"O Ibama não explica por que concede licença com mais facilidade para térmica do que para hidrelétrica"
Miriam Leitão é jornalista e titular da coluna "Panorama Econômico", publicada em "O Globo":
O Brasil pode mais do que triplicar a capacidade de geração de energia a carvão mineral até 2017 e multiplicar por quatro as emissões de CO2 dessa fonte de energia. O governo incentiva o negócio com crédito do BNDES, redução de Imposto de Renda, PIS/Cofins e ICMS de importação de carvão.
O presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, admite apenas que a geração a carvão vai dobrar. Segundo Tolmasquim, o Brasil tinha, em 2007, 1.415 MW de potência instalada a carvão e chegará a 2017 com 3.175 MW:
- Vai dobrar mas continuará sendo pequena na nossa matriz. É hoje 1,4% da energia e será 2,1%.
O Brasil possui nove termelétricas a carvão mineral em funcionamento, com capacidade de geração de 1.530 MW, segundo a Aneel. Quatro estão em construção e vão dobrar a capacidade até 2013. Sozinhas, elas poderão gerar mais 1.790 MW de energia. Três delas estão sendo construídas pela MPX, no Nordeste, e outra pela Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica, no Sul do país.
Outros oito projetos já receberam licença para a construção. Serão mais 4.117 MW. Tudo somado pode levar a 7.437 MW de energia movida a carvão. Aumento de 386%.
Tolmasquim diz que os números da EPE são outros, e vão ser revistos no novo Plano Decenal.
- Uma coisa é ver todas as possibilidades possíveis, outra é planejar. Estamos planejando menos.
O Plano Decenal de Expansão de Energia registra que as emissões de CO2 dessas térmicas poderão saltar de cerca de 5 milhões de toneladas para 22 milhões em 2017. O leilão de dezembro, como já registrado aqui na coluna, deve ser vencido pelas térmicas a carvão.
- Isso não é razoável, mas há mais facilidade de concessão de licença para térmicas do que para hidrelétricas - diz ele.
O que leva uma empresa a investir em energia com alto teor de emissão que será cada vez mais taxada no futuro? O presidente da MPX, Eduardo Karrer, diz que o carvão é inevitável:
- Não podemos descartar o carvão, mas podemos torná-lo menos poluente. Vamos investir R$ 1,2 bilhão em pesquisa de ponta para reduzir as emissões de carvão - afirmou Karrer.
Pode ser. No mundo inteiro há pesquisas para tentar limpar o carvão, mas os especialistas admitem que não há qualquer garantia de que isso será possível. Karrer diz que sua linha de estudo é usar microalgas que reduziriam entre 10% e 15% o volume de emissões de CO2. A Tractebel, que sozinha responde por quase 1.000 MW da produção atual a carvão, foi procurada insistentemente pela coluna mas não se pronunciou.
Na verdade, as empresas são incentivadas pelo governo a entrar no negócio. Somente para a construção da termelétrica de Pecém I, da MPX, houve financiamento de cerca de R$ 1,4 bilhão do BNDES. Já as usinas de Pecém II e Itaqui, que integram o PAC, ganharam desconto de 75% em Imposto de Renda, isenção de PIS/Cofins, abatimento de 59% de ICMS na importação do carvão que virá da Colômbia.
Além disso, se as três usinas que estão sendo construídas pela MPX no Nordeste não precisarem entrar em operação, elas terão uma rentabilidade assegurada de R$ 715 milhões anuais de subsídio tarifário. Elas recebem mesmo quando não produzem. Fazem parte do sistema de complementação de energia.
Por isso, Tolmasquim disse que não se pode calcular o volume de emissões, a partir do aumento da capacidade instalada das térmicas fósseis. Porque elas só funcionarão quando faltar água nos reservatórios.
O Ibama não explica por que concede licença com mais facilidade para térmica do que para hidrelétrica. Diz que não é o órgão que define a política energética do país e não pode negar licenças se elas atenderem ao Termo de Referência. Como a legislação permite o uso de térmicas a carvão, considera que há pouco que possa fazer.
Para mitigar a emissão, o Ibama exigiu a compensação através do plantio de árvores, mas as empresas foram à Justiça e a exigência foi derrubada. É assim, com incentivos e falhas regulatórias, que o Brasil vai sujando sua matriz.
Fonte: O Globo, 02/12/09
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Papel aceita tudo, até metas, artigo de Marcelo Leite
"Por que se fixou meta sem antes finalizar o inventário de emissões?"
Marcelo Leite é jornalista. Artigo publicado na "Folha de SP":
Nos últimos dez dias, o governo Lula acertou duas no cravo e uma na ferradura ambiental. Primeiro, anunciou a menor taxa de desmatamento já registrada, 7.000 km2 (um terço de Sergipe). Depois, que cortaria as emissões futuras do país em 36% a 39% até 2020.
A ferradura vai por conta de Reinhold Stephanes, ministro da Agricultura. Ele teria convencido o presidente a adiar mais uma vez a obrigatoriedade de averbar (formalizar em escritura) a reserva legal de propriedades rurais. A medida, se vingar, embaça o verniz verde que Lula e Dilma Rousseff arrumaram para ir a Copenhague.
Esse reconhecimento oficial dos passivos ambientais foi decidido em junho de 2008 e agendado para dezembro daquele ano. Depois, adiado para este dezembro. Agora, corre o risco de ficar para junho de 2011.
Seria um prêmio para quem desmatou ilegalmente. Não o primeiro, nem o último. É tradição no Brasil punir quem cumpre as regras. Os economistas e juristas chamam isso de "moral hazard" (risco moral), um poderoso fator de insegurança jurídica. O incentivo implícito ao comportamento criminoso garantido pela impunidade é tão certo quanto a taxa de desmate, medida por satélite. [grifo meu]
Duvidosos são os números projetados para a redução das emissões de gases do efeito estufa (GEE) até 2020.
Não porque os especialistas que ajudaram a produzi-los sejam inconfiáveis, mas porque esse tipo de projeção é complexo e muitas coisas não ficaram bem explicadas. Pelo menos quatro coisas, para ser exato.
Primeiro ponto nebuloso: por que se deu início a esse exercício de fixar metas sem antes finalizar o inventário de emissões brasileiras? Chega a ser ridículo calcular quanto o país estará produzindo de gases do efeito estufa daqui a dez anos quando o dado mais recente disponível é de... 1994. Isso mesmo, de 15 anos atrás.
O novo inventário está em produção há anos pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Enquanto o governo resistia a assumir metas de mitigação, coisa que não era obrigado a fazer pelo acordo de Kyoto, talvez fizesse algum sentido -para cabeças limitadas- esconder o crescimento das emissões.
Agora, virou piada de mau gosto. Supõe-se que as emissões totais hoje sejam da ordem de 2 bilhões de toneladas de CO2-equivalente (o potencial de causar aquecimento global de outros gases, como metano e óxido nitroso, é "traduzido" por essa medida no valor do gás carbônico). Estima-se que em 2020 serão 2,7 bilhões, cifra que seria então reduzida para algo em torno de 1,7 bilhão.
E se o valor atual for 1,9 bilhão? Ou 2,1 bilhões? Não é pouca porcaria. Cortar 100 milhões de toneladas anuais, ao longo de dez anos, pode exigir R$ 20 bilhões em investimentos -isso se for empregada uma opção barata de mitigação, como a recuperação de pastagens degradadas. Por falar nisso, quanto vai custar o esforço total de corte de emissões anunciado pelo governo federal? É a segunda grande questão sem resposta. Só o setor agrícola precisaria de R$ 86 bilhões. E os outros?
Terceiro enigma: Por que a meta do governo paulista, anunciada dias antes, é tão desproporcionalmente mais baixa que a federal? José Serra falou em 24 milhões de toneladas de redução em 2020. Dilma Rousseff, em 1 bilhão. Mesmo com a Amazônia pesando só na balança federal, essa desproporção parece gritante.
Por fim, ao inscrever as metas na lei nacional do clima como compromisso voluntário e não obrigatório, estaria Lula querendo dizer que se sente livre para não cumpri-las?
Fonte: Folha de SP, 22/11/09
Marcelo Leite é jornalista. Artigo publicado na "Folha de SP":
Nos últimos dez dias, o governo Lula acertou duas no cravo e uma na ferradura ambiental. Primeiro, anunciou a menor taxa de desmatamento já registrada, 7.000 km2 (um terço de Sergipe). Depois, que cortaria as emissões futuras do país em 36% a 39% até 2020.
A ferradura vai por conta de Reinhold Stephanes, ministro da Agricultura. Ele teria convencido o presidente a adiar mais uma vez a obrigatoriedade de averbar (formalizar em escritura) a reserva legal de propriedades rurais. A medida, se vingar, embaça o verniz verde que Lula e Dilma Rousseff arrumaram para ir a Copenhague.
Esse reconhecimento oficial dos passivos ambientais foi decidido em junho de 2008 e agendado para dezembro daquele ano. Depois, adiado para este dezembro. Agora, corre o risco de ficar para junho de 2011.
Seria um prêmio para quem desmatou ilegalmente. Não o primeiro, nem o último. É tradição no Brasil punir quem cumpre as regras. Os economistas e juristas chamam isso de "moral hazard" (risco moral), um poderoso fator de insegurança jurídica. O incentivo implícito ao comportamento criminoso garantido pela impunidade é tão certo quanto a taxa de desmate, medida por satélite. [grifo meu]
Duvidosos são os números projetados para a redução das emissões de gases do efeito estufa (GEE) até 2020.
Não porque os especialistas que ajudaram a produzi-los sejam inconfiáveis, mas porque esse tipo de projeção é complexo e muitas coisas não ficaram bem explicadas. Pelo menos quatro coisas, para ser exato.
