estudo, o número de trabalhadores com carteira assinada, 9,5 milhões, caiu 1,3% em relação a dezembro e cresceu 4,5% na comparação anual. Já o rendimento médio ficou em R$ 1.318,70, tendo subido 2,2% no mês e 5,9% na comparação com janeiro de 2008.

Em janeiro, os setores que mais demitiram, na comparação com o mês anterior, foram o da construção (-4,7%) e do comércio, reparação de veículos automotores e de objetos pessoais e domésticos e comércio a varejo de combustíveis (-2,5%). Já em relação a janeiro de 2008, as contratações superaram as demissões em educação, saúde, serviços sociais, administração pública, defesa e seguridade social (5,1%).

Fonte: Gazeta Mercantil/Agência Brasil. Adaptado por Celulose Online.

FED faz prognóstico sobre economia americana

25/02/2009 - A total recuperação da maior economia do planeta só ocorrerá dentro de dois ou três anos, segundo prognóstico do presidente do Federal Reserve (Banco Central dos Estados Unidos), Ben Bernanke. O prazo pode ser menor se o governo de Barack Obama, o Congresso e o próprio FED conseguirem restaurar, em alguma medida, a estabilidade do mercado financeiro.

“Somente neste caso, na minha opinião, seria razoável prever o fim da atual recessão em 2009, e 2010 seria um ano de recuperação”, afirmou Bernanke ao apresentar relatório semestral de política monetária ao Senado norte-americano.O presidente do Fed apontou as causas da atual recessão, mencionou as consequências da crise nos Estados Unidos e enumerou as medidas tomadas pelo governo, mas reconheceu que se mantém a tendência de aguda retração da atividade econômica no primeiro quadrimestre de 2009. Também lembrou que, em janeiro, os técnicos do FED reviram para baixo a previsão de crescimento da economia americana para 2009. A nova projeção é de uma queda entre 0,5% a 1,3% do PIB – em outubro de 2008, a expectativa variava entre uma retração de 0,2% e uma taxa de crescimento de 1,1%.

“Estas projeções refletem uma já esperada significativa retração na primeira metade deste ano, combinada com uma retomada gradual do crescimento na segunda metade”, disse Bernanke.

As projeções para 2010 são melhores, mas ainda modestas. “Os formuladores de políticas do FED continuam esperando uma expansão moderada no próximo ano, com tendência de crescimento real do PIB entre 2,5% e 3,3%”, frisou. Já a taxa de desemprego só deve começar a cair no final do próximo ano, ficando em torno de 8%.

Bernanke ressaltou, no entanto, que o panorama ainda é bastante incerto. Um dos maiores riscos, segundo ele, vem da “natureza global” da retração econômica – o que, na sua avaliação, pode afetar as exportações americanas e as condições financeiras além das atuais projeções.

Outro risco apontado pelo presidente do FED é a “força destrutiva” da inter-relação entre a fragilidade da economia e as condições financeiras. “Para quebrar este ciclo adverso, é essencial que continuemos a dar estímulos fiscais, com uma forte ação do governo para estabilizar as instituições financeiras e os mercados financeiros”, alertou.

O FED e o Tesouro americano anunciaram novas modalidades de ajuda a bancos em dificuldade, com possibilidade de nacionalização das instituições. Índice do Conference Board divulgado hoje mostra que a confiança dos consumidores norte-americanos chegou, em fevereiro, ao pior nível dos últimos 40 anos. O índice foi de 25 pontos, contra 37,4 pontos registrados em janeiro – o mais baixo desde 1967.

Fonte: Agência Brasil. Adaptado por Celulose Online.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Relatório pede US$ 400 bi contra mudança climática

Especialistas defendem que planos de estímulo econômico direcionem recursos para a redução das emissões de gases do efeito estufa

Publicado em 15/02/2009 | The Guardian

Londres - Governos em todo o mundo devem investir centenas de bilhões de dólares em projetos ecológicos dentro de alguns meses em um ataque massivo à crise econômica e ao aquecimento global, defende um estudo de alguns gurus da economia, entre eles Nicholas Stern.

O relatório, divulgado na semana passada, recomenda que US$ 400 bilhões sejam canalizados em investimentos em tecnologias para baixar as emissões de gás carbônico. Devido à urgência de ambas as crises, ambiental e econômica, o relatório aponta que os investimentos devem ser feitos durante o verão do Hemisfério Norte.

Lord Stern, ex-economista do tesouro britânico e hoje presidente do Instituto de Pesquisas sobre as Mudanças Climáticas e Ambientais Grantham, disse: “Os países ricos e industrializados precisam mostrar liderança durante este ano ao se comprometerem a reduzir as emissões de gases estufa em pelo menos 80% até 2050, tendo como base o ano de 1990, além de planos de recuperação econômica que sejam consistentes com esta meta.”

O relatório, formulado por muitos dos membros que prepararam, em 2006, o influente Relatório Stern sobre a economia das mudanças climáticas, diz que os políticos não devem mais atrasar planos de cortar drasticamente as emissões por causa da desaceleração econômica mundial. Ao invés disto, ações para lidar com as mudanças climáticas devem ser o cerne de pacotes fiscais para estimular economias nacionais.

O relatório avalia a probabilidade de sucesso de investimento em uma diversidade de políticas ecológicas. Ele aponta que as melhores políticas podem ser medidas de eficiência energética para residências e prédios públicos, a troca de caldeiras de aquecimento de água e a mudança para fontes de calor renováveis, como a biomassa. O documento também apela para maiores investimentos em pesquisa energética e de promoção de projetos de energia renovável, como a eólica, além do total suporte à adoção de carros menos poluentes com incentivos fiscais para compra de modelos híbridos ou flex.

Alex Bowen, do Instituto Grantham, autor principal do relatório, disse: “Nossa avaliação mostra que caso sejam gastos nos próximos 18 meses US$ 400 bilhões em todo o mundo em políticas e investimentos ecológicos, isso irá ajudar no combate da crise econômica atual, criar empregos e ajudar a lidar com as mudanças climáticas.”

Tradução de Thiago Pereira

Fonte: Gazeta do Povo

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Taxa Selic elevada alimenta spread bancário astronômico

Taxa de juro do BC é um guarda-chuva para os bancos sem correr os riscos dos empréstimos

Recentemente, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, interpelou o presidente do Bradesco e da Febraban, depois que este sugeriu que o Comitê de Política Monetária do BC deveria se reunir com mais frequência para que a queda na taxa de juros básica (Selic) fosse acelerada. “Vamos falar seriamente, o problema não é a Selic, é o spread bancário”, disse Meirelles.

O “spread” é a diferença entre a taxa com que um banco capta dinheiro e a taxa com que empresta esse dinheiro. Um dos principais componentes do “spread” é a taxa básica de juros, pela qual são remunerados os títulos públicos comprados pelos bancos. Mas, segundo a percuciente teoria que Meirelles formulou alguns dias depois, “o spread se descolou da Selic”. Ou seja, o “spread” dos bancos nada teria a ver com a taxa de juros do Banco Central.

Se essa tolice fosse verdade, seria um fenômeno econômico tão milagroso que só Nossa Senhora de Fátima poderia explicar. Como Meirelles não tem vocação – nem físico - para a santidade, e como suas tolices, em geral, são muito interessadas, vejamos mais de perto esta questão. Porém, antes, uma preliminar.

CRÉDITO

O volume do crédito no Brasil é atrofiado em relação ao tamanho da economia. No final de 2008, depois da extraordinária expansão do crédito no governo Lula, ele equivalia a 41,3% do PIB. No Japão, equivalia a 180%, na Inglaterra a 160%, na França a 90% do PIB. Aliás, foi o próprio Meirelles quem afirmou que o volume de crédito no Brasil era tão baixo que nem chegava ao das Filipinas, Hungria, Chile, Tailândia, Coréia do Sul ou Malásia (v. sua conferência, de título quase autobiográfico, “Brasil: O desafio do crescimento”).

A razão principal para uma restrição tão grande do crédito são os altíssimos “spreads” bancários. E a base para esses “spreads” é a altíssima taxa básica de juros do Banco Central. Essa taxa, inclusive, impede os bancos públicos de baixar seu “spread”. Voltemos, então, a este.

Segundo dados divulgados pelo BC na última terça-feira, os bancos, em dezembro, estavam pagando uma taxa, em média, de 12,6% ao ano pelo dinheiro que captam. Esse dinheiro estava sendo emprestado a uma taxa - também em média - de 43,2% ao ano. Portanto, a média do “spread” bancário, considerados os empréstimos a pessoas e empresas, estava em 30,6 pontos percentuais.

Se considerados somente os empréstimos a pessoas, esse “spread” estava em 45,1 pontos percentuais, margem verdadeiramente cosmológica, significando que o dinheiro pelo qual os bancos pagavam 12,6% ao ano estava sendo emprestado a uma taxa média de 57,7% ao ano. No caso das empresas, esse dinheiro era emprestado a uma média de 30,9% ao ano. É necessário observar que essas taxas médias são referentes ao que os bancos e seus consultores chamam de “clientes de primeira linha”. Para outros, a maioria, as taxas – e, por consequência, o “spread” - são muito maiores.

Trata-se, provavelmente, do maior “spread” do mundo, inviabilizando que a maior parte das empresas e dos consumidores tomem financiamentos nos bancos.

O problema é: por que o “spread” é tão alto no Brasil?

O economista Victor José Hohl, que trabalhou durante 17 anos no BC, formulou uma resposta sintética para essa pergunta: “O principal motivo é que as instituições financeiras não estão realmente interessadas em emprestar”.

E por que os bancos não estão interessados em emprestar?

Porque a taxa que o Banco Central estabelece para os títulos públicos é elevadíssima. Sem correr riscos, sem emprestar a empresas e pessoas, os bancos têm lucros estratosféricos com a mera compra de títulos públicos indexados às taxas do Banco Central. Os juros que os bancos auferem com esses títulos, juros que são estabelecidos pelo Copom/BC, são suficientes para que tenham entradas bilionárias - sem qualquer espécie de risco.

Evidentemente, isso nada tem a ver com “mercado”. O BC, na verdade, ceva um monopólio bancário com suas altas taxas de juros – e com dinheiro público. Tendo garantidos esses elevados lucros, os bancos estabelecem “spreads” altíssimos quando se trata de emprestar a empresas e pessoas. Se estes não quiserem ou não puderem pagar esses “spreads”, que se danem, pois o banco não precisa emprestar a eles para lucrar.

Nas palavras de outro economista, André Modenesi, do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), entrevistado por Luiz Sérgio Guimarães, em sua coluna da última terça-feira no jornal “Valor Econômico”:

“’Não é por acaso que no país onde se pratica uma das maiores taxas básicas de juros do planeta também se verificam spreads bancários exorbitantes’, diz Modenesi. A razão é muito simples: as LFT (Letras Financeiras do Tesouro - títulos indexados à Selic) constituem um ativo especial ao possuir alta liquidez, elevada rentabilidade e risco desprezível. Com isso, diz o economista, os bancos brasileiros não precisam emprestar (….) para gerar resultado; basta comprar LFT. ‘É por isso que os bancos brasileiros são altamente rentáveis apesar de não realizarem a contento sua função primordial: produzir empréstimos’” (grifos nossos).

