sábado, 27 de dezembro de 2008

A NATUREZA E A DICOTOMIA RAZÃO VERSUS INSTINTO




Foi por mostrar uma natureza suplicante, rastejante, e nem por isso em posição inferior, mas como quem se encontra prestes a engolir o impassível ser humano que a confronta imóvel, protegido e frio, que me impressionou tanto esta fotografia de Monica Denevan. A imagem é uma bela representação da postura que tem marcado a relação humana com a castigada mãe natureza, haja vista, a título de exemplo, o que temos feito diante da problemática do aquecimento global.
A cada dia que passa recebemos mais evidências de que nossos esforços na mitigação do efeito estufa antrópico(1) estão longe de serem suficientes e muito aquém de metas assumidas. Apesar disto, na última Conferência das Partes (COP14)(2), o que se viu foram nações buscando defender seus próprios interesses, seus confortos adquiridos ao longo do tempo, e cedendo em geral apenas onde não seriam necessários grandes esforços.
Obviamente não será o suficiente. As conseqüências de nossa displicência logo se mostrarão, e quando a situação recrudecer-se a extremos e o homem resolver finalmente reagir como deveria, talvez seja tarde demais.
Mas a sábia natureza sempre caminha para o equilíbrio, e as fontes de desordem mais cedo ou mais tarde são eliminadas. Neste caso a fonte somos nós e, conforme já dizia Raulzito lá pelos idos de 1973:

“Buliram muito com o planeta
E o planeta como um cachorro eu vejo
Se ele já não aguenta mais as pulgas
Se livra delas num sacolejo”(3)

O ímpeto hematófago(4) a humanidade, que suga sem piedade os recursos do planeta, é mais forte que qualquer razão. O ser humano prova a cada dia ser um animal como qualquer outro, apesar de se achar superior aos demais.
O instinto competitivo animal impele os indivíduos a tomarem para si e consumir o máximo de qualquer recurso(5) que lhe seja caro (aqui não no sentido estritamente financeiro da palavra, mas no mais amplo). Um animal qualquer, diante de uma fonte abundante de alimento, come e reproduz-se a exmo, até que a fonte se esgote e, se não houver alternativas, a mortalidade seja generalizada. O homem, claro, é um pouco mais pretencioso que os demais animais, de modo que para nós estes recursos representam, além de coisas básicas como água e alimento, também regalias como carrões potentes, espaçosas casas ou um carrinho de supermercado lotado de guloseimas. Mas todas as espécies existentes sobre o planeta evoluíram aperfeiçoando-se para passarem seus genes para as gerações seguintes, na maior quantidade possível e enquanto houver condições para isto, buscando a dominância e a perpetuidade e nunca levando em consideração as necessidades das outras. Para isto são necessários recursos naturais, o quanto mais melhor.
Quando surge uma espécie com um alto poder adaptativo ou num meio com grande abundância de recursos, esta logo domina o ambiente e se multiplica geometricamente, numa curva ascendente, monopolizando uma grande quantidade destes recursos para si. Porém isto dura pouco, pois a capacidade de suporte(6) do meio é limitada, e logo o crescimento estabiliza-se ou a densidade populacional cai abrupta e verticalmente, devido ao esgotamento de algum destes recursos (em geral alimento). É o ímpeto competitivo, a força motriz básica da evolução descrita por Darwin a mais de um século, que governa estas atitudes. A natureza é rica em exemplos deste tipo e o homem é apenas mais um.
Para que deixemos de ser apenas mais uma destas espécies, o grande desafio está aí, crescendo diante de nossos olhos. Trata-se de suplantar e dominar com a razão nossos mais básicos instintos, os impulsos primevos de “alimentar-se” e reproduzir, passando a consumir menos e retirar da natureza apenas o que ela pode repor num tempo viável. Isto faria com que nossa curva de crescimento populacional se estabilizasse sem quedas abruptas (que representariam uma mortalidade generalizada).
Porém, por enquanto, a razão tem perdido feio esta luta, diria que está próxima de ser nocauteada...

(1) O efeito estufa é um fenômeno natural, que mantêm o planeta terra numa temperatura média agradável, tornando a vida como ela é hoje viável. Porém algumas atividades humanas potencializam este efeito, gerando o que chamamos de “efeito estufa antrópico”, que é um aquecimento da atmosfera acima do que ocorreria sem a intervenção humana.
(2) A Conferência das Partes reúne-se anualmente e é o órgão decisório supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que, por sua vez, é um tratado internacional do qual são signatários mais de 150 Estados, criado com o objetivo de fazer frente às mudanças climáticas mundiais. COP14 é a sigla para a 14ª Conferência das Partes, que ocorreu em dezembro de 2008 na Polônia.
(3) Trecho da música “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”, composta por Raul Seixas.
(4) Hematófagos são parasitas que se alimentam de sangue, a exemplo das citadas pulgas da música de Raul Seixas.
(5) Num conceito biológico, recurso é tudo aquilo que é necessário para uma espécie e virtualmente esgotável. Como exemplos poderíamos dar os alimentos, a água, ou o próprio espaço físico.
(6) Capacidade de suporte é o tamanho máximo estável de uma população, determinado pela quantidade de recursos disponíveis e pela demanda mínima individual.



Autor: Jean Fábio Bianconcini

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