Primeiro ponto nebuloso: por que se deu início a esse exercício de fixar metas sem antes finalizar o inventário de emissões brasileiras? Chega a ser ridículo calcular quanto o país estará produzindo de gases do efeito estufa daqui a dez anos quando o dado mais recente disponível é de... 1994. Isso mesmo, de 15 anos atrás.
O novo inventário está em produção há anos pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Enquanto o governo resistia a assumir metas de mitigação, coisa que não era obrigado a fazer pelo acordo de Kyoto, talvez fizesse algum sentido -para cabeças limitadas- esconder o crescimento das emissões.
Agora, virou piada de mau gosto. Supõe-se que as emissões totais hoje sejam da ordem de 2 bilhões de toneladas de CO2-equivalente (o potencial de causar aquecimento global de outros gases, como metano e óxido nitroso, é "traduzido" por essa medida no valor do gás carbônico). Estima-se que em 2020 serão 2,7 bilhões, cifra que seria então reduzida para algo em torno de 1,7 bilhão.
E se o valor atual for 1,9 bilhão? Ou 2,1 bilhões? Não é pouca porcaria. Cortar 100 milhões de toneladas anuais, ao longo de dez anos, pode exigir R$ 20 bilhões em investimentos -isso se for empregada uma opção barata de mitigação, como a recuperação de pastagens degradadas. Por falar nisso, quanto vai custar o esforço total de corte de emissões anunciado pelo governo federal? É a segunda grande questão sem resposta. Só o setor agrícola precisaria de R$ 86 bilhões. E os outros?
Terceiro enigma: Por que a meta do governo paulista, anunciada dias antes, é tão desproporcionalmente mais baixa que a federal? José Serra falou em 24 milhões de toneladas de redução em 2020. Dilma Rousseff, em 1 bilhão. Mesmo com a Amazônia pesando só na balança federal, essa desproporção parece gritante.
Por fim, ao inscrever as metas na lei nacional do clima como compromisso voluntário e não obrigatório, estaria Lula querendo dizer que se sente livre para não cumpri-las?
Fonte: Folha de SP, 22/11/09
terça-feira, 12 de maio de 2009
Fuligem responde por um terço do aquecimento global
Carbono particulado que sai dos escapamentos dos carros e da fumaça das queimadas ganha peso no debate climático. Papel de poluente no clima era incerto; São Paulo emite mais fuligem por ano do que todas as queimadas da Amazônia, estima cientista
Eduardo Geraque escreve para a “Folha de SP”:
A fuligem que sai dos escapamentos, das usinas termelétricas e das queimadas florestais responde por aproximadamente um terço do aquecimento global líquido. Amenizar o calor que ameaça ecossistemas e a biodiversidade, portanto, pode ser mais fácil e mais barato do que se imagina, afirmam pesquisadores.
Novas estimativas, feitas por vários grupos de pesquisa, estimam a importância de controlar o chamado carbono negro, fruto de qualquer processo de combustão.
A fuligem integra a classe dos aerossóis, partículas cujo papel no aquecimento e no resfriamento do planeta durante o século 20 é uma das principais incertezas do relatório do IPCC, o painel do clima da ONU. Agora os pesquisadores começam a diminuir essa incerteza.
"Em São Paulo, a maior fonte desse poluente é a frota de ônibus a diesel", diz Paulo Artaxo, físico da USP (Universidade de São Paulo), e membro do IPCC.
Nas contas feitas pela equipe do cientista, a capital paulista tem 20 vezes mais carbono negro em suspensão na sua atmosfera do que a Amazônia, com todas as suas queimadas.
"Retirar esse tipo de carbono é bom para o clima e para a saúde das pessoas." O que reforça a importância, diz Artaxo, de que exista vontade política para começar a melhorar o ar dos grandes centros urbanos.
Duas vezes mais rápido
Segundo o engenheiro ambiental Mark Jacobson, da Universidade Stanford (EUA), o controle do carbono negro, em uma década, pode frear o aquecimento global até duas vezes mais rápido do que a redução do gás carbônico.
Mas essa redução, ressalta, será apenas temporária se não vier acompanhada de um corte efetivo nas emissões de CO2. Este, no longo prazo, continua sendo o maior responsável pelo aquecimento global. Mas o carbono negro é o segundo, um pouco à frente do metano.
"A redução da fuligem sozinha pode eliminar um terço do aquecimento global líquido", afirmou Jacobson à Folha. O carbono negro também tem um efeito resfriador, pois ajuda a "semear" nuvens, que refletem a radiação para o espaço.
Em 2007, o pesquisador apresentou um plano ousado ao Congresso dos EUA. Pelas contas do cientista, é teoricamente factível construir e instalar 122 mil turbinas eólicas para movimentar toda a frota veicular do país por eletricidade. O esforço, no entanto, demandaria "apenas" trocar toda a frota americana por veículos elétricos a hidrogênio.
Essa ação, diz Jacobson, reduziria em aproximadamente 7% ao ano o impacto antrópico (causado por atividades humanas) sobre o aquecimento global. O cientista, claro, não calculou custos nem deu prazo para a troca.
No caso brasileiro, diz Artaxo, nem mesmo o carro a álcool está livre de emitir fuligem sufocante. "Toda combustão lança carbono negro no ar. O motor a álcool emite menos. O carro a gasolina, dez vezes mais, e o a diesel, cem vezes mais do que o a gasolina", diz o físico. Valores mais precisos dependem do tipo exato de veículo e o combustível colocado para encher o tanque.
Enquanto os cientistas refinam o impacto global do carbono negro, no Ártico, os dados estão mais consolidados.
Estudo da Nasa publicado em abril, na revista "Nature Geoscience", mostra que o poluente respondeu por 50% do aquecimento entre 1890 e 2007. Nesse período, os termômetros subiram, em média, 1,9C naquela região.
Na neve está o outro efeito perverso do carbono negro. A fuligem negra sobre ela também absorve calor, acelerando o derretimento do gelo.
Fonte: JC E-mail, da Folha de SP.
Eduardo Geraque escreve para a “Folha de SP”:
A fuligem que sai dos escapamentos, das usinas termelétricas e das queimadas florestais responde por aproximadamente um terço do aquecimento global líquido. Amenizar o calor que ameaça ecossistemas e a biodiversidade, portanto, pode ser mais fácil e mais barato do que se imagina, afirmam pesquisadores.
Novas estimativas, feitas por vários grupos de pesquisa, estimam a importância de controlar o chamado carbono negro, fruto de qualquer processo de combustão.
A fuligem integra a classe dos aerossóis, partículas cujo papel no aquecimento e no resfriamento do planeta durante o século 20 é uma das principais incertezas do relatório do IPCC, o painel do clima da ONU. Agora os pesquisadores começam a diminuir essa incerteza.
"Em São Paulo, a maior fonte desse poluente é a frota de ônibus a diesel", diz Paulo Artaxo, físico da USP (Universidade de São Paulo), e membro do IPCC.
Nas contas feitas pela equipe do cientista, a capital paulista tem 20 vezes mais carbono negro em suspensão na sua atmosfera do que a Amazônia, com todas as suas queimadas.
"Retirar esse tipo de carbono é bom para o clima e para a saúde das pessoas." O que reforça a importância, diz Artaxo, de que exista vontade política para começar a melhorar o ar dos grandes centros urbanos.
Duas vezes mais rápido
Segundo o engenheiro ambiental Mark Jacobson, da Universidade Stanford (EUA), o controle do carbono negro, em uma década, pode frear o aquecimento global até duas vezes mais rápido do que a redução do gás carbônico.
Mas essa redução, ressalta, será apenas temporária se não vier acompanhada de um corte efetivo nas emissões de CO2. Este, no longo prazo, continua sendo o maior responsável pelo aquecimento global. Mas o carbono negro é o segundo, um pouco à frente do metano.
"A redução da fuligem sozinha pode eliminar um terço do aquecimento global líquido", afirmou Jacobson à Folha. O carbono negro também tem um efeito resfriador, pois ajuda a "semear" nuvens, que refletem a radiação para o espaço.
Em 2007, o pesquisador apresentou um plano ousado ao Congresso dos EUA. Pelas contas do cientista, é teoricamente factível construir e instalar 122 mil turbinas eólicas para movimentar toda a frota veicular do país por eletricidade. O esforço, no entanto, demandaria "apenas" trocar toda a frota americana por veículos elétricos a hidrogênio.
Essa ação, diz Jacobson, reduziria em aproximadamente 7% ao ano o impacto antrópico (causado por atividades humanas) sobre o aquecimento global. O cientista, claro, não calculou custos nem deu prazo para a troca.
No caso brasileiro, diz Artaxo, nem mesmo o carro a álcool está livre de emitir fuligem sufocante. "Toda combustão lança carbono negro no ar. O motor a álcool emite menos. O carro a gasolina, dez vezes mais, e o a diesel, cem vezes mais do que o a gasolina", diz o físico. Valores mais precisos dependem do tipo exato de veículo e o combustível colocado para encher o tanque.
Enquanto os cientistas refinam o impacto global do carbono negro, no Ártico, os dados estão mais consolidados.
Estudo da Nasa publicado em abril, na revista "Nature Geoscience", mostra que o poluente respondeu por 50% do aquecimento entre 1890 e 2007. Nesse período, os termômetros subiram, em média, 1,9C naquela região.
Na neve está o outro efeito perverso do carbono negro. A fuligem negra sobre ela também absorve calor, acelerando o derretimento do gelo.
Fonte: JC E-mail, da Folha de SP.
