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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Crise de humanidade

28/10/2008

Por Leonardo Boff

A crise econômico-financeira, presivísvel e inevitável, remete a uma crise mais profunda. Trata-se de uma crise de humanidade. Faltaram traços de humanidade minimos no projeto neoberal e na economia de mercado, sem os quais nenhuma instituição, a médio e longo prazo, se agüenta de pé: a confiança e a verdade. A economia presupõe a confiança de que os impulsos eletrônicos que movem os papéis e os contratos tenham lastro e não sejam mera matéria virtual, portanto, fictícia. Pressupõe outrossim a verdade de que os procedimentos se façam segundo regras observadas por todos. Ocorre que no neoliberalismo e nos mercados, especialmente a partir da era Thatcher e Reagan, predominiou a financeirização dos capitais. O capital financeiro-especulativo é da ordem de 167 trilhões de dólares, enquanto o capital real, empregado nos processos produtivos (por volta de 48 trilhões de dólares anuais). Aquele delirava na especulação das bolsas, dinheiro fazendo dinheiro, sem controle, apenas regido pela voracidade do mercado. Por sua natureza, a especulação comporta sempre alto risco e vem submetida a desvios sistêmicos: à ganância de mais e mais ganhar, por todos os meios possíveis.

Os gigantes de Wall-Street eram tão poderosos que impediam qualquer controle, seguindo apenas suas próprias regulações. Eles contavam com as informação antecipadas (Insider Information), manipulavam-nas, divulgavam boatos nos mercados, induziam-nos a falsas apostas e tiravam dai grandes lucros. Basta ler o livro do mega-especulador George Soros A crise do capitalismo para constatá-lo, pois ai conta em detalhes estas manobras que destroem a confiança e a verdade. Ambas eram sacrificadas sistematicamente em função do ganância dos especuladores. Tal sistema tinha que um dia ruir, por ser falso e perverso, o que de fato ocorreu.

A estratégia inicial norte-americana era injetar tanto dinheiro nos “ganhadores”(winner) para que a lógica continuasse a funcionar sem pagar nada por seus erros. Seria prolongar a agonia. Os europeus, recordando-se dos resquícios do humanismo das Luzes que ainda sobraram, tiveram mais sabedoria. Denunciaram a falsidade, puseram a campo o Estado como instância salvadora e reguladora e, em geral, como ator econômico direto na construção na infra-estutura e nos campos sensíveis da economia. Agora não se trata de refundar o neoliberalismo mas de inaugurar outra arquitetura econômica sobre bases não fictícias. Isto quer dizer, a economia deve ser capítulo da política (a tese clássica de Marx), não a serviço da especulação mas da produção e da adequada acumulação. E a política se regerá por critérios éticos de transparência, de equidade, de justa media, de controle democrático e com especial cuidado para com as condições ecológicas que permitem a continuidade do projeto planetário humano.

Por que a crise atual é crise de humanidade? Porque nela subjaz um conceito empobrecido de ser humano que só considera um lado dele, seu lado de ego. O ser humano é habitado por duas forças cósmicas: uma de auto-afirmação sem a qual ele desaparece. Aqui predomina o ego e a competição. A outra é de integração num todo maior sem o qual também desaparece. Aqui prevalece o nós e a cooperação A vida só se desenvolve saudavelmente na medida em que se equilibram o ego com o nós, a competição com a cooperação. Dando rédeas só à competição do ego, anulando a cooperação, nascem as distorções que assistimos, levando à crise atual. Contrariamente, dando espaço apenas ao nós sem o ego, gerou-se o socialismo despersonalizante e a ruína que provocou. Erros desta gravidade, nas condições atuais de interdepedência de todos com todos, nos podem liquidar. Como nunca antes temos que nos orientar por um conceito adequado e integrador do ser humano, por um lado individual-pessoal com direitos e por outro social-comunitário com limites e deveres. Caso contrário, nos atolaremos sempre nas crises que serão menos econômico-financeiras e mais crises de humanidade.

Fonte: Portal do Meio Ambiente

'Marx tinha razão', afirma arcebispo

"Na sua análise do capitalismo, Karl Marx estava certo", palavra
do sucessor do cardeal Joseph Ratzinger e supervisor da encíclica
social. No livro "O Capital - Uma defesa do homem", o arcebispo de
München, Reinhard Marx, dirige uma surpreendente carta-reabilitação ao
fundador do comunismo.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, do jornal italiano La Stampa,
26-10-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"É preciso levá-lo a sério, é um erro considerá-lo morto, como
muitos o pensam. O movimento marxista tem causas reais e coloca
questões justificadas" - afirma o arcebispo designado por Bento XVI à
sede arquiepiscopal que foi sua. "Apoiemo-nos em Marx, porque ele
tinha razão. Na sua análise da situação do século XIX, existem pontos
irrefutáveis. A ética social da Igreja nunca confundiu a obra
filosófica de Marx com Stalin e o Gulag".

Em suma, "não se pode atribuir a Marx o que os seus epígonos
fizeram". Antes, o filósofo de Trier "analisou bem o caráter mercantil
do trabalho e previu a mercantilização de todos os setores da vida". E
o comunismo "não desapareceu definitivamente da face da terra com a
queda da URSS, já que vemos que Marx está vivendo agora um
renascimento, como confirma a triplicação das vendas na Alemanha do
primeiro volume do Capital".

Para o arcebispo, muito influente no episcopado europeu, "com o
tipo de capitalismo herdado da Segunda Guerra Mundial não iremos
longe". Depois do Times, de Londres, que há poucos dias reconheceu a
longividência de análise dos desenvolvimentos dos mecanismos
capitalistas, também na hierarquia eclesiástica Marx encontra
admiradores inesperados. Para remover, entretanto, os equívocos do
caminho, o arcebispo metropolitano afirma não se marxista, mas deseja
uma sociedade com uma economia "baseada em princípios éticos". Desse
ponto de vista, a doutrina social da Igreja constitui uma crítica
anticapitalista: "Um capitalismo sem um quadro ético é inimigo do
gênero humano". Por isso, "é preciso pedir desculpas a Marx por tê-lo
deixado ao esquecimento", assegura o prelado à revista Der Spiegel.

Exulta a Rifondazione Comunista [1]: "Até o arcebispo de München o
diz: o comunismo é atual e necessário". Claudio Grassi, da secretaria
do PRC: "São trechos do documento conclusivo do congresso da
Rifondazione vindo de 'comunistas identitários'?" - pergunta-se
retoricamente Grassi. "Não. É o arcebispo católico de München. Quanto
os dirigentes da esquerda italiana, que definem o comunismo como uma
palavra 'indizível', tem o olhar voltado para trás!". Uma "benção"
muito mais clamorosa, porque vem de um eclesiástico de peso. O
arcebispo Marx é membro do Pontifício Conselho Justiça e Paz. A sua
releitura do pai do comunismo não passará inobservada: o prelado
alemão foi escolhido para a supervisão das contribuições que
confluirão na próxima encíclica social de Ratzinger.

Notas:

1. O Partito della Rifondazione Comunista (Partido da Refundação
Comunista), PRC ou simplesmente Rifondazione Comunista é um partido
político da esquerda radical italiana, pacifista e ligado aos
movimentos sociais. Foi fundado em 1991, por antigos membros do
extinto Partido Comunista Italiano