Victor José Hohl observa que “dificilmente” uma empresa e “muito menos pessoas físicas” conseguem, em seus negócios, um retorno superior (nós diríamos: nem semelhante) às taxas do BC para os títulos públicos. No entanto, os bancos obtêm esse retorno simplesmente comprando Letras Financeiras do Tesouro (LFT) indexadas à taxa Selic do Banco Central. Então, por que baixariam seus “spreads”, se não precisam emprestar a mais ninguém para obter elevadíssimos lucros?

André Modenesi diz que as altas taxas do BC têm outro efeito: “os bancos não precisam competir entre si na concessão de empréstimos para dar lucro”. De forma geral, os bancos privados têm tendência atávica ao monopólio, ou seja, a constituir um cartel. O que eles fazem (ou tentam fazer) é, precisamente, monopolizar o dinheiro da sociedade. Mas, realmente, as altas taxas de juros do Banco Central são um incentivo extra (e extremamente forte) ao monopólio – é suficiente para eles extorquir um só cliente, o Estado. Para lucrar, não precisariam, a rigor, emprestar dinheiro a nem um mais.

TÍTULOS

O que também impede que os bancos públicos possam baixar seus “spreads” até um nível qualitativamente diferente dos bancos privados. Se o fizessem, estariam permitindo que o cartel privado aumentasse seu peso no setor financeiro. A idéia de que, se baixassem substancialmente seus “spreads”, poderiam atrair para si os clientes atuais dos bancos privados, é absurda – até porque a captação de dinheiro pelo cartel bancário é maior do que as dos bancos públicos, que não podem atender todos os que necessitam de financiamento no país. São, portanto, fundamentalmente as taxas de juro do Banco Central que impedem que o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e outros bancos estatais baixem seus “spreads” e possam competir com os bancos privados para impedir o monopólio do dinheiro e do crédito. Pelo contrário, as taxas do BC fazem com que os bancos públicos tenham de se submeter ao monopólio dos bancos privados, concentrados em torno dos juros extraídos dos títulos públicos.

CARLOS LOPES

Fonte: http://www.horadopovo.com.br/ModelosNovaEdicao/P3/pag3a.htm

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Os ricos do Brasil superam os da Suécia no IDH

Da redação da PrimaPagina

Os brasileiros mais pobres vivem em condições de desenvolvimento humano comparáveis às da Índia, mas os 20% mais ricos, em situação melhor que a fatia mais rica da população da Suécia, Alemanha, Canadá e França. As informações estão no relatório do PNUD que analisa os números recentes do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e cita um estudo europeu que conclui que países que atingiram alto desenvolvimento humano (IDH maior de 0,800) nos últimos anos, como o Brasil, ainda têm parte da população sofrendo privações comuns às de países do fim da lista.

O estudo “Desigualdade no Desenvolvimento Humano: Uma determinação empírica de taxas de 32 países” menciona cálculos que comparam a desigualdade em 32 nações ricas e em desenvolvimento. São elas: Austrália, Canadá, Finlândia, França, Alemanha, Itália, Holanda, Polônia, Espanha, Suécia, Estados Unidos, Colômbia, Brasil, Peru, Paraguai, Vietnã, Indonésia, África do Sul, Bolívia, Quirguistão, Nicarágua, Guatemala, Índia, Gana, Camarões, Madagascar, Guiné, Costa do Marfim, Zâmbia, Etiópia, Moçambique, Burkina-Fasso.

Nessas nações, os números do IDH foram calculados para 5 estratos da população de acordo com a renda. No Brasil, a fatia mais rica tem um IDH de 0,997, próximo do máximo (1,000). O número é maior que o IDH do país que encabeça o último ranking, a Islândia (IDH de 0,968), e supera o valor correspondente aos 20% mais ricos de todos os outros países calculados, incluindo o do Canadá (0,967) e o da Suécia (0,959), terceiro e sétimo lugar na lista, respectivamente.

O atual IDH do Brasil, uma média de todo o país, é de 0,807, mas os mais pobres estariam sujeitos a condições correspondentes a um IDH de 0,610, ficando abaixo do segmento mais pobre da Indonésia (0,613), do Vietnã (0,626), do Paraguai (0,644) e da Colômbia (0,662). O IDH dos mais pobres brasileiros é comparável ao IDH da Índia (0,609)

“Os resultados mostram que a desigualdade no desenvolvimento humano foi bastante alta, e maior ainda em países em desenvolvimento”, afirma o relatório do PNUD. O texto acrescenta que a América Latina é o continente que apresenta as maiores desigualdades. No Brasil e em países como Guatemala e Peru, a diferença do IDH dos 20% mais pobres para o IDH dos 20% mais ricos só não é superior à de alguns países da África, como Madagascar e Guiné.

O relatório do PNUD ainda destaca outras formas de desigualdade. Segundo o documento, uma criança que nasce em algum dos 20 países do topo do ranking pode viver até os 80 anos, mas se ela nascer nos países de IDH mais baixo, sua expectativa de vida não é maior que 49 anos. Segundo a entidade, houve avanços importantes na maioria dos países, em especial nos índices de educação, mas, especialmente na África, alguns países tiveram retrocesso. “São preocupações centrais as extensas lacunas entre os ricos e pobres e entre homens e mulheres dentro dos países. Altos níveis de pobreza humana em muitos países em desenvolvimento requerem ações prioritárias”, conclui o texto.

(PNUD)

Fonte: Mercado Ético

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Lucro de bancos supera todos os outros setores

25/11/2008 - O lucro dos 15 bancos de capital aberto que operam no País superou, pela primeira vez no governo Lula, o resultado de todos os outros setores no terceiro trimestre, segundo levantamento da consultoria Economática. De acordo com os dados, o setor financeiro somou lucro de R$ 6,926 bilhões no período, contra R$ 6,0 bilhões de todas as 201 empresas não-financeiras - sem considerar os resultados das estatais Petrobras e Eletrobrás e da mineradora Vale.

Entre as companhias não-financeiras, o setor mais lucrativo no trimestre passado foi o de Energia Elétrica. Conforme o estudo, 29 empresas de energia com ações na Bolsa registraram lucro combinado de R$ 2,94 bilhões de julho a setembro.

Na ponta oposta ficou o setor de Papel e Celulose, em que sete empresas tiveram juntas um prejuízo de R$ 2,66 bilhões - os resultados das empresas dessa indústria foram prejudicados por expressivas perdas com instrumentos financeiros derivativos, notadamente a Aracruz, maior produtora mundial de celulose branqueada de eucalipto.

Outros setores que apresentaram prejuízo no terceiro trimestre foram o Químico (com perda de R$ 924 milhões) e o de Alimentos e Bebidas (com R$ 12 milhões), segundo a Economática.

Já entre os destaques positivos ficaram, ao lado do setor elétrico, a indústria de Siderurgia e Metalurgia, com lucro de R$ 1,823 bilhão nos três meses até setembro, e o de Telecomunicações, com ganho de R$ 1,288 bilhão no período.

Fonte: Estadão Online. Adaptado por Celulose Online.

Mercado de ações...

Reproduzo aqui uma historinha interessante e anônima ilustrando o funcionamento do mercado de ações que recebi por e-mail. Para pensar...

"Era uma vez um pequeno vilarejo do Interior. Certo dia, apareceu ali um homem bem vestido, simpático, anunciando aos aldeões que compraria micos a R$ 10,00 cada um.

Iniciou-se, então, a caça aos micos da região. Em uma semana, o visitante já havia comprado mais de cem micos.

Como agora havia ficado mais difícil achar esses irriquietos macaquinhos na floresta, o homem anunciou que passaria a pagar R$ 20,00 por cabeça.

Conseguiu mais alguns pequenos símios, até que ficou praticamente impossível encontrar mais micos nas redondezas.

O investidor, então, anunciou que iria à capital e voltaria na semana seguinte. E que, ao retornar, pagaria R$ 50,00 por cada novo mico encontrado. Seu assistente ficou tomando conta dos animais já comprados.

No entanto, na ausência do patrão, o assistente fez a seguinte oferta aos aldeões: ele lhes venderia todos aqueles micos por R$ 30,00 cada um e, daí, quando seu patrão voltasse, os aldeões os revenderiam a ele por R$ 50,00.

Obviamente, todos aceitaram a sedutora oferta. E nunca mais viram o investidor nem seu assistente. Só micos, por todos os lados."

terça-feira, 25 de novembro de 2008

"Outro mundo é possível, sim nós podemos" - Capra

21/11/2008 - Autor: Fernanda Müller

O físico e célebre defensor das ciências da vida Fritjof Capra abriu a Conferência EcoPower 2008 em Florianópolis com palavras simples, porém impactantes sobre os desafios ambientais atuais


O grande desafio da civilização é “construir e cultivar a sustentabilidade”, disse o autor de livros como A Teia da Vida e Conexões Ocultas. Para Capra, o conceito de sustentabilidade está ligado à estruturação das comunidades de maneira que elas não interfiram na habilidade da natureza de sustentar a vida.

Nas últimas três décadas, segundo o físico, a humanidade passa por um novo tipo de capitalismo, que engloba inovações e sabedoria. A globalização resultou na acumulação de capital por poucos, em conseqüências ambientais desastrosas, na quebra da democracia e no aumento da pobreza, afirmou Capra.

As biotecnologias ‘invadiram a santidade da vida’, que foi transformada em uma commodity, disse. Tudo isto é insustentável social, ecológico e financeiramente. “Precisamos mudar este jogo”, enfatizou o físico.

Capra dá pistas de como começar esta mudança, afirmando que o primeiro passo é reconhecer a possibilidade de remodelar esta situação e percebendo que os lucros não são superiores a tudo. Para ele, a questão crítica não é tecnológica, mas sim a falta de vontade política.

Movimento Global da Justiça

O físico apresentou o Movimento Global da Justiça, composto por ONGs e que propõe medidas concretas para a reestruturação das instituições financeiras. Este novo tipo de movimento político depende de uma rede de institutos de pesquisas, pensadores e estudiosos.

Segundo ele, três são os pontos que devem ser focalizados: o desafio de remodelar a política, as controvérsias entre transgênicos e agricultura sustentável e o design ecológico. Isto tudo precisa ser feito com uma compreensão de como a natureza sustenta a vida, entendendo as conexões. “Precisamos passar da biologia para a ecologia”, disse ele ao referir-se à visão sistêmica e às interconexões dos processos ecológicos. Conhecer a teia da vida, salienta, é crítico para este novo design.

Tocando em um ponto falho da base da vida humana, Capra destacou que “a literatura ecológica deve ser a parte mais importante da educação em todos os níveis. “Precisamos ensinar nossas crianças, políticos e estudantes.”

Para o físico, este é o primeiro passo no caminho para a sustentabilidade. O segundo seria o design ecológico. “Temos que entender o vazio entre o design humano e da natureza. Os princípios do design ecológico refletem os princípios da organização que a natureza desenhou para apoiar a teia da vida”, reflete.

Este novo desenho inclui a agricultura orgânica, clusters industriais ecológicos e a mudança de uma economia orientada pelos produtos para uma guiada para os serviços. Atualmente já existem edifícios que produzem mais energia do que consomem e que não geram resíduos; assim como células a combustível de hidrogênio, que incorporam os princípios básicos da ecologia: pequenas escalas, não poluidoras e nem geradoras de resíduos.