Transgênicos
Era visto que isto aconteceria, mas como sempre cria-se um monte de regras, a pretexto de se dizer que está sendo feito algo mas que todo mundo sabe que não serão cumpridas, que permitem que se libere o que quer que seja. A regra é geral, e a pressão da sociedade, principalmente daquelas parcelas mais abastadas, consegue o que quer. O mesmo está acontecendo com esta semente que foi plantada com o código ambiental de SC. Seguem as matérias abaixo:
10 - 10. País perde controle dos transgênicos
Produtores e cooperativas não separam lavouras convencionais de milho das geneticamente modificadas, alegando falta de estrutura. Governo não fiscaliza todas as etapas do processo, e indústria alimentícia afirma que a responsabilidade de controle não é do setor
Agnaldo Brito escreve para a “Folha de SP”:
A primeira safra de milho geneticamente modificado no Brasil ampliará o descontrole do país em relação ao controverso uso desse tipo de produto na indústria de alimentos. Além de já representar uma ameaça de contaminação a produtores de variedades não transgênicas, o milho transgênico deverá contaminar milhões de toneladas do grão convencional devido à decisão dos produtores de não separar os dois tipos de cultivo.
A reportagem da Folha visitou regiões produtoras no interior do Paraná e ouviu de produtores e cooperativas que não existe estrutura suficiente para colheita, transporte e armazenagem da produção transgênica separada da convencional.
A Lei de Biossegurança não exige a separação da produção, mas é clara ao exigir a fiscalização de todos esses processos, o que não ocorre. Responsável por esse controle, o Ministério da Agricultura diz que ele é realizado, embora os produtores neguem.
Edmundo Klotz, presidente da Abia (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação), afirma que a indústria está sendo obrigada a controles de matéria-prima que não são de responsabilidade dela. A falta de controle confronta o direito dos consumidores de saber o que consomem e pode dificultar as exportações de produtos agrícolas e pecuários.
Controle é luxo desnecessário, diz governo
O Brasil começa a colher em algumas semanas a primeira safra comercial de milho transgênico autorizada pelo governo. O tamanho exato dessa produção ninguém ainda sabe, nem a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).
O certo é que uma parte importante dos 17,4 milhões de toneladas da produção prevista do milho safrinha terá a tecnologia Bt (sigla para Bacillus thuriengensis), pela qual um gene não existente na planta é inserido no DNA de algumas variedades de milho.
A missão dessa proteína é criar toxinas inseticidas que matam três tipos de lagarta quando elas ingerem qualquer parte da planta. Para os produtores, a tecnologia promete reduzir o número de aplicações de veneno nas lavouras.
Mas a grande preocupação do campo agora nem é exatamente o volume de produção de milho Bt, mas sim os riscos sobre os milhões de toneladas que não são geneticamente modificadas e que vão entrar na cadeia de produção de alimentos nas próximas semanas.
Os agricultores informam que a separação entre OGM (organismo geneticamente modificado) e não OGM será mínima. Procuradas, grandes indústrias consumidoras de grãos utilizados na produção de ração para frangos e suínos, como as gigantes Sadia e Perdigão, prometem manter políticas de aquisição de não OGMs. Como o farão não informaram.
A reportagem da Folha percorreu uma das maiores regiões de produção de grãos do país, o oeste do Paraná, e flagrou o plantio fora das regras impostas pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, maior autoridade em biossegurança do país) para o cultivo do milho transgênico. Mais: uma boa parte da nova safra desse OGM será colhida, transportada, armazenada e provavelmente processada sem nenhuma separação.
O assunto traz também uma enorme ameaça para boa parte da indústria de alimentos, cujo esforço tem sido o de tentar de todas as formas se enquadrar nos limites de até 1% de OGM na composição de seus produtos e evitar a rotulagem com o selo indicador de existência de transgênico.
O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) acredita que o milho vai agravar um problema que já ocorre com a soja. O governo admite: "[A rotulagem] está sendo cumprida, [mas] não na abrangência que a lei requer", afirma Jairon do Nascimento, secretário-executivo da CTNBio, autoridade responsável por liberar 11 tecnologias transgênicas no país.
A propósito, a CTNBio considera a rotulagem "um luxo desnecessário". A alegação é que o consumidor deve confiar na segurança dos OGMs autorizados pela comissão.
Tudo misturado
A exemplo do que ocorreu com a soja transgênica, hoje quase que totalmente misturada às variedades convencionais, o milho, segundo os produtores, terá o mesmo destino.
O problema começa já na lavoura, com o risco real de contaminação de plantações convencionais ou orgânicas por plantas transgênicas. A possibilidade de uma planta polinizar outra cria dúvidas sobre as garantias reais de que a lavoura convencional não receberá pólen transgênico.
A Seab (Secretaria Estadual de Agricultura e do Abastecimento do Paraná), Estado que mais tem combatido o avanço dos transgênicos no país, confere a eficácia das regras fixadas pela CTNBio que determinam espaços e tempos de plantios não coincidentes com o objetivo de não misturar milhos.
A reportagem da Folha acompanhou fiscais da secretaria num teste em plantação no município de Goioerê e constatou, em análise preliminar, traços de transgênicos em lavoura de milho convencional.
Segundo o engenheiro agrônomo Marcelo Silva, fiscal do Departamento de Fiscalização e da Defesa Agropecuária da Seab, há fortes indícios de que o afastamento exigido hoje não é suficiente para assegurar a coexistência com a tecnologia transgênica sem que ela contamine plantios convencionais ou orgânicos por polinização.
O assunto é polêmico, envolve risco de perda de contratos (o que já ocorreu com produtores de soja) e até o direito de produtores que não queiram adotar a tecnologia de companhias multinacionais de biotecnologia, como Monsanto, Syngenta, Bayer e outras.
O trabalho da Secretaria de Agricultura do Paraná pode culminar num enorme revés para a CTNBio, que admite que, se houver fatos novos no estudo de transgênicos, pode reavaliar as suas decisões.
Para ministério, regra não evita contaminação
O Nead (Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural), ligado ao gabinete do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário), acaba de finalizar um relatório em que pede à CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) a revisão imediata das regras de plantio de variedades transgênicas de milho autorizadas em todo o país.
O relatório é categórico em afirmar que, pelas regras atuais de espaçamento, é impossível evitar a contaminação de lavouras de milho convencionais e orgânicas por material genético de plantas modificadas.
Pela resolução em vigor, lavouras transgênicas de milho, quando vizinhas de plantios convencionais ou orgânicos, devem respeitar a distância de 100 metros, ou, de forma "alternativa", 20 metros com uma bordadura de milho não OGM.
A CTNBio, com base em pesquisas, afirma que a bruma de pólen de uma planta não viaja mais do que dez metros -portanto não irá contaminar plantios de milho convencional.
No campo, a avaliação da comissão é vista com muita desconfiança, uma das razões que levam neste momento grandes cooperativas, como a Comigo (a maior do Centro-Oeste), ou a Copacol, no Paraná, a não se dar ao trabalho de fazer nenhuma separação entre transgênicos e não transgênicos.
Contestação
A CTNBio refuta o relatório desenvolvido pelo núcleo de estudos do MDA e reconhece que o assunto divide os membros do governo Lula. "O governo é ambíguo acerca do uso da tecnologia da transgenia no Brasil. Os ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e da Ciência e Tecnologia apoiam os eventos transgênicos e refutam o relatório do MDA. Do ponto de vista científico, [o relatório] não se sustenta", diz Jairon do Nascimento, secretário-executivo da comissão.
Gilles Ferment, pesquisador do Nead/MDA, critica o método de gestão de risco dos transgênicos na CTNBio.
Produtores descartam separação
A Comigo, maior cooperativa do Centro-Oeste, diz que não irá separar milho transgênico do convencional por causa do custo. A Copavel (PR) fará a separação do milho OGM nas granjas de frangos e suínos por enquanto. Mas admite usar farelo de soja transgênica na ração animal.
(Folha de SP, 10/5)
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11 - 11. Teste não garante alimento 100% livre de transgênico
Exame usado no Brasil não detecta DNA modificado em produto industrializado que usa matéria-prima transgênica. Rotulagem correta de alimentos com o selo de "transgênico" depende de fiscalização na produção, processo caro e raro no país
Os testes feitos para a detecção de DNA transgênico em alimentos processados não é capaz de garantir que todos os produtos examinados sejam verdadeiramente livres de OGM (organismos geneticamente modificados).
A informação é do laboratório AgroGenética, contratado pelo Ministério da Justiça para produzir 280 análises por ano em alimentos coletados pelos Procons em todo o país. A empresa também é encarregada de fazer análises de sementes, grãos e partes de plantas para o Ministério da Agricultura.
Adotada pelo laboratório, a técnica de PCR (reação em cadeia da polimerase, análise capaz de detectar DNA de organismos transgênicos presentes em amostras) não é capaz de encontrar genes de OGM em alimentos altamente processados ou em carnes "in natura".
Nos dois casos, a ausência de DNA transgênico não significa que o processo industrial de produção desses alimentos não tenha usado OGM.
Pela lei brasileira de rotulagem, o resultado "ausência" de DNA transgênico na amostra não é atestado definitivo para a não rotulagem do produto. É necessário saber se no processo industrial foram usados grãos OGM para a produção do alimento. Para o diretor do DPDC (Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor), do Ministério da Justiça, Ricardo Morichita Wada, responsável pelo cumprimento das regras de rotulagem no Brasil, a fiscalização não tem encontrado transgenia em suas análises.
Ele também diz, entretanto, que o monitoramento não deve ser feito exclusivamente nos produtos finais, mas também ao longo da cadeia, algo que está sob a responsabilidade do Ministério da Agricultura.
Fiscalização no campo
A reportagem da Folha tentou falar com o coordenador de Biossegurança de OGM do Ministério da Agricultura, Marcus Vinícius Segurado Coelho, ao longo da semana. O coordenador alegou problemas de agenda, mas respondeu por e-mail a questões relativas ao trabalho de fiscalização do governo.