Capra defende que a energia nuclear não possui um design ecológico, com diversos riscos, como a falta de conhecimento de como processar os resíduos radioativos. De acordo com ele, nenhuma empresa de seguros irá assegurar um reator nuclear. Além disso, o físico afirma que o urânio não é um combustível renovável e a tecnologia aplicada para a produção desta energia não é viável sem subsídios governamentais.

Vontade Política

Com as tecnologias disponíveis atualmente, a transição para um futuro sustentável é possível, “tudo que precisamos é vontade política e liderança”, garante.

Capra diz que a vontade política tem aumentado, como o papel de Al Gore na criação de uma consciência ecológica, o Relatório do economista inglês Nicholas Stern que aponta a possibilidade de estabilizar as mudanças climáticas investindo apenas 1% do Produto Interno Bruto (PIB) global e o livro de Lester Brown, fundador do Worldwatch Institute.

A obra “Plano B 3.0” é um guia detalhado para “salvar a civilização”, nas palavras de Capra. Ele destacou a importância da eleição de Barack Obama, dizendo que o novo presidente é inteligente, curioso e atencioso. “É um ótimo ouvinte, facilitador e mediador”. O seu programa político dá ênfase para as energias renováveis e pretende criar cinco milhões de empregos ‘verdes’.

“Outro mundo é possível, sim nós podemos”, concluiu Capra em uma analogia aos slogans do Fórum Social Mundial e da campanha de Obama.

Fonte: Carbono Brasil

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Brasil e China 'emergem como modelos de estabilidade', diz jornal

O Brasil e a China emergem como modelos de estabilidade, "neste momento de crise econômica global", diz artigo publicado na edição desta sexta-feira do jornal britânico The Daily Telegraph.
O jornal compara os dois países, considerados "mercados emergentes", à Grã-Bretanha e aos Estados Unidos, chamados de "mercados desenvolvidos" e diz que "esta grande divisão foi erodida" com a crise.

"O status de alguns mercados emergentes deve ser elevado, mesmo que em termos relativos", afirma o artigo, explicando que "alguns (países), como o Brasil, atualmente parecem representar menor risco (...) do que alguns (países) desenvolvidos como a Grã-Bretanha".

"Em termos de superávit comercial, endividamento em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) e tamanho de suas reservas cambiais, o Brasil derrota a Grã-Bretanha sem esforço", disse o jornal. "Sua economia (do Brasil) ainda deverá crescer 3% no próximo ano, enquanto a da Grã-Bretanha está encolhendo. E, embora a inflação brasileira esteja aumentando, ela parece estar sob controle."

'Responsabilidade fiscal'

O artigo contesta o próprio termo "mercado emergente", dizendo que ele foi "inventado pelo Banco Mundial há 30 anos e é definido com base em renda per capita baixa".

"Na época, partia-se do princípio de que estas economias eram instáveis e em processo de reforma econômica e de mercado. Só governos mais sábios, dos Estados Unidos e da Europa, poderiam demonstrar responsabilidade fiscal, acreditava-se - e este era geralmente o caso", diz The Daily Telegraph.

O artigo afirma, contudo, que embora esta suposição persista, "o governo brasileiro nos últimos anos seguiu cuidadosamente regras defendidas por economistas ocidentais, enquanto Estados Unidos, Grã-Bretanha e outros as desprezaram".

Sobre a China, o artigo do jornal britânico diz que "há muitas evidências que sugerem que a recessão que atingiu Estados Unidos e Europa não é meramente uma baixa cíclica, mas marca uma passagem do poder econômico no longo-prazo para a China e outros mercados emergentes grandes".

"Não pode mais haver uma reunião com credibilidade de G-alguma coisa (numa referência a G-8 e G-20) para tentar coordenar política monetária e fiscal sem incluir a China", afirma The Daily Telegraph.

Fonte: BBC Brasil

domingo, 23 de novembro de 2008

As Veias Abertas da América Latina



Não quero aqui "chover no molhado", mas gostaria de re-re-re-recomendar o livro "As Veias Abertas da América Latina", de Eduardo Galeano, pela sua atualidade (o original em espanhol é de 1971). A publicação desvenda, com bases documentais históricas, os mecanismos da expropriação impetrados pelos países desenvolvidos sobre a economia e recursos naturais do chamado terceiro-mundo. O mesmo mecanismo vige ainda hoje, a exemplo da monocultura da soja que enche os bolsos dos Blairos Maggis às custas da depredação do cerrado brasileiro. E vejo nosso governo, oriundo das mesmas bases esquerdistas que usavam o livro quase como uma bíblia no passado, anunciar aos quatro ventos seu entusiasmo com a produção de etanol para os gringos, mais um engodo perpetuador do parasitimo primeiro-mundista sobre nossas escancaradas veias. Os EUA aplaudem.

Link para baixar o livro da internet em pdf: www.geocities.com/eriolbootlegs/veias.pdf

Does growth really help the poor?

15 October 2008 by Andrew Simms

THE last line of defence for advocates of indefinite global economic growth is that it is needed to eradicate poverty. This argument is at best disingenuous. By any reasonable assessment it is claiming the impossible.

Here's why. During the 1980s, for every $100 added to the value of the global economy, around $2.20 found its way to those living below the World Bank's absolute poverty line. During the 1990s, that share shrank to just 60 cents. This inequity in income distribution - more like a flood up than a trickle down - means that for the poor to get slightly less poor, the rich have to get very much richer. It would take around $166 worth of global growth to generate $1 extra for people living on below $1 a day.

Fair enough, you might think, it's worth it. But consider the resources it would require. The measure known as the "ecological footprint" compares what we harvest from the biosphere, and return to it as waste, with the biosphere's ability to absorb this and regenerate. It reveals whether we are living within our means or eating into our ecological capital.

Humanity has been overshooting the biosphere's capacity to sustain our activities every year since the mid-1980s, and each year we do it sooner. In 2008, we had consumed the ration for the year by 23 September, five days earlier than the previous year. It would take at least three Earths to sustain us if everyone had the lifestyle of people in the UK; five if we all lived like Americans.

Perversely, under the current economic system, reducing poverty by a tiny amount will necessitate huge extra consumption by those who are already rich. To get the poorest onto an income of just $3 per day would require an impossible 15 planets' worth of biocapacity. In other words, we will have made Earth uninhabitable long before poverty is eradicated. If we are serious about helping the poor rather than the rich, we need a new development model.

Let's say we want an economy that gives us long, satisfied lives, within the tolerance levels of supporting ecosystems. Progress then requires maximising the efficiency with which an economy converts natural resources such as fossil fuels into desirable human outcomes. At the New Economics Foundation, we compare the ecological footprint with life expectancy and satisfaction, to see how well different nations are doing. By this measure, middle-income developing countries - and especially small island states - score best, while developed nations lag behind. Per unit of carbon, Europe delivers less well-being for its citizens now than it did in 1961. Across Europe, however, people report comparable levels of well-being whether they consume a lot or a little. In the UK, for example, people are just as satisfied whether their lifestyles would require eight planets to sustain or just one. This is a message of hope: good lives don't have to cost the earth.

But we have to overcome knee-jerk rejection of the "R" word - redistribution. With global growth constrained by the need to limit carbon emissions (remember that the poorest will be the first and worst victims of climate change), redistribution becomes the only viable route to poverty reduction. Given the triple crunch of the credit crisis, high oil prices and climate change, industrialised economies need radical, practical plans to address all these issues at once. Susan George discusses one approach on Special Beyond economic growth: Why big is beautiful. Another is the Green New Deal, launched last month. It calls for capital controls and tax reforms to stabilise the economy and raise funds for a massive and quick environmental transformation, creating thousands of jobs while narrowing the gap between rich and poor.

It took just days for governments in the UK and US to abandon decades of economic doctrine to try to rescue the reckless financial system from complete meltdown. Why should it take longer to introduce a plan to stop the planet crunch brought on by an equally reckless and even more dangerous obsession with growth?

Profile
Andrew Simms is policy director of the New Economics Foundation in London, UK. He is co-editor of Do Good Lives Have to Cost the Earth? (Constable 2008).
From issue 2678 of New Scientist magazine, page 49.

Domínio dos EUA vai acabar, diz inteligência americana

A força econômica, militar e política dos Estados Unidos no mundo deve decair nas próximas duas décadas, segundo um relatório de agências americanas de inteligência divulgado nesta sexta-feira.
O relatório foi produzido pela National Intelligence Council (NIC), entidade que coordena o trabalho de todas as agências de inteligência do país.

O texto também afirma que a atual crise financeira é o começo de uma grande mudança na economia global, com transferência de renda do Ocidente para o Oriente e enfraquecimento do dólar.

A divulgação do documento da NIC coincide com a transição do governo de George W. Bush para o presidente eleito, Barack Obama, nos Estados Unidos.

Brasil, China e Índia

"Os próximos 20 anos de transição para um novo sistema estão cheios de riscos", diz o relatório Global Trends 2025 (ou Tendências Mundiais 2025, em português).

O relatório é elaborado a cada quatro anos, sempre coincidindo com a posse de um novo presidente americano.

O documento prevê que até 2025 o mundo pode se tornar um lugar mais perigoso, com menos acesso das populações à comida e água.

O National Intelligence Council acredita que no futuro os Estados Unidos continuarão sendo o país mais poderoso do mundo, apesar de perder parte da sua influência para países como China, Índia, Brasil e Irã. Já as disputas internas da União Européia um gigante lento.

A NIC afirma que um mundo com mais pólos de poder potencialmente terá mais conflitos do que um mundo com uma ou duas superpotências.

A agência afirma que o aquecimento global e a escassez de recursos provocarão guerras no futuro. A disseminação de armas nucleares também deve crescer, com Estados considerados "párias" e grupos terroristas conseguindo acesso a materiais nucleares.

Segundo a NIC, a ação dos líderes globais será decisiva para os rumos do planeta.

"Não está além do alcance dos seres humanos, ou dos sistemas políticos, (ou) em alguns casos (o) funcionamento de mecanismos do mercado, cuidar e aliviar e até solucionar esses problemas", afirma Thomas Fingar, diretor da NIC.

Fonte: BBC Brasil

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A economia da família - parte 1

Por Ladislau Dowbor*




Nós nos reproduzimos através de gerações sucessivas. E a unidade básica de organização desta reprodução é a família. Ou pelo menos foi: hoje, o processo está se tornando incomparavelmente mais complexo e diversificado.

A família como unidade econômica

Vísta pelo ângulo da economia, a reprodução de gerações numa família se constrói através de laços de solidariedade. Os pais cuidam das crianças, e dos seus próprios pais já idosos, e serão por sua vez cuidados pelos filhos. A solidariedade é marcada pela panela, pelo fato de um grupo sobreviver em torno do mesmo fogão de cozinha. Não é à toa que “lar” tem a mesma raiz que “lareira”, como é o caso também, por exemplo, de “foyer” e “feu” em francês. Como a criança não tem autonomia para sobreviver, e nem o idoso, a sobrevivência das sucessivas gerações dependia vitalmente no passsado, e ainda depende em grande parte nas sociedades modernas, da solidariedade famíliar.

Em termos econômicos, a fase ativa da nossa vida, tipicamente dos 16 aos 64 anos, pode ser vista como produzindo um excedente: produzimos nesta idade mais do que o consumido, e com isto podemos sustentar filhos e idosos, eventuais deficientes, ou doentes, ou pessoas da família, mesmo em idade ativa, que não tenham como sustentar-se. Em outros termos, a economia da família permite, ou permitia, uma redistribuição interna entre os que produzem um excedente, e os que necessitam deste excedente para sobreviver.

O que está acontecendo é que a família está deixando de assegurar esta ponte entre produtores e não-produtores. A família ampla, onde se misturavam avôs, tios, primos, irmãos, praticamente desapareceu, ainda que sobreviva em regiões rurais. O capitalismo moderno, centrado no consumismo, inventou a família econômicamente rentável, composta de mãe, pai e um casal de filhos, o apartamento, a geladeira para 12 ovos, o sofá e a televisão. É a família nuclear.

A tendência mais recente, é a desarticulação da própria família nuclear. Nos Estados Unidos, apenas 25% dos domicílios têm pai, mãe e filhos. Na Suécia, seriam 23%. Hoje contam-se nos dedos os amigos que não estão divorciados. Mesmo quando estão juntos, pai e mãe trabalham, os filhos estão na escola (quando está tudo em ordem), e a vida famíliar resume-se frequentemente a uma pequena roda cansada olhando para as bobagens da televisão no fim da noite.

O próprio casamento tem um futuro incerto. Um balanço da situação na Europa ocidental e em países de expressão inglesa, constata que há quarenta anos havia em torno de 5% de nascimentos sem casamento. Hoje, esta proporção ultrapassa 30%. Esta tendência pode ser muito desigual: no Japão, apenas 1%. Entre os hispánicos nos Estados Unidos, são 42%, e entre negros americanos, 69%, enquanto a média geral americana é 33%.[1]

A mudança profunda e acelerada na estrutura famíliar terá sem dúvida profundo impacto sobre um grande número de dinâmicas sociais, a cultura, os valores, as formas de convívio. Interessa-nos aqui particularmente a dinâmica da reprodução social.

O ser humano nem sempre obedeceu à filosofia geral do homo homini lupus, homem lobo do homem. Para além da família, havia as comunidades, os clãs, tribos, quilombos, sociedades mais ou menos secretas e as mais diversas formas de solidariedade social. Ou seja, podia-se procurar o vizinho. Hoje, nesta era da sociedade anônima, uma pessoa está literalmente só na multidão urbana. A urbanização, e sobretudo a metropolizaçao, contribuiram para isto, mas também contribuiram a televisão, a formação dos subúrbios e das cidades-dormitório, e uma série de fatores tão bem estudados por Robert Putnam em Bowling Alone.[2] Voltaremos a isto. O que nos interessa neste momento, é o fato que junto com a família é a própria articulação da comunidade e da solidariedade social que se fragilizam.

Com a revolução tecnológica, o conhecimento torna-se um elemento central dos processos produtivos. Com isto, se uma geração atrás a infância terminava com o quarto ano, hoje, para a maioria das pessoas, a fase dependente no início da vida tende a estender-se cada vez mais, e vemos com frequência jovens que vivem uma pós-adolescência tardia, buscando mais um ano de estudo, à procura de um emprego no horizonte.

Do lado do idoso, havia uma certa lógica nas sociedades de antigamente. Vivia-se até os 50 anos, quando muito, e o tempo de criar os filhos era a conta justa. Hoje, uma pessoa pode perfeitamente viver até os 80 ou mais anos, e a terceira idade assume uma dimensão que cobre entre um quarto e um terço da nossa vida. Trata-se, aqui também, de uma fase de dependência muito precária, pois os sistemas de aposentadoria, tanto em termos de cobertura como de nível de remuneração, são amplamente deficientes, enquanto a família comercialmente correta simplesmente evita o convívio.

Ou seja, o tempo de dependência da nossa vida aumentou dramaticamente, enquanto a família, que assegurava a redistribuição do excedente entre as gerações - e entre as fases remuneradas e não-remuneradas das nossas vidas - está se tornando cada vez menos presente. Este processo torna absolutamente indispensável a presença de mecanismos sociais de redistribuição de renda, suprindo o papel que as famílias estão deixando de desempenhar. Trata-se de uma redistribuição de renda já não só dos ricos para os pobres, mas entre gerações.

Passamos a depender, portanto, de mecanismos formais de redistribuição do excedente entre produtores e não produtores. Neste contexto, o ataque generalizado ao Estado, a redução do espaço do Estado de bem-estar - que aliás nunca foi muito amplo entre nós - e sobretudo a privatização das políticas sociais, tornam portanto a situação absolutamente dramática para amplas faixas da população. A continuidade do processo se rompe.

Tentar reduzir o Estado, sobretudo nas suas dimensões sociais, constitui portanto um absurdo, e uma compreensão completamente equivocada do rumo das transformações sociais. Os paises desenvolvidos, que possuem de forma geral amplas políticas sociais, se dotaram de máquinas estatais que gerem, em média, 50% do produto interno bruto. Em comparação, nos nossos pobres países em desenvolvimento o Estado gere em média 25% do PIB.

É importante lembrar que as políticas públicas, apesar de todo gosto que temos em criticar o Estado, constituem de longe o instrumento mais eficiente de promoção de políticas sociais, e em todo caso as únicas que permitem o reequilibramento social. Basta constatar a excelência nesta área atingida pelo Canadá, pela Suécia, ou ainda comparar o Canadá com os Estados Unidos, onde com o dobro do gasto não se chega nem longe da qualidade dos serviços de saúde canadenses. Isto sem falar de Cuba, onde a excelência na área da saúde é atingida com recursos extremamente exíguos. A razão é bastante simples, e meridianamente clara por exemplo na saúde: uma empresa privada quer ter mais clientes, o que no caso da saúde significa mais doentes. Com isto se perde a visão essencial da prevenção. Na educação, o processo é semelhante, com as universidades privadas aumentando simplesmente o número de alunos por professor: aluno é dinheiro, professor é custo. As pricipais universidades americanas são privadas, mas sem fins lucrativos. No caso brasileiro, com a forte concentração de renda, o setor privado, quando entra no social, busca naturalmente servir quem pode pagar, e gera o luxo para elites, drenando recursos e privando os serviços humanos do seu papel de reequilibrador social.[3]

No conjunto, portanto, enquanto as fases não remuneradas das nossas vidas se expandem, a família perde o seu papel redistribuidor, as comunidades perdem o seu caráter de solidariedade, o Estado abandona o seu papel de provedor, e o setor privado abocanha os recursos e os direciona para elites, agravando a situação do conjunto. Geram-se assim imensas tensões na reprodução social, tensões acompanhadas de desespero e impotência, porque sentidas como dramas individuais, de crianças e jovens sem rumos, de idosos reduzidos a uma mendicância humilhante, de um clima geral de vale-tudo social. Criança não vota, aposentado não paralisa processo produtivo, mãe que cria sozinha os seus filhos (26% dos domicílios no Brasil têm a mãe como principal responsável) nem tem tempo de pensar nestas coisas.[4]

A poupança famíliar

A tendência é lamentável, pois nunca houve um excedente social - fruto do aumento da produtividade - tão amplo. No nível da família, o excedente se apresenta sob forma de poupança. Esta representa um tipo de seguro de vida individual, ou famíliar. No mundo da agricultura famíliar, a acumulação sob forma de bens ainda é forte: são as galinhas, os porcos, as vacas, as safras reservadas para consumo e semente, os embutidos, as conservas: de certa forma, a unidade de agricultura famíliar forma a sua própria conta bancária, sob forma de produção acumulada. No mundo urbanizado, ainda há gente que poupa através da aquisição de um segundo ou terceiro imóvel, que será alugado, e representa uma garantia de renda para o futuro. Mas no conjunto, passamos todos - os que temos certa poupança - a depender de intermediários financeiros. E quando não a temos, a depender dos crediários. Como as poupanças hoje são representadas por sinais magnéticos, com a correspondente volatilidade, perdemos o controle sobre o que é feito com o nosso excedente.

O caso brasileiro é aqui de uma clareza meridiana. O dinheiro que aplicamos no Banco rende, neste final de 2008, mal supera a inflação. O Banco aplica este dinheiro em títulos do governo, a 13%. O governo, por sua vez, remunera estes títulos com dinheiro público, ou seja, com os impostos. Assim as famílias estão remunerando o banco, via governo e por meio do imposto, para que ele tenha o seu dinheiro. Trabalhar com dinheiro dos outros desta maneira, para o Banco, é muito estimulante.E quando entram em crise por excesso de especulação, serão ressaracidos com os nossos recursos, sempre via impostos, para “salvar o sistema”.

Naturalmente, uma remuneração dos intermediários financeiros neste nível de juros, a longo prazo, é insustentável, pois não há contribuinte para cobrir tanta dívida crescente. A dívida atinge algo como 1.300 bilhões de reais. Atingimos um ponto em que o governo, mesmo apertando o cinto para obter um superávit de 4,5%, ainda assim mal cobre a metade dos juros devidos, que dirá reduzir o estoque da dívida principal. Entramos assim, como país, na linha de tantas pessoas que por não poderem pagar um empréstimo, entram no cheque especial, e depois no limite do cartão e assim por diante. O sistema leva o governo a desviar - segundo previsão para 2008 - cerca de 170 bilhões de reais, para o serviço da dívida, com o que deixa de prestar boa parte das políticas sociais, razão inicial pela qual pagamos impostos. Om isso, as familias são simplesmente descapitalizadas, e recursos que poderiam ser produtivos viram especulação.

O que se passa no setor produtivo? Um produtor pode procurar o banco para financiar o seu negócio, mas como o banco tem a alternativa de aplicar sem risco em títulos de governo na taxa Selic, os juros cobrados ao tomador final são proibitivos (na faixa de 60% para o créditos empresarial), e o produtor nacional fica simplesmente inviabilizado. O resultado prático é a estagnação da economia.

A evolução no governo Lula foi muito significativa. Quando recebeu o governo em 2003, a taxa Selic era de 26%. O estoque da dívida pública - que é o que nós devemos aos banqueiros - tinha passado de 100 bilhões no início do governo Fernando Henrique para 800 bilhões no final. A taxa de juros do governo Lula foi gradualmente sendo reduzida para 13%, o que rediziu as aplicações financeiras em títulos de govedrno, e levou à retomada dos investimentos e do crescimento econômico. Mas no conjunto a dívida pública continua imensa, e desvia recursos públicos para remuneração de aplicações financeiras. A justificativa oficial, ainda hoje, é que se trata de conter a inflação: na realidade, trata-se de manter a remuneração dos intermediários financeiros.