Coelho negou que a fiscalização não esteja sendo feita, mas admite que pode haver problemas. "Com relação às regras de produção, é possível que ocorram casos de descumprimento num primeiro momento em face da novidade das regras. Isso ocorre em qualquer atividade regulamentada e não seria diferente para o presente caso. Nesse momento é que é importante a fiscalização", disse.
O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), instituição que tem cobrado o cumprimento da rotulagem, acusa o Ministério da Agricultura de ignorar ações de fiscalização efetiva no campo. Segundo Andrea Lazzarini Salazar, advogada do Idec, o desprezo do ministério pela questão facilita a ação da indústria alimentícia e dá a ela a chance de burlar a lei sem ser incomodada.
"Sem a rastreabilidade da produção no campo, simplesmente não é possível exigir a rotulagem dos produtos só com as análises feitas sobre o produto pronto. É por isso que hoje o país produz de 40% a 60% de soja transgênica e o número de produtos rotulados é ínfimo", afirma.
Em 2008, o Idec recolheu 51 alimentos contendo proteína de soja e os encaminhou para testes fora do país. Do total, 21,5% dos produtos continham OGMs, mas não foi possível quantificar o percentual, dado o elevado processamento desses alimentos, algo que praticamente inviabiliza apurar a concentração de transgênicos.
Com base nessa constatação, o Idec acusa indústrias de carnes e aquelas nas quais o nível de processamento da proteína é elevado de se "esconderem" na impossibilidade de calcular a concentração de DNA transgênico no produto final para simplesmente não adotarem a rotulagem.
Nesse caso, o flagrante só pode ser obtido se a fiscalização fizer testes na ração servida a frangos e a suínos ou nos grãos usados no processo de alimentos industrializados, o que, segundo o Idec, não ocorre.
No caso do óleo de soja, a rotulagem só começou a ser cumprida, afirma o instituto, após ação civil do Ministério Público de São Paulo, cujo conteúdo baseou-se em denúncia do Greenpeace.
Segundo Reginaldo Minaré, advogado da ANBio (Associação Nacional de Biossegurança, organização de defesa dos transgênicos nos alimentos), o rastreamento para posterior rotulagem dos alimentos, se feito como a lei exige, inviabilizaria a tecnologia no país. De acordo com ele, a indústria considera a rotulagem exagerada e uma antipropaganda.
Milho transgênico autorizado no Brasil foi proibido na Alemanha
O milho Bt Mon 810, tecnologia de propriedade da multinacional Monsanto, teve a autorização de cultivo revogada recentemente na Alemanha. Esse foi o sexto país da União Europeia, região que já havia aprovado o uso da tecnologia, a revogar a autorização para o plantio.
Além de proibido em solo alemão, a autorização para o cultivo também foi suspensa em Luxemburgo, Hungria, Áustria, Grécia e França. O milho vetado pelo governo alemão possui o mesmo gene inserido no DNA de variedades de milho cultivado neste momento no Brasil. Em algumas regiões do Paraná, o plantio de milho com a tecnologia atingiu 40% da área plantada.
Produtor perde dois contratos por contaminação
Ademir Vicente Ferronato, 52, é produtor rural em Medianeira, cidade entre Foz do Iguaçu e Cascavel. Ferronato é também uma vítima do avanço da soja geneticamente modificada e, por causa disso, um ex-produtor orgânico.
Em audiências públicas na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados e na CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), o pequeno produtor contou como perdeu por duas vezes contratos especiais para a venda de soja convencional devido à contaminação do lote por sementes transgênicas. A última vez em que isso ocorreu foi na última safra de verão.
Agora, a nova preocupação de Ferronato é o que pode ocorrer com o milho. A pequena lavoura de sete hectares em Medianeira está exatamente ao lado de um plantio de milho transgênico. "O pólen do milho "anda" três quilômetros. O milho dele está do lado do meu", afirmou. A situação desse pequeno produtor não é a única.
A Gebana Brasil, trading suíça que compra e negocia contratos na Europa, tem recusado a produção de muitos produtores da região devido à contaminação por grãos geneticamente modificados. A contaminação ocorre por vários motivos, desde o uso de uma máquina que não tenha sido completamente limpa até a poeira produzida na colheita de um vizinho com lavoura transgênica.
Para os pequenos produtores do Paraná, esse tipo de contrato é muito importante. Sem escala de produção, esses contratos para fornecimento de soja e milho orgânicos lhes garantem remuneração maior por tonelada.
"O preço pago por uma tonelada de grãos orgânicos chega a ser entre 15% e 20% maior que o negociado em ofertas de milho ou soja convencionais", afirma Eduardo Mattioli Rizzi, gerente do Departamento Agrícola da Gebana Brasil.
(Folha de SP, 10/5)
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12 - 12. Idec cobra ação sobre descontrole de transgênico
Instituto pede ao governo fiscalização mais rígida na cadeia de produção dos alimentos, incluindo rações para animais. Regra que exige informação sobre transgênicos nas notas fiscais dos produtos nem sempre é cumprida e há descontrole na produção
Agnaldo Brito escreve para a “Folha de SP”:
O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) e o FNECDC (Fórum Nacional das Entidades Civis de Defesa do Consumidor) encaminharam no último dia 7 carta ao ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, na qual cobram medidas imediatas em relação à falta de fiscalização da produção transgênica em todas as etapas da cadeia produtiva, incluindo o setor de carnes de frango e suína.
A carta é assinada por Lisa Gunn, coordenadora executiva do Idec, e Sezifredo Paz, presidente do Fórum Nacional.
As entidades pedem o cumprimento de regra que exige a informação sobre ausência ou presença de OGMs (organismos geneticamente modificados) no alimento ou ingrediente alimentar nos documentos fiscais.
Também querem informações sobre medidas de fiscalização da produção de soja e milho e buscam saber o que foi adotado para evitar a contaminação de produções convencionais de milho, soja e algodão por transgênicos.
A depender das respostas, o conteúdo pode embasar nova representação da instituição ao Ministério Público Federal, que já está à frente de quatro ações que pedem cumprimento das regras de rotulagem.
De acordo com Andrea Lazzarini Salazar, advogada do Idec, a fiscalização efetiva do ministério é a única forma de garantir a informação sobre uso de OGMs na cadeia de processamento de alimentos sem a dependência exclusiva dos testes de detecção de DNA de organismos geneticamente modificados em alimentos altamente processados ou em carnes "in natura". Os testes feitos nesses produtos hoje não são conclusivos em relação ao não uso de OGMs.
A edição de ontem da Folha revelou que o país perdeu o controle dos transgênicos. No Paraná, maior produtor de grãos do Brasil, agricultores já anunciam que a maior parte da primeira safra de milho transgênica será misturada a grãos convencionais.
A situação preocupa a indústria. O uso de matéria-prima geneticamente modificada acima de 1% do total do produto exige das empresas a rotulagem. Na embalagem terá de constar a informação sobre o uso de grãos OGMs e a inclusão de um T em negrito dentro de um triângulo em amarelo.
Segundo o presidente da Abia (Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação), Edmundo Klotz, a indústria tem evitado de todas as maneiras o uso desse "símbolo inadequado" nos produtos. A avaliação do setor é a de que, uma vez legalizado, os transgênicos são seguros como matéria-prima para consumo humano e animal.
"Não somos contra a rotulagem, o que somos contra é a exigência de colocar um símbolo inadequado, um símbolo que inibe o consumo, que pode impactar a venda", disse.
Klotz afirma ainda que, mesmo com a redução da oferta de grãos convencionais devido ao avanço do plantio de sementes transgênicas no país, a indústria tem evitado "como pode" o uso de OGMs. Ele sustenta que o setor tem cumprido a exigência de rotulagem.
No campo, produtores independentes de suínos no Paraná admitem com tranquilidade que o uso de ração transgênica para as criações é rotineira e livre de qualquer fiscalização.
"Não somos cobrados para fazer qualquer rotulagem. Ninguém está sendo cobrado por isso, nem os consumidores", diz Luiz Carlos Berto, presidente da Associação dos Produtores Independentes de Carne Suína do Paraná.
(Folha de SP, 11/5)
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13 - 13. Pressão de ruralistas libera transgênicos
“Não há tecnologia nova livre de risco”
Claudio Angelo escreve para a “Folha de SP”:
Entre 2003 e 2004, o Brasil se viu numa posição curiosa. Suas lavouras de soja transgênica se expandiram de 3 milhões para 5 milhões de hectares, segundo o Serviço Internacional de Aquisição de Aplicações de Biotecnologia Agrícola. Tornou-se o quarto maior produtor de transgênicos do mundo.
Até então, plantar transgênicos era ilegal no país. Cedendo à pressão ruralista, o governo decidiu por MP que a soja Roundup Ready da Monsanto era segura para a saúde e para o ambiente.
Seis anos depois, não há evidência de colapso sanitário ou ambiental. Só moral, pela maneira como a soja foi liberada e pela forma como o governo manobrou para alterar o quórum da CTNBio.
Devagar, o país começa finalmente a rotular seus derivados de soja. Até mesmo o óleo, que em tese nem DNA contém. Os temores, afinal, eram fantasias ecoxiitas. Com base em raciocínio análogo, libera-se o milho transgênico. Se a soja é segura, o milho há de ser também.
É aqui que os defensores da biotecnologia cometem o mesmo erro que seus detratores: botar todos os transgênicos no mesmo balaio. A biologia não permite esse tipo de simplificação.
Em 2001, por exemplo, os pesquisadores californianos David Quist e Ignacio Chapela mostraram, em estudo na revista "Nature", que pólen de milho transgênico contaminara variedades de milho "criollo", produzidas tradicionalmente por lavradores mexicanos há milênios.