O que acontece com o desenvolvimento local? Antigamente - hoje antigamente significa algumas décadas atrás - um gerente de agência conversava com todos os empresários locais, buscando identificar oportunidades de investimento na região, tornando-se um fomentador de desenvolvimento. Hoje, o gerente é remunerado por pontos, em função de quanto consegue extrair. Ontem, era um semeador à procura de terreno fertil. Hoje, é um aspirador que deixa o vazio. O resultado prático, é que inúmeras pequenas iniciativas essenciais para dinamizar o tecido econômico do país deixam de existir. Isto varre do mapa milhões de pequenas iniciativas de acumulação famíliar urbana, tipicamente centradas no pequeno negócio, na chama micro-empresa. Hoje o lema é “pequenas empresas, grandes negócios”…para os intermediários financeiros.[5]

O que acontece com o cidadão comum, que não é nem governo, nem empresário, nem organizador do desenvolvimento local? O cliente abre a conta onde a empresa lhe paga. Este ponto é muito importante, pois significa que para o comum dos mortais, não há realmente concorrência de mercado, e os bancos podem elevar tarifas ou cobrar juros que quiserem, dando apenas uma olhadinha de vez em quando no comportamento dos outros bancos, para não se distanciarem demasiado. O resultado prático é um juro médio para pessoa física é superior a 100%. O efeito sobre o orçamento famíliar é desastroso: os custos financeiros consomem algo como 30% da renda famíliar brasileira. Entra aqui também, naturalmente, o fato que empresas comerciais descobriram que se ganha muito mais dinheiro lidando com dinheiro do que com produtos. O pobre, por ganhar pouco, pode pagar pouco, e se vê obrigado a parcelar a sua magra capacidade de compra, a juros numa altitude onde já começa a faltar oxigênio.[6]

O resultado é que a capacidade de consumo das famílias, essencial para dinamizar as atividades econômicas do país é esterilizada, pois grande parte da nossa capacidade de compra é transformada em remuneração da intermediação financeira. Assim, a paralisia atinge o governo, as atividades produtivas, a dinâmica do desenvolvimento local, e o elemento dinamizador tão importante que é o mercado interno.

O processo hoje é global. Como sabemos, boa parte das dívida é denominada em dólares. Isto significa que, se o dólar subir, os especuladores donos destas dívidas poderão receber mais. Os países pobres, do chamado terceiro mundo, não têm como imprimir divisas. Naturalmente, quanto mais o país precisa de divisas para equilibrar as suas contas, maior será a reticência da chamada comunidade financeira internacional em emprestar, a não ser, naturalmente, que o país assegure juros altos, com todas as consequências que vimos acima.

O país pobre tem reservas limitadas. O Brasil tem reservas da ordem de 210 bilhões de dólares, graças ao imenso esforço de redução da vulnerabilidade externa desenvolvido pelo governo. Para comparar, um especulador médio como Edward Jones maneja, segundo o Business Week, 255 bilhões de dólares, a Merril Lynch algo como um trilhão de dólares. Joseph Stiglitz, premio Nobel de economia de 2001, explica o processo de forma meridiana, usando o exemplo concreto de uma operação na Tailândia. Um especulador pede um empréstimo de um bilhão de dólares aos bancos tailandeses, em moeda local. Como se trata de um grande investidor internacional, os bancos locais ficam encantados. Com este bilhão, o especulador sai comprando dólares no mercado local. Vendo o dólar sumir do mercado, outros banqueiros e especuladores locais também passam a comprar dólares, cuja cotação sobe vertiginosamente. Depois de um tempo, o especulador revende parte dos dólares para pagar o empréstimo local, e sai com um lucro líquido de 400 milhões de dólares para cada bilhão empatado. Não produziu nada, não precisou movimentar um centávo seu, e como o controle do movimento de capitais é pecado mortal na doutrina do que Stiglitz chama apropriadamente de “fundamentalistas do mercado”, o dinheiro sai do país. O especulador não precisou sair de Manhattan.

Como se comporta a teoria oficial do Fundo Monetário Internacional frente a estas dinâmicas? “Os benefícios fundamentais da globalização financeira são bem conhecidos: ao canalizar fundos para os seus usos mais produtivos, ela pode ajudar tanto os paises desenvolvidos como os em via de desenvolvimento a atingir níveis mais elevados de vida.” (Finance & Development, IMF, March 2002, p. 13). Com a crise financeira global de 2008, já não fala em racionalidade do sistema.

O processo é inverso. Descapitaliza-se o setor produtivo, o Estado, as comunidades e as famílias. Como o processo implica juros altos, as empresas são levadas a se autofinanciar. Assim, a liberalização dos fluxos de capital que deveria teoricamente “canalizar fundos para os seus usos mais produtivos” leva pelo contrário à drenagem dos recursos para fins especulativos, e leva as empresas cada vez mais a buscarem o autofinanciamento, gerando um feudalismo financeiro em que cada um busca a autosuficiência, perdendo-se justamente a capacidade das poupanças de uns irrigarem os investimentos de outros. O efeito é rigorosamente inverso do previsto, ou imaginado, pelo Fundo, mas rigorosamente coerente com os interesses da especulação. Consegue-se assim montar um sistema articulado de esterilização de poupança, de restrição do consumo e de desincentivo ao investimento que paraliza o país.

E a família? Ora, a fuga de divisas para fora do país, em favor de quem não produziu rigorosamente nada, representa um empobrecimento. Este empobrecimento se materializa em maiores exportações, para ganhar divisas e poder “honrar os compromissos”. São mais bens exportados, e menos bens disponíveis no mercado interno. Os bens importados incorporam o preço alto do dólar, geando a inflação. A alta de preços não é acompanhada pelos salários, e assim as famílias vêm o seu pecúlio reduzido. Em outros termos, quando as poupanças passam para o papel, representam o que este papel pode comprar. Um velho casal de argentinos me perguntava espantado, tentando entender: “Mas era a poupança da nossa vida, como pode ter desaparecido?”. Hoje, na realidade, nem sequer é papel, são sinais magnéticos. Mas não é preciso ir para a Argentina, basta consultar como se sentem os americanos que tinham jogado a sua aposentadoria em papéis da Enron, ou nos fundos especulativos mais variados. O mundo assiste impassível e impotente frente à montanha russa financeira da crise. O processo é fundamental para as famílias, que pedem o referencial das suas poupanças, de valor do seu imóvel, das perspectivas da sua aposentarodoria.

Insistimos aqui nesta dimensão econômico-financeira do processo, pois é importante que as pessoas entendam que a globalização tem tudo a ver com o nosso cotidiano, com a angústia de qualquer família com o seu futuro, com o futuro dos seus filhos. É significativa a obsessão com a qual famílias relativamente pobres se enforcam para assegurar à nova geração um diploma universitário, forma indireta de garantir o futuro, na ausência de outras garantias confiáveis. Perder o controle da sua poupança representa, para a família, perder o controle sobre o seu próprio futuro.

Em termos econômicos, a família constitui um processo, uma sucessão de situações que constituem a nossa reprodução social. Se todos os elos desta reprodução não estão assegurados, se temos por exemplo uma juventude desorientada ou desesperada, e a dramática mortalidade adolescente por assassinatos, isto faz parte de uma processo que não assegura a própria lógica, tornou-se discontínuo, por mais que tenhamos belos hospitais de cinco estrelas para os executivos atualmente empregados. A perda do controle sobre as poupanças vai ter um efeito direto sobre a forma da família organizar a sua participação nas atividades produtivas, no mundo do trabalho, pois reduz dramaticamente o seu espaço de opções. Nesta fase de globalização, o que o liberalismo está gerando, é rigorosamente a perda de liberdade econômica, e qualquer casal que tenta fechar as contas e planejar o seu futuro, e o dos seus pais e filhos, sente-se crescentemente angustiado. (continua)

* Ladislau Dowbor, é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e da UMESP, e consultor de diversas agências das Nações Unidas. É autor de “Democracia Econômica”, “A Reprodução Social”, “O Mosaico Partido”, pela editora Vozes, além de “O que Acontece com o Trabalho?” (Ed. Senac) e co-organizador da coletânea “Economia Social no Brasil“ (ed. Senac) Seus numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social estão disponíveis no site http://dowbor.org


[1] Rodger Doyle - Going Solo: unwed motherhood in industrial nations rises - Scientific American - January 2002, p. 22 - ver também www.sciam.com/2002/0102issue/0102numbersbox1.html ; o dado para o Japão corresponde a 1990, os outros correspondem a meados ou fins dos anos 1990

[2] Robert Putnam - Bowling Alone: the collapse and revival of american comunnity - Simon & Schuster, New York, 2000 - O livro de Putnam é uma excelente introdução às transformações sociais geradas pelas novas tecnologias e pelas formas de organização urbana. Veja resenha em http://dowbor.org

[3] Lester Salamon utiliza o conceito interessante de serviços humanos, onde se expande rapidamente o chamado Terceiro Setor. Ver entrevista na Roda Viva da TV Cultura, 3 de março 2003.

[4] Não entraremos neste artigo nos dramas sociais gerados pelo processo, e que tratamos em vários outros trabalhos. Veja-se em particular, o nosso O que acontece com o trabalho?, Editora Senac, São Paulo 2002; para a siktuação da mulher no trabalho no Brasil, ver o estudo de Christina Bruschini e Maria Rosa Lombardi, Mulheres e homens no mercado de trabalho brasileiro, in Margaret Maruani e Helena Hirata, As novas fronteiras da desigualdade: homens e mulheres no mercado de trabalho, editora Senac, São Paulo, 2003 www.editorasenacsp.com.br

[5] Sobre este tema, ver o nosso O que é Poder Local?, Ed. Brasiliense, São Paulo, edição revista 2008

[6] - ANEFAC - Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade - (www.vidaeconomica.com.br/famílias.htm ) Pesquisa realizada em junho e agosto 2002. O estudo apresenta o gasto despesa famíliar médio com despesas financeiras como sendo de 29,83%. Estas despesas variam de 35,43% para famílias entre 1 e 5 salários mínimos, e 19,08% para famílias com renda acima de 50 salários mínimos. A taxa de jruos média praticada no mercado pelos bancos comerciais pode ser consultada em www.anefac.com.br . Em agosto de 2008 estão na faixa de 60% para pessoa jurídica, e acima de 100% para pessoa física; a taxa média do cheque especial em outubro 2008 atingiu 166% segundo o Branco Central. As taxas correspondentes no resto do mundo situam-se entre 3 e 6% a ano. No Brasil os intermediários financeiros apresentam os juros mensais (e não anuais) por uma razão simples: fica mais difícil o cliente se orientar, poucos entendem de juros compostos.

Fonte: Envolverde

A economia da família - parte 2

Por Ladislau Dowbor*




Nas sociedades tradicionais, havia uma certa continuidade na organização da produção, de uma geração para outra. Na era rural de agricultura famíliar, a inserção produtiva ocorria naturalmente, pelo fato de haver coincidência do domicílio e do espaço produtivo. O filho ia gradualmente aprendendo com o pai as fainas agrícolas, organizavam-se diversas formas de divisão de trabalho na família. Em outros termos, e mantendo a nossa visão de que a família constitui um processo de reprodução social, o trabalho representava uma continuidade entre gerações. Esta dimensão não desapareceu. É importante lembrar que o mundo rural representa ainda a metade da população mundial, e de que a metade da população mundial ainda cozinha com lenha. Às vezes ficamos tão concentrados na ponta da sociedade, nos executivos apressados e nos toyotismos modernos, que passamos a achar que só existe isto, e esquecemos que o mundo articula de maneira complexa eras e ritmos diferenciados. No Brasil, com 17 milhões de trabalhadores, o mundo rural ainda representa o maior setor empregador do país. A indústria tem uns 13 milhões de trabalhadores.

Mas o mundo do nosso convívio é hoje essencialmente urbano. E nas cidades, são relativamente raros os casos de continuidade profissional, salvo no caso de pequenas empresas famíliares. Não há mais coincidência entre o espaço residencial e o espaço de trabalho, e cada vez mais a casa é para onde se volta cansado à noite, e de onde saem sonolentos pais e filhos para a labuta diária de manhãzinha. Há subúrbios que constituem hoje cidades-dormitório, mas de forma geral as nossas casas viraram casas-dormitório.

Com a esterilização da poupança das famílias, estas ficam com muito pouca iniciativa sobre o seu trabalho. A pessoa não “organiza” as suas atividades, “busca” emprego no espaço anônimo da cidade. Com o aprofundamento da divisão do trabalho na sociedade, há empresas especializadas para cada coisa, e o acesso ao que nos é necessário na vida cotidiana passa a depender de renda. Não nos damos conta, às vezes, de que na vida famíliar o bolo se fazia em casa, frequentemente o pão, quando hoje cada vez menos se cozinha em casa. O que perdemos, em grande parte, é o sentimento de que a nossa vida depende de nós, do nosso esforço e gosto de iniciativa. Sentimo-nos empurrados por forças cujos mecanismos nos escapam.

Em Imperatriz do Maranhão, o meu pai idoso - já nos noventa - era cuidado por uma jóvem de 80, que além de cuidar do meu pai aproveitava a horta que os netos montaram para ela, em estrados de palmeiras rachadas ao meio, para cultivar cebolinha, salsa, ervas diversas, que ia todo dia vender numa cestinha, pela vizinhança. Cultivava assim não apenas ervas, mas um círculo de amigos. Gerava a sua própria renda, mas cada um na família ajudava. Imagem do passado? Não necessariamente, pois hoje com as novas tecnologias há amplos espaços de colaboração famíliar ou de vizinhança, resgatando novas formas de articulação do trabalho, novas solidariedades.

Não é a volta a um passado bucólico que estmos aqui sugerindo. É essencial entender que o espaço da família era um espaço onde se fazia coisas juntos, como era o caso das comuniddes. O desaparecimento desta dimensão da organização social gera uma sociedade de indivíduos que rosnam uns para os outros na luta pelo dinheiro, e esquecem que a qualidade de vida é uma construção social. Vencer na vida, da forma como nos apresentam diariamente na televisão, é um processo de guerra contra os outros, e resulta em morarmos num condomínio caro e cercado de guaritas. É o sucesso.

Construir uma sociedade civilizada passa por dinâmicas sociais mais complexas, que até as empresas mais retrógradas estão começando a aprender, na linha da responsabilidade social e ambiental.

De certa forma, este raciocínio nos leva ao fato que o trabalho não é apenas uma tarefa técnica que consiste em produzir o mais rápido possível, o mais possível, buscando o máximo de dinheiro possível. O trabalho deve constituir um elemente essencial da organização do convívio social. A ruptura profunda gerada, entre o universo do trabalho e o universo famíliar, tende naturalmente a desestruturar esta última. E o trabalho, privado da sua dimensão afetiva de relacionamento, na correria do just-in-time, na malvadeza cientificamente assumida do lean-and-mean, na patologia cristã de que só é virtuoso o que nos faz sofrer, o que nos sacrifica, gera gradualmente um deserto onde vemos pouco sentido no que fazemos no emprego, a não ser no dinheiro do fim do mês, na compra de mais uma televisão, na troca do sofá.

A sociabilidade no trabalho é funcional, interessada, presa à hierarquia de quem manda e de quem obedece, eivada de rivalidades, ciumes, cotoveladas discretos, sorrisos amarelos. A sabedoria popular brasileira, neste caso, é rica: “cuidado com o calo que você pisa, pode pertencer a um saco que amanhã você terá de puxar”.

Não se trata aqui de um olhar sombrio. Pelo contrário, as tecnologias, os avanços científicos, nos permitem hoje resgatar uma outra cultura do trabalho. As barreiras que criamos são rigorosamente artificiais. Porque uma criança vê o seu pai e a sua mãe desaparecerem diariamente para um espaço misterioso chamado “trabalho”, sem nunca ter oportunidade de visitar as suas empresas, de ver o que fazem? É natural a portaria com todas as suas seguranças? É natural o constrangimento com que uma mãe recebe no emprego um telefonema do filho, do marido? Afinal o trabalho deve ser para nós, ou nós para o trabalho?

Muitíssima gente está mudando os seus enfoques no mundo. O executivo uniformizado de ataché-case, caneta Mont Blanc, e outros apetrechos correspondentes, - versão sofisticada do homem-sanduiche, ostentando um cartaz de sou melhor que você - está sendo gradualmente substituido por gente que se veste à vontade, e busca viver, inclusive no trabalho. Muitas empresas têm hoje salas de sesta, para que o trabalhador possa tomar uma soneca quando precise. A redução do leque hierárquico está na ordem do dia. A qualidade de vida no emprego é amplamente discutida. O filme Beleza Americana, ainda que um pouco forçado, faz parte desta tomada de consciência da forma absurda como estamos sendo organizados para sermos eficientes para a produção, e inúteis para a vida.

A pressão pela redução da jornada de trabalho, essencial para melhorar a nossa produtividade, e para resgatar o elo temporal entre a vida famíliar, a vida profissional e atividades sociais complementares, está gradualmente voltando a constituir uma reivindicação social de peso, como foi a luta pela jornada de 8 horas há décadas atrás.

Na cidade de Lausanne, na Suiça, a prefeita decidiu mudar o tratamento dado ao idoso que vive só: em vez de colocá-lo numa clínica, com enfermeira, papinha e televisão, fez com a ajuda de estudantes universitários uma pesquisa que lhe permitiu identificar vizinhos de cada idoso, dispostos a ajudá-lo. Com um pequeno salário e um pouco de treinamento, organizou na cidade uma rede de solidariedade que lhe permitiu economizar recursos públicos, e melhorar o capital social, o simples gosto de vida das pessoas. Não há dúvida que uma enfermeira especializada, numa clínica bem equipada, saberia ministrar a papinha de maneira mais eficiente (e com custos muito maiores, o que contribui para aumentar o Pib). Mas é disto que se trata? Na Polônia, vimos prédios onde o andar térreo é reservado para pequenos apartamentos onde os idosos podem ficar perto da família que mora nos andares de cima, e ao mesmo tempo guardar certa privacidade. Organizar o convívio social é assim tão complicado?

De certa maneira, trata-se de desarticular um mecanismo perverso, onde o acesso às coisas elementares da vida exige cada vez mais dinheiro, as famílias devem se organizar para maximizar a renda, os filhos já entram na primeira infância na filosofia da competição, pois estão se preparando para a vida, carregando as suas imensas sacolas de material escolar. Perde-se o convívio famíliar, a sociabilidade comunitária, gera-se um bando de zumbis eficientes que não param mais para perguntar o mais evidente: estamos todos correndo para onde?

Trata-se, evidentemente, de inverter a equação. Não devemos organizar as nossas vidas para o trabalho, mas organizar o trabalho para que as nossas vidas sejam agradáveis. A economia é um meio, não é um fim.

Utopia? Há uma década, ainda se media os países apenas de acordo com o Pib, na linha das estatísticas do Banco Mundial. Os indicadores de desenvolvimento humano (IDH), a partir de 1990, passaram a comparar também a qualidade de vida, ao acrescentar às comparações dados de saúde e de educação. Na metodologia Calvert-Henderson, no ano 2000, está se passando a avaliar a eficiência das nações a partir da qualidade de vida dos seus cidadãos, em torno de 12 grupos de indicadores: educação, emprego, energia, meio-ambiente, saúde, direitos humanos, renda, infraestrutura, segurança nacional, segurança pública, lazer e habitação.[1]

Isto nos leva ao conceito de produtividade social, ou de produtividade sistêmica. Um plano de saúde, ao maximizar o ritmo de rotação de pacientes por médico, está gerando um taylorismo social que sem dúvida se demostra muito eficiente em termos micro-ecnômicos. Esta eficiência é medida em termos de rentabilidade da seguradora ou do banco que controla o conjunto. E o resultado prático, em termos sociais, é uma saúde deficiente, pois o que assegura a produtividade social da saúde é muito mais o esforço preventivo do que o luxo das instalações hospitalares. Em outros termos, quando hoje falamos em responsabilidade social e ambiental das empresas, levamos cada administrador a levantar um pouco os olhos, para além dos muros da empresa, e a pensar simplesmente: isto é útil para a sociedade?

O Instituto Souza Cruz publicou em janeiro 2003 “Marco Social: Educação para Valores”. O Instituto Souza Cruz é mantido pela Souza Cruz, que por sua vez pertence à British American Tobacco, que investe anualmente centenas de milhões dólares em publicidade para convencer jóvens a fumar: a população alvo predileta é a de 14 anos, quando o vínculo com a nicotina se torna praticamente assegurado para o resto da vida. A publicação, bastante luxuosa, começa com uma citação de Anísio Teixeira (!) sobre os valores, e a diretora do Instituto, no capítulo “Educação para Valores”, afirma que Flávio de Andrade, presidente da Souza Cruz, “nutria uma grande preocupação com o acesso de crianças e adolescentes menores de 18 anos a cigarro, álcool e drogas ilícitas”.

Quem não ficaria comovido? No entanto, um economista tradicional nos saberá explicar que a Souza Cruz gera empregos, dinamiza a plantação de fumo, provoca a expansão de clínicas de tratamento de câncer, estimula a venda de produtos para branquear os dentes, patrocina belíssimas corridas de fórmula 1. Houve até um relatório que demostrou que o cigarro, ao acelerar a morte dos idosos, reduzia o déficit da previdência social, e portanto melhorava as contas nacionais. O que não se faz pela economia!

A visão que queremos aqui esboçar, é que a transformação da família pertence a um conjunto de mudanças mais amplas, e que não se trata apenas de lamentar a sua dissolução: trata-se de repensar o processo de rearticulação do nosso tecido social.

No belíssimo filme Janelas da Alma, Wim Wenders, que já nos deu tantas obras primas de cinema, faz uma afirmação profunda: “Humanity is craving for meaning“, a humanidade anseia pelo sentido das coisas. De certa maneira, o sentido das coisas se resgata numa articulação mais ampla dos diversos universos, do indivíduo, da família, da comunidade, do trabalho, das esferas econômicas, politicas e culturais. Os sentimentos de perda de iniciativa e controle sobre as nossas vidas, de individualismo feroz, de vale-tudo por dinheiro, são tanto mais absurdos quanto o enriquecimento da sociedade permitiria justamente dispormos de mais tempo para a família, de mais convívio social, em clima menos violento.

O nosso sistema sabe aumentar a produção, ou pelo menos sabia, antes do domínio dos gigantes financeiros e da globalização selvagem. Mas a organização social capaz de tornar este aumento de produção socialmente útil depende de dinâmicas totalmente diferentes das dinâmicas de mercado. A vida não se resume a uma corrida desesperada para equilibrar a conta no banco com as contas do shopping. A construção da qualidade de vida - inclusive a sobrevivência da família - constituem um processo de articulação social que não resultará automáticamente dos mecanismos de mercado ou do eventual enriquecimento individual.