O estudo foi criticado por cientistas que recebiam financiamento de uma multinacional biotecnológica e retratado (anulado) pela revista. Em 2009, porém, uma pesquisa da Universidade Nacional Autônoma do México chegou à mesma conclusão que Quist e Chapela.
O milho é uma plantinha promíscua, em que uma mesma espiga pode conter grãos vindos de pólen de vários "pais" diferentes.
Estudos de impacto seriam necessários para avaliar as consequências disso, mas eles não foram feitos no Brasil. No extremo oposto, a França cria um rótulo especial para produtos animais alimentados sem transgênicos. Devem estar achando que o DNA da comida, como um vírus, infectará a carne. Mendel gargalharia.
Não há tecnologia nova livre de risco. A biotecnologia agrícola tem mostrado até agora que seus benefícios superam seus riscos. O diabo é que, como cada transgênico é diferente do outro, o passado não garante o futuro.
(Folha de SP, 10/5)
Fonte: JC E-mail
10 - 10. País perde controle dos transgênicos
Produtores e cooperativas não separam lavouras convencionais de milho das geneticamente modificadas, alegando falta de estrutura. Governo não fiscaliza todas as etapas do processo, e indústria alimentícia afirma que a responsabilidade de controle não é do setor
Agnaldo Brito escreve para a “Folha de SP”:
A primeira safra de milho geneticamente modificado no Brasil ampliará o descontrole do país em relação ao controverso uso desse tipo de produto na indústria de alimentos. Além de já representar uma ameaça de contaminação a produtores de variedades não transgênicas, o milho transgênico deverá contaminar milhões de toneladas do grão convencional devido à decisão dos produtores de não separar os dois tipos de cultivo.
A reportagem da Folha visitou regiões produtoras no interior do Paraná e ouviu de produtores e cooperativas que não existe estrutura suficiente para colheita, transporte e armazenagem da produção transgênica separada da convencional.
A Lei de Biossegurança não exige a separação da produção, mas é clara ao exigir a fiscalização de todos esses processos, o que não ocorre. Responsável por esse controle, o Ministério da Agricultura diz que ele é realizado, embora os produtores neguem.
Edmundo Klotz, presidente da Abia (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação), afirma que a indústria está sendo obrigada a controles de matéria-prima que não são de responsabilidade dela. A falta de controle confronta o direito dos consumidores de saber o que consomem e pode dificultar as exportações de produtos agrícolas e pecuários.
Controle é luxo desnecessário, diz governo
O Brasil começa a colher em algumas semanas a primeira safra comercial de milho transgênico autorizada pelo governo. O tamanho exato dessa produção ninguém ainda sabe, nem a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).
O certo é que uma parte importante dos 17,4 milhões de toneladas da produção prevista do milho safrinha terá a tecnologia Bt (sigla para Bacillus thuriengensis), pela qual um gene não existente na planta é inserido no DNA de algumas variedades de milho.
A missão dessa proteína é criar toxinas inseticidas que matam três tipos de lagarta quando elas ingerem qualquer parte da planta. Para os produtores, a tecnologia promete reduzir o número de aplicações de veneno nas lavouras.
Mas a grande preocupação do campo agora nem é exatamente o volume de produção de milho Bt, mas sim os riscos sobre os milhões de toneladas que não são geneticamente modificadas e que vão entrar na cadeia de produção de alimentos nas próximas semanas.
Os agricultores informam que a separação entre OGM (organismo geneticamente modificado) e não OGM será mínima. Procuradas, grandes indústrias consumidoras de grãos utilizados na produção de ração para frangos e suínos, como as gigantes Sadia e Perdigão, prometem manter políticas de aquisição de não OGMs. Como o farão não informaram.
A reportagem da Folha percorreu uma das maiores regiões de produção de grãos do país, o oeste do Paraná, e flagrou o plantio fora das regras impostas pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, maior autoridade em biossegurança do país) para o cultivo do milho transgênico. Mais: uma boa parte da nova safra desse OGM será colhida, transportada, armazenada e provavelmente processada sem nenhuma separação.
O assunto traz também uma enorme ameaça para boa parte da indústria de alimentos, cujo esforço tem sido o de tentar de todas as formas se enquadrar nos limites de até 1% de OGM na composição de seus produtos e evitar a rotulagem com o selo indicador de existência de transgênico.
O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) acredita que o milho vai agravar um problema que já ocorre com a soja. O governo admite: "[A rotulagem] está sendo cumprida, [mas] não na abrangência que a lei requer", afirma Jairon do Nascimento, secretário-executivo da CTNBio, autoridade responsável por liberar 11 tecnologias transgênicas no país.
A propósito, a CTNBio considera a rotulagem "um luxo desnecessário". A alegação é que o consumidor deve confiar na segurança dos OGMs autorizados pela comissão.
Tudo misturado
A exemplo do que ocorreu com a soja transgênica, hoje quase que totalmente misturada às variedades convencionais, o milho, segundo os produtores, terá o mesmo destino.
O problema começa já na lavoura, com o risco real de contaminação de plantações convencionais ou orgânicas por plantas transgênicas. A possibilidade de uma planta polinizar outra cria dúvidas sobre as garantias reais de que a lavoura convencional não receberá pólen transgênico.
A Seab (Secretaria Estadual de Agricultura e do Abastecimento do Paraná), Estado que mais tem combatido o avanço dos transgênicos no país, confere a eficácia das regras fixadas pela CTNBio que determinam espaços e tempos de plantios não coincidentes com o objetivo de não misturar milhos.
A reportagem da Folha acompanhou fiscais da secretaria num teste em plantação no município de Goioerê e constatou, em análise preliminar, traços de transgênicos em lavoura de milho convencional.
Segundo o engenheiro agrônomo Marcelo Silva, fiscal do Departamento de Fiscalização e da Defesa Agropecuária da Seab, há fortes indícios de que o afastamento exigido hoje não é suficiente para assegurar a coexistência com a tecnologia transgênica sem que ela contamine plantios convencionais ou orgânicos por polinização.
O assunto é polêmico, envolve risco de perda de contratos (o que já ocorreu com produtores de soja) e até o direito de produtores que não queiram adotar a tecnologia de companhias multinacionais de biotecnologia, como Monsanto, Syngenta, Bayer e outras.
O trabalho da Secretaria de Agricultura do Paraná pode culminar num enorme revés para a CTNBio, que admite que, se houver fatos novos no estudo de transgênicos, pode reavaliar as suas decisões.
Para ministério, regra não evita contaminação
O Nead (Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural), ligado ao gabinete do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário), acaba de finalizar um relatório em que pede à CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) a revisão imediata das regras de plantio de variedades transgênicas de milho autorizadas em todo o país.
O relatório é categórico em afirmar que, pelas regras atuais de espaçamento, é impossível evitar a contaminação de lavouras de milho convencionais e orgânicas por material genético de plantas modificadas.
Pela resolução em vigor, lavouras transgênicas de milho, quando vizinhas de plantios convencionais ou orgânicos, devem respeitar a distância de 100 metros, ou, de forma "alternativa", 20 metros com uma bordadura de milho não OGM.
A CTNBio, com base em pesquisas, afirma que a bruma de pólen de uma planta não viaja mais do que dez metros -portanto não irá contaminar plantios de milho convencional.
No campo, a avaliação da comissão é vista com muita desconfiança, uma das razões que levam neste momento grandes cooperativas, como a Comigo (a maior do Centro-Oeste), ou a Copacol, no Paraná, a não se dar ao trabalho de fazer nenhuma separação entre transgênicos e não transgênicos.
Contestação
A CTNBio refuta o relatório desenvolvido pelo núcleo de estudos do MDA e reconhece que o assunto divide os membros do governo Lula. "O governo é ambíguo acerca do uso da tecnologia da transgenia no Brasil. Os ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e da Ciência e Tecnologia apoiam os eventos transgênicos e refutam o relatório do MDA. Do ponto de vista científico, [o relatório] não se sustenta", diz Jairon do Nascimento, secretário-executivo da comissão.
Gilles Ferment, pesquisador do Nead/MDA, critica o método de gestão de risco dos transgênicos na CTNBio.
Produtores descartam separação
A Comigo, maior cooperativa do Centro-Oeste, diz que não irá separar milho transgênico do convencional por causa do custo. A Copavel (PR) fará a separação do milho OGM nas granjas de frangos e suínos por enquanto. Mas admite usar farelo de soja transgênica na ração animal.
(Folha de SP, 10/5)
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11 - 11. Teste não garante alimento 100% livre de transgênico
Exame usado no Brasil não detecta DNA modificado em produto industrializado que usa matéria-prima transgênica. Rotulagem correta de alimentos com o selo de "transgênico" depende de fiscalização na produção, processo caro e raro no país
Os testes feitos para a detecção de DNA transgênico em alimentos processados não é capaz de garantir que todos os produtos examinados sejam verdadeiramente livres de OGM (organismos geneticamente modificados).
A informação é do laboratório AgroGenética, contratado pelo Ministério da Justiça para produzir 280 análises por ano em alimentos coletados pelos Procons em todo o país. A empresa também é encarregada de fazer análises de sementes, grãos e partes de plantas para o Ministério da Agricultura.
Adotada pelo laboratório, a técnica de PCR (reação em cadeia da polimerase, análise capaz de detectar DNA de organismos transgênicos presentes em amostras) não é capaz de encontrar genes de OGM em alimentos altamente processados ou em carnes "in natura".
Nos dois casos, a ausência de DNA transgênico não significa que o processo industrial de produção desses alimentos não tenha usado OGM.