Referenciais individuais e sociais

Não é tão difícil assim colocar-se no lugar do jóvem. Sai da escola sem nunca ter visitado uma empresa, uma repartição pública, uma ONG. A separação radical entre as fases de estudo e do trabalho, produz uma geração de jóvens desorientados, à procura da sua utilidade na vida. Se cruzarmos esta situação com as dinâmicas do trabalho vistas acima, a ausência de perspectivas torna-se muito forte, a não ser em alguns grupos privilegiados. Na realidade, no processo produtivo onde os conhecimentos passam a desempenhar um papel preponderante, em vez de estudo e trabalho serem etapas distintas da vida, devem crescentemente constituir um processo articulado onde aquisição de conhecimentos e a sua aplicação produtiva devem emriquecer-se permanentemente.

Sentir-se inútil numa fase da vida em que o jóvem chega disposto a fazer e acontecer, gera sem dúvida um sentimento de profunda frustração. Poder fazer uma coisa útil constitui um favor, alguém deu um emprego. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que no conjunto, o who you know (quem você conhece) tornou-se um fator mais importante de avanço profissional do que o what you know (o quê você conhece, as suas competências). O mundo para o jóvem passa a ser visto como um universo opaco e fechado, gerando desânimo e passividade.

Esta tendência tem de ser colocada numa perspectiva mais ampla. As nossas crianças e os nossos jóvens são criados num referencial de família muito frágil: com os dois pais no trabalho, o trabalho distante da casa, casais frequentemente separados, o silêncio no binômio sofá-televisão: constrói-se assim muito pouco balizamento entre o bem e o mal, muito pouco sentido de vida.

Um outro universo que contribuía muito para a construção de valores era a rua, a vizinhança. Ali, não era ainda o mundo¸ mas também já não era a família, alí a criança e o jóvem testavam a sua presença social, delimitavam gradualmente os valores da amizade, o peso das rivalidades, construiam os seus espaços de sociabilidade. Hoje, nenhuma mãe em sã consciência diz à criança que vá brincar na rua. Fica sossegada quando as crianças estão sentadas no sofá, comendo salgadinho, e vendo “vale tudo por dinheiro”. Porque na rua é o perigo, são as drogas, as gangues, os acidentes de carro, o medo. Não inserimos mais as crianças no mundo, buscamos apenas protegê-las. E quando chega o momento inevitável de sua inserção, desabam sobre elas desafios difíceis de suportar.

Os pais perdidos entram em intermináveis discussões sobre se devem ser mais permissivos, ou colocar mais limites, sorrir ou gritar, e terminam, quando têm dinheiro, lamentando-se com o analista. O analista pode sem dúvida ajudar quando os problemas são individuais, mas não resolverão grande coisa quando se trata de um processo socialmente desestruturador.

A escola pequena, de bairro, frequentada por pessoas que convivem de uma maneira na escola, e de outra nas ruas da vizinhança, mas pertencendo ao mesmo tecido de relações sociais, era outro espaço de construção de referências. Boa parte disto subsiste no interior. Nas grandes cidades, e frente a uma construção escolar onde se buscam absurdas economias de escala (quanto maior, mais barato), gera-se um universo de gente que só se encontra na escola. Os universos sociais do local de residência e do local de estudo só se cruzam eventualmente. Na própria classe média, é patético ver mães que passam horas no trânsito para levar uma criança a brincar com outra no outro lado da cidade, porque já não aguenta a solidão em casa. E no outro lado da cidade, o coleguinha terá os mesmos video-games, o mesmo “vale tudo por dinheiro” na televisão. Se juntarmos os efeitos de desestruturação do referencial famíliar, da ausência do referencial de vizinhança, e da perda da presença social local da escola, e acrescentarmos o cinismo dos valores martelados horas a fio na televisão, que valores queremos que eles tenham?

Os pais ficam indignados: eles bebem, eles fumam, eles se drogam, eles transformam o sexo numa aeróbica banalizada, eles não vêm sentido nas coisas…O que é que nos fizemos para dar sentida às suas vidas? Todos nós estamos ocupados em ganhar a vida, em subir nos degraus absurdos do sucesso¸ como é que as crianças vão entendem o nosso sacrifício como útil?

A compreensão de que se matar de trabalho para construir uma vida sem sentido, ainda que com a garagem que ostenta um belo carro, e entulhada de esteiras de ginástica e outras relíquias de entusiasmos consumistas passageiros, sem tempo para fazer as diversas coisas que poderiam ser agradáveis, ou belas, - filtra gradualmente para dentro das nossas consciências, ainda que continuemos todos a correr sem rumo. Será que os nossos filhos realmente não vêm o absurdo das nossas próprias vidas? E que rumo isto aponta para elas? A verdade é que a vida reduzida a uma corrida individual pelo sucesso econômico, com a ilusão de que tendo sucesso, e portanto dinheiro, compraremos o resto, é uma absurda ilusão que nos levou à civilização de guetos de riqueza e miséria que hoje vivemos.

É significativo que em muitos lugares jóvens, e até crianças, às vezes com apoio dos professores - outra classe á procura do sentido do que ensina - estão arregaçando as mangas e começando a tomar iniciativas organizadas. Vimos na Itália um movimento de crianças pela recuperação das praças. Um filme-reportagem feito pelas próprias crianças mostra a passeata, a negociação com a prefeitura, e o resgate progressivo de praças transformadas em estacionamento, para que voltem a ter água, árvores, espaço para brinquedos e jogos, uma dimensão de estética, de lazer, de convívio. Em muitas cidades já há câmaras-mirins, e não se podem aprovar projetos de espaços públicos sem o aporte do interesse organizado das crianças. Em muitos lugares, foram organizados trajetos seguros, acompanhando as principais rotas das crianças entre as escolas e lugares de lazer, parar melhorar a sua mobilidade e sentimento de liberdade: a tecnologia é simples, são aqueles passinhos pintados na calçada, semáforos, algum reforço de policiamento. O que estas experiências têm em comum, é o sentimento, por parte das crianças, de estarem recuperando o seu direito à cidade, à cidadania.

Em Valparaíso, vimos uma experiência de crianças de rua que, com o apoio de uma ONG, passaram a resgatar os espaços vazios de um bairro, a organizar as suas próprias bandas de música, eventos culturais, a ponto que hoje as seis escolas formais do bairro se associaram ao projeto, e desenvolvem atividades de resgate dos espaços públicos, fazem aulas sobre meio-ambiente melhorando o próprio meio ambiente, estudam ciências sociais melhorando o ambiente social. Aqui também, a cidade é dêles, e fazer uma coisa útil e prazeirosa não é o resultado de um emprego que lhes “dão”, mas de uma iniciativa que lhes pertence.[2]

O que isto aponta, na realidade, é que estamos evoluindo de uma visão em que a organização social se resume a um Estado que faz coisas para nós, e de empresas que produzem coisas para nós, para uma visão em que a sociedade organizada volta a ser dona dos processos sociais, e articula as atividades do Estado e das empresas em função da qualidade de vida que procuramos. A expansão das organizações da sociedade civil, a força do terceiro setor, o resgate das funções sociais do Estado, o surgimento da responsabilidade social e ambiental das empresas, a crítica às grandes corporações da especulação financeira, do monopólio de produtos farmacêuticos, de comercialização de armas, o próprio surgimento muito mais amplo da noção de um outro mundo é possível, pertencem todos a um deslocamento profundo de valores que estamos começando a sentir na sociedade em geral.

Como indivíduos, podemos melhorar a nossa casa, batalhar o estudo para os nossos filhos, comprar um carro melhor. Mas as mudanças sociais dependem de organização social. O sentimento de desorientação é sentido como sofrimento individual, mas as raízes são mais amplas. (continua)

[1] Os dados do IDH podem ser consultados em http://www.undp.org/hdro e os indicadores Calvert-Henderson estão sistematizados em Calvert-Henderson Quality of Life Indicators: a new tool for assessing national trends - Bethesda, USA, 2000, http://www.calvertgroup.com - Um raciocínio ajuda a entender a importância da mudança das metodologias de avaliação dos nossos avanços: com os critérios estreitamente econômicos do Banco Mundial, somos a 9ª potência mundial; ao olharmos as nossas condições reais de vida, na perspectiva dos Indicadores de Desenvolvimento Humano, o nosso lugar baixa para um modesto 69º. Ver Os novos Indicadores de riqueza, de Jean Gadrey e Jany-Catrice, Senac, 2007

[2] Os exemplos são inúmeros. Há algum tempo, ajudamos a elaborar um livro chamado Cities for Children, que apresenta idéias sobre como poderiam ser organizadas as cidades se levássemos em conta as crianças. Significativmente, o título original era Managing Cities as if Children Mattered, gerindo as cidades como se as crianças tivessem importância. Sheridan Bartlett et al., Cities for Children, Earthscan, London 1999 http://www.earthscan.co.uk

* Ladislau Dowbor, é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e da UMESP, e consultor de diversas agências das Nações Unidas. É autor de “Democracia Econômica”, “A Reprodução Social”, “O Mosaico Partido”, pela editora Vozes, além de “O que Acontece com o Trabalho?” (Ed. Senac) e co-organizador da coletânea “Economia Social no Brasil“ (ed. Senac) Seus numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social estão disponíveis no site http://dowbor.org

Fonte: Envolverde

A economia da família - Parte 3

Por Ladislau Dowbor*




Curiosamente, quando fazemos o que todos fazem, e não nos sentimos felizes, conseguimos nos convencer que os culpados somos nós. Parece que não somos normais. Mas é importante entender que o sentimento de frustração é geral. Manifesta-se neste sentimento difuso de perda de controle sobre a nossa realidade, sobre o que queremos fazer, sobre o mundo que nos cerca. O trabalho não é sofrimento: batalhar o futuro, fazer coisas que dão certo, ainda que com mil dificuldades, brincar com os amigos, tudo isto é essencial para o nosso senso de equilíbrio.

O que isto sugere de maneira ampla, é que as dinâmicas econômicas atuais geram simultâneamente mais produtos para elites, e menos sentimento de realização individual. O que nos venderam como visão de mundo, é que a felicidade consiste em ter em torno de nós apenas o esposo ou esposa, e os filhinhos, todos em idade simpática, um apartamento de dois quartos, sala, sofá e televisão. As opções de vida são relativas à cor do sofá, ao modelo da geladeira.

É importante ver a dupla face deste problema. Primeiro, todos devem ter o direito a ter os dois quartos, a saúde, a comida na mesa. Inclusive, assegurar o necessário a todos é uma condição preliminar para que possamos viver a vida em paz. Já dizia Marat na revolução francesa: “nada será legitimamente teu, enquanto a outrem faltar o necessário”. Este objetivo consiste sem dúvida num ideal social maior pelo qual temos de batalhar.

Mas este “necessário” não é suficiente. Quando temos os dois quartos e o sofá, a primeira coisa que queremos fazer é sair, é fazer alguma coisa. E este fazer alguma coisa envolve outras pessoas, convívio, festas, brincadeiras, esporte, coisas que nos façam sentir vivos. A sociedade atomizada em micro-unidades, que descartou os idosos para o asilo, os deficientes mentais para o manicômio, os revoltados para a cadeia, os pobres para a periferia, é uma sociedade desintegrada que parou de assumir a construção dos seus próprios espaços sociais, apenas administra privilégios.

Entender o desafio da pobreza, - coisa que devemos fazer sistematicamente - pode ser mais fácil do que entender a desarticulação social e o malestar que se generaliza. Este sistema leva, de um lado, a uma privação de grande parte da população mundial dos bens essenciais para uma sobrevivência com um mínimo de dignidade, e por outro lado, gera um perfil de produção e formas de organização socio-econômica que não trazem respostas aos que sairam desta privação. Quando vemos as cidades-dormitórios, os bairros sem uma praça ou áreas de sociabilidade, lazer e convívio, os condomínios fechados com as suas cercas eletrificados, arames farpados e guardas privados, temos de ir além do problema do modelo ser elitista e privar os pobres do essencial: a própria lógica é absurda.

Hoje as grandes empreiteiras de São Paulo, por exemplo, formam um pacto corrupto com políticos, e levam à construção de uma cidade inteiramente organizada em função do automóvel, chegando, entre túneis e elevados, a formar vários andares de vias, enquanto batalham contra qualquer uso público do espaço urbano, considerado “desperdício”. Um rio limpo não gera contratos, enquanto um rio poluido gera imensos contratos de despoluição, de desassoreamento, de canalização. A lógica das habitações é criar o máximo de construções para pequenas famílias, desarticulando o convívio entre gerações. De certa maneira, a capacidade técnica e gerencial das empresas evoluiu, mas a redução dos objetivos ao lucro imediato torna estes avanços socialmente pouco úteis. Isto porque a empresa não pensa no convívio social e nas infraestruturas correspondentes, mas na capacidade de compra individual do cliente.

É interessante a notícia de que uma atualização do famoso Kinsey Report de cinquenta anos atrás, quando foi feito o primeiro grande estudo sobre o comportamento sexual da população nos EUA, mostra que hoje se faz sexo incomparavelmente menos do que há meio século. Isto com a pílula, a permissividade, cinemas pornôs, camisinha, out-doors de poses as mais extravagantes em qualquer esquina, motéis por toda parte. Parecemos inundados por sexo. No entanto, parece que o comportamento amoroso se retrai. É viável uma mulher sentir um grande ardor sexual por seu simpático barrigudo de chinelo e camiseta, sentados anos seguidos no mesmo sofá, vendo as mesmas bobagens da tv? Trancar um casal num casulo é uma idéia romântica para vender como publicidade, e permite vender muitos apartamentos, mas é mortal para o convívio matrimonial.

Estamos aqui no limite do quanto um economista pode responsavelmente penetrar em áreas alheias, ainda que faça parte da tradição do economista poder dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto. O que aqui tentamos delinear, é o fato das dinâmicas econômicas poderem ter um imenso impacto sobre a vida pessoal, a felicidade do casal, o nosso interesse amoroso.

Não é a família que está doente: é o processo de reprodução social e econômico que se tornou absurdo, levando a família de rodo.

O programa americano de TV “Sixty Minutes” levou recentemente ao ar uma reportagem sobre fast-food, a indústria do hamburguer. Estas empresas pesquisaram e concluiram que a excitação das papilas gustativas na criança está centrada no açucar, na gordura e no sal. Assim, temos o refrigerante que acompanha o hamburguer e as batatas fritas. Até aí, tudo bem. Mas as grandes redes como Burger King, McDonald e outros estão fazendo gigantescas campanhas de televisão para fazer as crianças preferir este tipo de comida, e constituem hoje as maiores redes de distribuição de brinquedos e outros brindes para estimular este consuno. Hoje, a grande ofensiva é para se instalar nas escolas, banindo as nutricionistas. Tentar oferecer frutas, legumes e outras comidas tradicionais ao lado deste tipo de estabelecimento, é covardia.

O resultado prático é que hoje, entre hamburgers e salgadinhos, a obesidade atinge 30% dos jóvens norte-americanos. Não é difícil imaginar o que é a vida de uma menina que, com 13 anos é obesa. Ou o que esta vida será. O programa entrevistou o dono de uma grande empresa de publicidade de fast-food, que visa público infantil, e inclusive utiliza crianças na geração da publicidade: perguntado se não achava covardia empurrar este tipo de comida para crianças que precisam de alimentação variada para crescer normalmente, o dono da empresa, um psicólogo, corrigiu: “nos não empurramos produtos, nos informamos as crianças para que possam fazer uma escolha responsável”. [1]

No conjunto, isto significa que somos empurrados sim a nos comportar de acordo com as necessidades das empresas, com os interesses econômicos, em vez das atividades econômicas responderem ás nossas necessidades.

Não é à toa que os gastos mundiais com publicidade atingem somas astronômicas, hoje da ordem de quase um trilhão de dólares. As empresas gastam este dinheiro, porque a publicidade funciona. Não porque somos bobos, mas porque somos influênciaveis, provavelmente uma das características mais ricas do ser humano, porque vinculada à sensibilidade.[2]

É patético as pessoas caminharem solitárias sobre uma esteira, que tiveram que comprar, e que depois de uma semana fica parada num canto, porque já não há mais espaço para jogar bola na vizinhança. Qual o sentido de pedalar numa bicicleta montada na garagem quando podemos utilizar bicicletas de verdade, para passear, através de ciclovias e controle de trânsito. Fabricamos tanta coisa inútil, geramos tanto desperdício, com um ritmo de trabalho que nos esfola e nos priva da simples alegria de viver.

Há lugar para vida inteligente

Havia um tempo em que os brados pela mudança vinham das esquerdas. Hoje, um prêmio nobel de economia como Stiglitz, que foi economista chefe do Banco Mundial, diz que o sistema como está não pode continuar. Hazel Henderson, uma das economistas mais importantes hoje no planeta, diz que a competição não serve mais como regulador geral da economia, e desenvolve a visão do win-win, literalmente ganha-ganha, mostrando que pode-se desenvolver um sistema onde todos ganham. David Korten, que denuncia o absurdo gerado pelos interesses das empresas transnacionais, não vem de movimentos de contestação, vem dos programas americanos de ajuda ao desenvolvimento, e elaborou uma das críticas mais bem estruturadas da forma de organização econômica que hoje prevalece. J. K. Galbraith aponta para uma “sociedade justa”. Peter Drucker, o antigo guru da administração empresarial, hoje dirige uma organização não-governamental e busca os rumos da “sociedade pós-capitalista”. E faz uma constatação óbvia mas poderosa: “não haverá empresas saudáveis numa sociedade doente”.[3]

A lista é muito grande. As pessoas que conhecem as dinâmicas do sistema, porque ajudaram a montá-lo, hoje tendem a tomar um pouco de recúo, buscam o sentido das coisas. O o sentido é relativamente claro: a economia deve servir-nos, para que tenhamos uma vida com qualidade, e não constituir um mecanismo complexo acessível apenas aos espertalhões, que termina por nos jogar em conflitos entre ricos e pobres, criando angústia e insegurança.

Esta mudança passa por uma alteração de formas de organização social. Em particular, temos de organizar nas nossas cidades sistemas descentralizados e participativos de decisão sobre como organizamos os nossos espaços urbanos, pois sem isto continuaremos vítimas das incorporadoras, imobiliárias, empreteiras e outros especuladores urbanos. Não se trata aqui apenas do fato que é um processo corrupto: é um processo corrupto que organiza a sociedade de forma pouco inteligente.

Não basta reorganizar o nosso espaço urbano, para que seja user-friendly como dizem hoje os informáticos. Temos de reorganizar o tempo, principal recurso não renovável de que dispomos para viver de maneira agradável e inteligente. Reduzir a jornada para 6 horas já seria um bom passo, abrindo possibilidades para o convívio, o lazer, a cultura, a família, e com isto dinamizando um consumo mais rico e mais inteligente.[4]

Temos também de aprender a nos organizar. A máquina do Estado e o mundo empresarial são insuficientes, simplesmente porque ambos devem servir à sociedade, e uma sociedade não organizada não tem como impor as suas prioridades. As ONGs, as organizações de base comunitária, as associações dos mais diversos tipos precisam desempenhar um papel chave, e tornar-se parte do cotidiano de cada um de nós.

Temos de democratizar a informação. A descentralização das formas de comunicação, com rádios comunitárias, emissoras locais de TV, constitui um elemento essencial de criação de um vínculo local, de promoção cultura, de integração dos diversos grupos e atores, de divulgação de iniciativas. A principal novela é a nossa própria vida, e vale a pena.

Temos de criar mecanismos que nos permitam resgatar o controle das nossas poupanças. Há inúmeros exemplos de bom funcionamento de formas inovadoras, que vão desde as formas socialmente responsável de aplicações financeiras desenvolvidas nos Estados Unidos, até as cagnottes na França, o crédito solidário no Brasil. Os bancos trabalham com o nosso dinheiro, e devemos aprender a fazer valer o nosso direito em assegurar que as nossas poupanças sejam utilizadas em iniciativas socialmente úteis, e não em especulação.

E temos, óbviamente, de resgatar o imenso fosso social que o processo capitalista está gerando, entre ricos e pobres. Não haverá paz social, não haverá tranquilidade nas ruas, não haverá convívio enriquecedor nas comunidades enquanto dezenas de milhões de pessoas continuarem numa miséria dramática e revoltante.

E a família? A família tem justamente de ajudar na reconstrução deste entorno econômico, social, urbanístico, trabalhista, cultural que a viabilize. Não bastam discursos ideológicos de que a família é o esteio da sociedade. É preciso viabilizá-la, e com isto viabilizar a própria sociedade desnorteada que criamos.




[1] O Instituto Alana tem desenvolvideo um amplo trabalho de conscientização sobre a publicidade destinada a crianças. Ver http://www.alana.org.br

[2] Sobre este tema, ver L. Dowbor, O. Ianni e Hélio Silva - Os desafios da comunicação - Vozes, Petrópolis 1999, em particular o nosso Economia da Comunicação; na mesma coleção, Os desafios do consumo, Vozes, 2008

[3] Joseph Stiglitz - A Globalização e os seus descontentes; Hazel Henderson - Construindo um Mundo onde Todos Ganham, editora Cultrix; Davida Korten -O Mundo Pós-Corporativo - Editora Vozes, Petrópolis, 2000; J.K. Galbraith - A Sociedade Justa - Editora Campus, Rio de janeiro 1996; para escritos recentes de Peter Drucker, ver www.pfdf.org

[4] Um trabalho interessante sobre o tema é Do tempo do trabalho aos tempos da cidade, escrito por Maria-Carmen Belloni, Jean Yves Boulin e Annie Junter-Loiseau, capítulo de As novas fronteiras da desigualdade:hhomens e mulheres no mercado de trabalho, coletânea organizada por Margaret Maruani e Helena Hirata, Senac, São Paulo 2003

* Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e da UMESP, e consultor de diversas agências das Nações Unidas. É autor de “Democracia Econômica”, “A Reprodução Social”, “O Mosaico Partido”, pela editora Vozes, além de “O que Acontece com o Trabalho?” (Ed. Senac) e co-organizador da coletânea “Economia Social no Brasil“ (ed. Senac) Seus numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social estão disponíveis no site http://dowbor.org

Fonte: Envolverde

quarta-feira, 12 de novembro de 2008