Pela lei brasileira de rotulagem, o resultado "ausência" de DNA transgênico na amostra não é atestado definitivo para a não rotulagem do produto. É necessário saber se no processo industrial foram usados grãos OGM para a produção do alimento. Para o diretor do DPDC (Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor), do Ministério da Justiça, Ricardo Morichita Wada, responsável pelo cumprimento das regras de rotulagem no Brasil, a fiscalização não tem encontrado transgenia em suas análises.
Ele também diz, entretanto, que o monitoramento não deve ser feito exclusivamente nos produtos finais, mas também ao longo da cadeia, algo que está sob a responsabilidade do Ministério da Agricultura.
Fiscalização no campo
A reportagem da Folha tentou falar com o coordenador de Biossegurança de OGM do Ministério da Agricultura, Marcus Vinícius Segurado Coelho, ao longo da semana. O coordenador alegou problemas de agenda, mas respondeu por e-mail a questões relativas ao trabalho de fiscalização do governo.
Coelho negou que a fiscalização não esteja sendo feita, mas admite que pode haver problemas. "Com relação às regras de produção, é possível que ocorram casos de descumprimento num primeiro momento em face da novidade das regras. Isso ocorre em qualquer atividade regulamentada e não seria diferente para o presente caso. Nesse momento é que é importante a fiscalização", disse.
O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), instituição que tem cobrado o cumprimento da rotulagem, acusa o Ministério da Agricultura de ignorar ações de fiscalização efetiva no campo. Segundo Andrea Lazzarini Salazar, advogada do Idec, o desprezo do ministério pela questão facilita a ação da indústria alimentícia e dá a ela a chance de burlar a lei sem ser incomodada.
"Sem a rastreabilidade da produção no campo, simplesmente não é possível exigir a rotulagem dos produtos só com as análises feitas sobre o produto pronto. É por isso que hoje o país produz de 40% a 60% de soja transgênica e o número de produtos rotulados é ínfimo", afirma.
Em 2008, o Idec recolheu 51 alimentos contendo proteína de soja e os encaminhou para testes fora do país. Do total, 21,5% dos produtos continham OGMs, mas não foi possível quantificar o percentual, dado o elevado processamento desses alimentos, algo que praticamente inviabiliza apurar a concentração de transgênicos.
Com base nessa constatação, o Idec acusa indústrias de carnes e aquelas nas quais o nível de processamento da proteína é elevado de se "esconderem" na impossibilidade de calcular a concentração de DNA transgênico no produto final para simplesmente não adotarem a rotulagem.
Nesse caso, o flagrante só pode ser obtido se a fiscalização fizer testes na ração servida a frangos e a suínos ou nos grãos usados no processo de alimentos industrializados, o que, segundo o Idec, não ocorre.
No caso do óleo de soja, a rotulagem só começou a ser cumprida, afirma o instituto, após ação civil do Ministério Público de São Paulo, cujo conteúdo baseou-se em denúncia do Greenpeace.
Segundo Reginaldo Minaré, advogado da ANBio (Associação Nacional de Biossegurança, organização de defesa dos transgênicos nos alimentos), o rastreamento para posterior rotulagem dos alimentos, se feito como a lei exige, inviabilizaria a tecnologia no país. De acordo com ele, a indústria considera a rotulagem exagerada e uma antipropaganda.
Milho transgênico autorizado no Brasil foi proibido na Alemanha
O milho Bt Mon 810, tecnologia de propriedade da multinacional Monsanto, teve a autorização de cultivo revogada recentemente na Alemanha. Esse foi o sexto país da União Europeia, região que já havia aprovado o uso da tecnologia, a revogar a autorização para o plantio.
Além de proibido em solo alemão, a autorização para o cultivo também foi suspensa em Luxemburgo, Hungria, Áustria, Grécia e França. O milho vetado pelo governo alemão possui o mesmo gene inserido no DNA de variedades de milho cultivado neste momento no Brasil. Em algumas regiões do Paraná, o plantio de milho com a tecnologia atingiu 40% da área plantada.
Produtor perde dois contratos por contaminação
Ademir Vicente Ferronato, 52, é produtor rural em Medianeira, cidade entre Foz do Iguaçu e Cascavel. Ferronato é também uma vítima do avanço da soja geneticamente modificada e, por causa disso, um ex-produtor orgânico.
Em audiências públicas na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados e na CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), o pequeno produtor contou como perdeu por duas vezes contratos especiais para a venda de soja convencional devido à contaminação do lote por sementes transgênicas. A última vez em que isso ocorreu foi na última safra de verão.
Agora, a nova preocupação de Ferronato é o que pode ocorrer com o milho. A pequena lavoura de sete hectares em Medianeira está exatamente ao lado de um plantio de milho transgênico. "O pólen do milho "anda" três quilômetros. O milho dele está do lado do meu", afirmou. A situação desse pequeno produtor não é a única.
A Gebana Brasil, trading suíça que compra e negocia contratos na Europa, tem recusado a produção de muitos produtores da região devido à contaminação por grãos geneticamente modificados. A contaminação ocorre por vários motivos, desde o uso de uma máquina que não tenha sido completamente limpa até a poeira produzida na colheita de um vizinho com lavoura transgênica.
Para os pequenos produtores do Paraná, esse tipo de contrato é muito importante. Sem escala de produção, esses contratos para fornecimento de soja e milho orgânicos lhes garantem remuneração maior por tonelada.
"O preço pago por uma tonelada de grãos orgânicos chega a ser entre 15% e 20% maior que o negociado em ofertas de milho ou soja convencionais", afirma Eduardo Mattioli Rizzi, gerente do Departamento Agrícola da Gebana Brasil.
(Folha de SP, 10/5)
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12 - 12. Idec cobra ação sobre descontrole de transgênico
Instituto pede ao governo fiscalização mais rígida na cadeia de produção dos alimentos, incluindo rações para animais. Regra que exige informação sobre transgênicos nas notas fiscais dos produtos nem sempre é cumprida e há descontrole na produção
Agnaldo Brito escreve para a “Folha de SP”:
O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) e o FNECDC (Fórum Nacional das Entidades Civis de Defesa do Consumidor) encaminharam no último dia 7 carta ao ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, na qual cobram medidas imediatas em relação à falta de fiscalização da produção transgênica em todas as etapas da cadeia produtiva, incluindo o setor de carnes de frango e suína.
A carta é assinada por Lisa Gunn, coordenadora executiva do Idec, e Sezifredo Paz, presidente do Fórum Nacional.
As entidades pedem o cumprimento de regra que exige a informação sobre ausência ou presença de OGMs (organismos geneticamente modificados) no alimento ou ingrediente alimentar nos documentos fiscais.
Também querem informações sobre medidas de fiscalização da produção de soja e milho e buscam saber o que foi adotado para evitar a contaminação de produções convencionais de milho, soja e algodão por transgênicos.
A depender das respostas, o conteúdo pode embasar nova representação da instituição ao Ministério Público Federal, que já está à frente de quatro ações que pedem cumprimento das regras de rotulagem.
De acordo com Andrea Lazzarini Salazar, advogada do Idec, a fiscalização efetiva do ministério é a única forma de garantir a informação sobre uso de OGMs na cadeia de processamento de alimentos sem a dependência exclusiva dos testes de detecção de DNA de organismos geneticamente modificados em alimentos altamente processados ou em carnes "in natura". Os testes feitos nesses produtos hoje não são conclusivos em relação ao não uso de OGMs.
A edição de ontem da Folha revelou que o país perdeu o controle dos transgênicos. No Paraná, maior produtor de grãos do Brasil, agricultores já anunciam que a maior parte da primeira safra de milho transgênica será misturada a grãos convencionais.
A situação preocupa a indústria. O uso de matéria-prima geneticamente modificada acima de 1% do total do produto exige das empresas a rotulagem. Na embalagem terá de constar a informação sobre o uso de grãos OGMs e a inclusão de um T em negrito dentro de um triângulo em amarelo.
Segundo o presidente da Abia (Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação), Edmundo Klotz, a indústria tem evitado de todas as maneiras o uso desse "símbolo inadequado" nos produtos. A avaliação do setor é a de que, uma vez legalizado, os transgênicos são seguros como matéria-prima para consumo humano e animal.
"Não somos contra a rotulagem, o que somos contra é a exigência de colocar um símbolo inadequado, um símbolo que inibe o consumo, que pode impactar a venda", disse.
Klotz afirma ainda que, mesmo com a redução da oferta de grãos convencionais devido ao avanço do plantio de sementes transgênicas no país, a indústria tem evitado "como pode" o uso de OGMs. Ele sustenta que o setor tem cumprido a exigência de rotulagem.
No campo, produtores independentes de suínos no Paraná admitem com tranquilidade que o uso de ração transgênica para as criações é rotineira e livre de qualquer fiscalização.
"Não somos cobrados para fazer qualquer rotulagem. Ninguém está sendo cobrado por isso, nem os consumidores", diz Luiz Carlos Berto, presidente da Associação dos Produtores Independentes de Carne Suína do Paraná.
(Folha de SP, 11/5)
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13 - 13. Pressão de ruralistas libera transgênicos
“Não há tecnologia nova livre de risco”
Claudio Angelo escreve para a “Folha de SP”:
Entre 2003 e 2004, o Brasil se viu numa posição curiosa. Suas lavouras de soja transgênica se expandiram de 3 milhões para 5 milhões de hectares, segundo o Serviço Internacional de Aquisição de Aplicações de Biotecnologia Agrícola. Tornou-se o quarto maior produtor de transgênicos do mundo.
Até então, plantar transgênicos era ilegal no país. Cedendo à pressão ruralista, o governo decidiu por MP que a soja Roundup Ready da Monsanto era segura para a saúde e para o ambiente.
Seis anos depois, não há evidência de colapso sanitário ou ambiental. Só moral, pela maneira como a soja foi liberada e pela forma como o governo manobrou para alterar o quórum da CTNBio.
Devagar, o país começa finalmente a rotular seus derivados de soja. Até mesmo o óleo, que em tese nem DNA contém. Os temores, afinal, eram fantasias ecoxiitas. Com base em raciocínio análogo, libera-se o milho transgênico. Se a soja é segura, o milho há de ser também.
É aqui que os defensores da biotecnologia cometem o mesmo erro que seus detratores: botar todos os transgênicos no mesmo balaio. A biologia não permite esse tipo de simplificação.
Em 2001, por exemplo, os pesquisadores californianos David Quist e Ignacio Chapela mostraram, em estudo na revista "Nature", que pólen de milho transgênico contaminara variedades de milho "criollo", produzidas tradicionalmente por lavradores mexicanos há milênios.
O estudo foi criticado por cientistas que recebiam financiamento de uma multinacional biotecnológica e retratado (anulado) pela revista. Em 2009, porém, uma pesquisa da Universidade Nacional Autônoma do México chegou à mesma conclusão que Quist e Chapela.
O milho é uma plantinha promíscua, em que uma mesma espiga pode conter grãos vindos de pólen de vários "pais" diferentes.
Estudos de impacto seriam necessários para avaliar as consequências disso, mas eles não foram feitos no Brasil. No extremo oposto, a França cria um rótulo especial para produtos animais alimentados sem transgênicos. Devem estar achando que o DNA da comida, como um vírus, infectará a carne. Mendel gargalharia.
Não há tecnologia nova livre de risco. A biotecnologia agrícola tem mostrado até agora que seus benefícios superam seus riscos. O diabo é que, como cada transgênico é diferente do outro, o passado não garante o futuro.
(Folha de SP, 10/5)
Fonte: JC E-mail
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Indústrias do Paraná farão levantamento de emissão de gases do efeito estufa.
O Conselho Temático de Meio Ambiente e Recursos Naturais da Fiep coordenará o levantamento que será repassado ao Fórum Estadual de Mudanças Climáticas
As indústrias do Paraná saberão, dentro de um ano, a quantidade de gases causadores de efeito estufa (GEE) lançados na atmosfera durante seus processos. Essa é a meta do setor industrial para contribuir com o inventário estadual de emissões de gases de efeito estufa, organizado pelo Fórum Paranaense de Mudanças Climáticas, que levantará as emissões de gases de todos os setores.
O compromisso foi assumido pelo Conselho Temático de Meio Ambiente e Recursos Naturais da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) e empresários de diversos setores nesta terça-feira (28), em Curitiba, durante o workshop “Inventário de Emissões de GEE”, promovido pelo Conselho.
“Esse é um passo importante que os industriais do Paraná dão para colaborar com o meio ambiente. Temos que continuar produzindo. A indústria não pode parar. Mas temos que produzir de forma sustentável e ambientalmente correta”, afirmou Roberto Gava, coordenador do Conselho de Meio Ambiente da Fiep.
A Fiep coordenará o inventário no setor industrial. As informações serão repassadas ao Fórum Estadual de Mudanças Climáticas, do qual o Conselho da Fiep faz parte. “Com o inventário, a empresa irá conhecer melhor seus impactos e com isto melhor desenhar uma estratégia de redução e compensação. Outros ganhos ambientais também podem ocorrer, tais como redução do consumo de matérias-primas e eficientização energética, entre outros”, explicou Gava. Os dados paranaenses serão levados ao Fórum Nacional, responsável por criar políticas públicas para diminuir as emissões.
Segundo a coordenadora do Fórum Estadual de Mudanças Climáticas, Manyu Chang, as discussões acerca do inventário estadual começaram em 2007. “Contamos com a colaboração dos responsáveis pelas fontes das emissões para traçar o perfil das emissões no Paraná. Temos que buscar os fatores na fonte certa, uma vez que as políticas do Estado vão se basear nos dados do inventário”, afirmou Manyu, lembrando que os GEE são provenientes de quatro fontes: energia, processos industriais, tratamento de resíduos e agropecuária.
O Paraná será o terceiro estado a realizar o inventário estadual. O primeiro foi o Rio de Janeiro, em 2007, seguido de Minas Gerais, em 2008. “Seguimos a metodologia do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), mas com algumas adaptações à realidade brasileira. Tivemos dificuldades, mas os resultados foram satisfatórios. Agora temos, por exemplo, referências setoriais, ou seja, sabemos a quantidade de emissões e quais gases são liberados pelos três grandes grupos de processos industriais: indústria mineral, química e metalúrgica”, disse Luiz Gonzaga Rezende, analista de ciência e tecnologia da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), de Minas Gerais. Rezende foi um dos responsáveis pela realização do inventário de gases em Minas Gerais.
Experiências – Durante o workshop, empresas mostraram quais dificuldades em realizar o inventário e os resultados obtidos. Uma delas foi a Petrobras, que desde 2002, elabora um relatório com dados sobre as emissões atmosféricas da empresa. Além dos gases do efeito estufa (dióxido de carbono, metano e óxido nitroso), também são levantadas as emissões de poluentes locais, como monóxido de carbono, óxidos de enxofre, nitrogênio, compostos orgânicos voláteis e material particulado, além dos gases queimados e consumo de combustível.
A empresa, segundo Rodrigo Chaves, coordenador do setor de Emissões Atmosféricas e Mudanças Climáticas da Petrobras, desenvolveu um sistema com módulo de simulação e dados reais, que consolida emissões desde o nível de fonte emissora em cada instalação e permite agregar dados em diversos níveis organizacionais, passando por unidades e áreas de negócio até a companhia como um todo.
“Com as informações, pudemos gerenciar as emissões e atender à legislação, avaliar o desempenho ambiental da empresa e contribuir para a ecoeficiência dos processos, utilizando matérias-primas menos poluentes, além de verificar novas oportunidades no mercado de carbono”, disse.
De acordo com Patrícia Monteiro, da Votorantin, a produção de cimento é a principal fonte de emissão de gás carbônico. “A média mundial é a emissão de 900kg de CO2 por tonelada de cimento produzido; na Votorantin, a média é de 600kg/ton. Nossa meta é chegar a 400kg por tonelada produzida”, disse.
Para alcançar esses índices, a empresa investe em estratégias de redução de poluentes, substituindo parte dos recursos naturais por combustíveis alternativos. “Na região sul, utilizamos cinzas provenientes de termoelétricas, biomassa proveniente da casca do arroz e combustíveis alternativos, como pneus”, explicou Patrícia.
Fonte: Bemparaná
As indústrias do Paraná saberão, dentro de um ano, a quantidade de gases causadores de efeito estufa (GEE) lançados na atmosfera durante seus processos. Essa é a meta do setor industrial para contribuir com o inventário estadual de emissões de gases de efeito estufa, organizado pelo Fórum Paranaense de Mudanças Climáticas, que levantará as emissões de gases de todos os setores.
O compromisso foi assumido pelo Conselho Temático de Meio Ambiente e Recursos Naturais da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) e empresários de diversos setores nesta terça-feira (28), em Curitiba, durante o workshop “Inventário de Emissões de GEE”, promovido pelo Conselho.
“Esse é um passo importante que os industriais do Paraná dão para colaborar com o meio ambiente. Temos que continuar produzindo. A indústria não pode parar. Mas temos que produzir de forma sustentável e ambientalmente correta”, afirmou Roberto Gava, coordenador do Conselho de Meio Ambiente da Fiep.
A Fiep coordenará o inventário no setor industrial. As informações serão repassadas ao Fórum Estadual de Mudanças Climáticas, do qual o Conselho da Fiep faz parte. “Com o inventário, a empresa irá conhecer melhor seus impactos e com isto melhor desenhar uma estratégia de redução e compensação. Outros ganhos ambientais também podem ocorrer, tais como redução do consumo de matérias-primas e eficientização energética, entre outros”, explicou Gava. Os dados paranaenses serão levados ao Fórum Nacional, responsável por criar políticas públicas para diminuir as emissões.
Segundo a coordenadora do Fórum Estadual de Mudanças Climáticas, Manyu Chang, as discussões acerca do inventário estadual começaram em 2007. “Contamos com a colaboração dos responsáveis pelas fontes das emissões para traçar o perfil das emissões no Paraná. Temos que buscar os fatores na fonte certa, uma vez que as políticas do Estado vão se basear nos dados do inventário”, afirmou Manyu, lembrando que os GEE são provenientes de quatro fontes: energia, processos industriais, tratamento de resíduos e agropecuária.
O Paraná será o terceiro estado a realizar o inventário estadual. O primeiro foi o Rio de Janeiro, em 2007, seguido de Minas Gerais, em 2008. “Seguimos a metodologia do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), mas com algumas adaptações à realidade brasileira. Tivemos dificuldades, mas os resultados foram satisfatórios. Agora temos, por exemplo, referências setoriais, ou seja, sabemos a quantidade de emissões e quais gases são liberados pelos três grandes grupos de processos industriais: indústria mineral, química e metalúrgica”, disse Luiz Gonzaga Rezende, analista de ciência e tecnologia da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), de Minas Gerais. Rezende foi um dos responsáveis pela realização do inventário de gases em Minas Gerais.
Experiências – Durante o workshop, empresas mostraram quais dificuldades em realizar o inventário e os resultados obtidos. Uma delas foi a Petrobras, que desde 2002, elabora um relatório com dados sobre as emissões atmosféricas da empresa. Além dos gases do efeito estufa (dióxido de carbono, metano e óxido nitroso), também são levantadas as emissões de poluentes locais, como monóxido de carbono, óxidos de enxofre, nitrogênio, compostos orgânicos voláteis e material particulado, além dos gases queimados e consumo de combustível.
A empresa, segundo Rodrigo Chaves, coordenador do setor de Emissões Atmosféricas e Mudanças Climáticas da Petrobras, desenvolveu um sistema com módulo de simulação e dados reais, que consolida emissões desde o nível de fonte emissora em cada instalação e permite agregar dados em diversos níveis organizacionais, passando por unidades e áreas de negócio até a companhia como um todo.
“Com as informações, pudemos gerenciar as emissões e atender à legislação, avaliar o desempenho ambiental da empresa e contribuir para a ecoeficiência dos processos, utilizando matérias-primas menos poluentes, além de verificar novas oportunidades no mercado de carbono”, disse.
De acordo com Patrícia Monteiro, da Votorantin, a produção de cimento é a principal fonte de emissão de gás carbônico. “A média mundial é a emissão de 900kg de CO2 por tonelada de cimento produzido; na Votorantin, a média é de 600kg/ton. Nossa meta é chegar a 400kg por tonelada produzida”, disse.
Para alcançar esses índices, a empresa investe em estratégias de redução de poluentes, substituindo parte dos recursos naturais por combustíveis alternativos. “Na região sul, utilizamos cinzas provenientes de termoelétricas, biomassa proveniente da casca do arroz e combustíveis alternativos, como pneus”, explicou Patrícia.
Fonte: Bemparaná
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quinta-feira, 23 de abril de 2009
Todos os biomas do Brasil serão monitorados do espaço
A partir de agora, o monitoramento por satélite será feito em todos os biomas brasileiros e não só na Amazônia. O anúncio foi feito pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, no laboratório do Ibama, que faz as análises das imagens dos satélites utilizados.
Segundo o ministro, nos primeiros exames das imagens, em apenas seis anos o cerrado perdeu perto de 10% de sua formação original, o que é considerado preocupante, visto que a Amazônia perdeu 20% de sua formação em 40 anos.
Ou seja, o cerrado perdeu 1,5% ao ano, nos últimos seis anos, enquanto a Amazônia perdeu 0,5% ao ano.
Também serão monitorados por satélite a caatinga, a Mata Atlântica, o Pantanal e os Pampas.
"O Brasil não é só Amazônia. O Brasil, agora, é monitorado o ano inteiro", afirmou o ministro.
Fonte: REMADE
Segundo o ministro, nos primeiros exames das imagens, em apenas seis anos o cerrado perdeu perto de 10% de sua formação original, o que é considerado preocupante, visto que a Amazônia perdeu 20% de sua formação em 40 anos.
Ou seja, o cerrado perdeu 1,5% ao ano, nos últimos seis anos, enquanto a Amazônia perdeu 0,5% ao ano.
Também serão monitorados por satélite a caatinga, a Mata Atlântica, o Pantanal e os Pampas.
"O Brasil não é só Amazônia. O Brasil, agora, é monitorado o ano inteiro", afirmou o ministro.
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quarta-feira, 22 de abril de 2009
Os mitos do eucalipto
A edição da Gazeta do Povo do dia 1º do corrente divulgou opiniões e apreensões de prefeitos e outras pessoas sobre o cultivo de eucaliptos em municípios do Norte do Paraná, cuja expansão da cultura significaria prejuízos pela degradação do solo, como a cultura de cereais, por estar “invadindo áreas antes cultivadas com soja, milho e cana-de-açúcar” e que “para conter o avanço do eucalipto os prefeitos da região, conforme o prefeito de Ibaiti, estudam a possibilidade de promover um zoneamento agrícola e criar uma barreira para impedir que a espécie tome o lugar de outras culturas”. O que certamente seria um Plano Diretor para ordenar o desenvolvimento rural é, em tese, louvável, mas de difícil realização, uma vez que as regras para utilização da propriedade rural já estão estabelecidas pela Constituição e leis decorrentes. Quanto à opção do agricultor de cultivar o que mais lhe convém é o direito da livre iniciativa garantida pela Constituição de 1988.
Os argumentos contrários ao cultivo florestal ali alinhados, em síntese, são os seguintes: comprometem a qualidade do solo; secam os mananciais; prejudicam as culturas que geram mais renda; empobrecem o solo; afetam a fauna e a flora; são variedades exóticas; essas árvores produzem substâncias tóxicas e eliminam plantas ao seu redor; e destroem nascentes.
Contudo, não houve imposição dos cultivos florestais, o que faz crescer sua demanda são as vantagens para todos. Seriam argumentos incontestáveis se estivessem fundamentados em estudos e pesquisas científicas. Estas, entretanto, existem e confirmam o contrário. Vejamos o que dizem pesquisas de órgãos competentes e insuspeitos:
a) O consumo de água da cultura do eucalipto é menor que na maioria das espécies cultivadas pelos nossos agricultores, como soja, café e trigo, também exóticas.
b) Quanto ao potencial da espécies em “secar mananciais” respondem a Universidade Federal de Viçosa, a UFPR, a Unicamp e o Instituto de Pesquisas Florestais, em artigo publicado na Revista Veja em abril de 2008, em matéria sobre a cultura do eucalipto, contestando alguns mitos, entre eles o que diz respeito ao consumo de água pela espécie. Para a produção de um quilo de madeira de eucalipto são consumidos 350 litros de água. Já um quilo de grãos de soja exige 2.000 litros de água.
Comparações entre espécies de eucaliptos com outras essências florestais mostram que plantios de eucalipto no Brasil consomem a mesma quantidade de água que as florestas nativas. Estudos comprovam que a água disponível para o eucalipto é proveniente, sobretudo, da camada superficial do solo. Normalmente suas raízes não ultrapassam 2,5 metros de profundidade e não conseguem chegar aos lençóis freáticos.
c) Quanto a prejudicar culturas que geram mais renda devemos lembrar que as pequenas e médias propriedades rurais, com ênfase às primeiras, sobrevivem não de uma única cultura, mas sim do conjunto delas, o que é chamado “sistema de produção”. Nestas propriedades a cultura do eucalipto faz parte deste sistema, coexistindo com a pecuária e agricultura tradicional e contribuindo na renda do conjunto de atividades. Trabalhos desenvolvidos conjuntamente entre Embrapa-Florestas, Emater e Seab demonstram que a atividade, quando inserida nos sistemas de produção, apresenta rentabilidade superior, sendo, contudo, um investimento de médio e longo prazos.
d) Sobre o empobrecimento do solo, pesquisas independentes já mostraram, também, os efeitos benéficos do eucalipto sobre diversas propriedades do solo, como estrutura, capacidade de armazenamento de água, drenagem e aeração, entre outras. Vale a pena frisar que quase tudo que o eucalipto retira do solo, ele devolve. Após a colheita, cascas, folhas e galhos, que possuem 70% dos nutrientes das árvores, permanecem no local e incorporam-se ao solo como matéria orgânica.
e) O argumento de que a fauna e a flora são afetados negativamente também merece atenção, pois quando os plantios são realizados de forma orientada e em respeito a Legislação Ambiental vigente, são entremeados com áreas cobertas com vegetação nativa, formando corredores que favorecem a preservação da fauna e da flora, oferecendo condições de abrigo, alimentação reprodução para várias espécies. Com a adoção de modernas técnicas de planejamento de uso do solo, fica garantida a biodiversidade dos sistemas aquáticos e terrestres. Também não se observa, em áreas de plantio do eucalipto, qualquer efeito de produção de substâncias tóxicas que impeçam o crescimento de outras espécies, prova disto são áreas implantadas no estado onde se realiza, com sucesso, o consórcio da árvore com pastagens (sistemas silvipastoris) e com a agricultura tradicional (sistemas silviagrícolas).
É preciso que tenhamos consciência da frágil realidade florestal do Paraná, que com uma conjuntura composta por mais de 1.200 indústrias e 350 mil trabalhadores, desponta como segundo produto da pauta de exportações do estado. Mas, não por largo horizonte, estamos na iminência de um “apagão” no setor caso não cuidemos imediatamente de suprir o déficit entre disponibilidade florestal e consumo. Diante do que precisamos cultivar no mínimo 57 mil hectares, a mais do que vem sendo realizado, para estabelecermos o equilíbrio a partir de 2021.
Daí a importância de levarmos aos paranaenses os meios para que em conjunto possamos alcançar essa meta. As opiniões precisam vir a público para que dúvidas se esclareçam e, pelo diálogo sereno e honesto, não só asseguremos o funcionamento do sistema como ainda possamos ampliá-lo, criando novas oportunidades de desenvolvimento sustentável no campo e nas cidades.
Nivaldo Passos Kruger é secretário especial de Desenvolvimento Florestal.
Fonte: Gazeta do Povo
Os argumentos contrários ao cultivo florestal ali alinhados, em síntese, são os seguintes: comprometem a qualidade do solo; secam os mananciais; prejudicam as culturas que geram mais renda; empobrecem o solo; afetam a fauna e a flora; são variedades exóticas; essas árvores produzem substâncias tóxicas e eliminam plantas ao seu redor; e destroem nascentes.
Contudo, não houve imposição dos cultivos florestais, o que faz crescer sua demanda são as vantagens para todos. Seriam argumentos incontestáveis se estivessem fundamentados em estudos e pesquisas científicas. Estas, entretanto, existem e confirmam o contrário. Vejamos o que dizem pesquisas de órgãos competentes e insuspeitos:
a) O consumo de água da cultura do eucalipto é menor que na maioria das espécies cultivadas pelos nossos agricultores, como soja, café e trigo, também exóticas.
b) Quanto ao potencial da espécies em “secar mananciais” respondem a Universidade Federal de Viçosa, a UFPR, a Unicamp e o Instituto de Pesquisas Florestais, em artigo publicado na Revista Veja em abril de 2008, em matéria sobre a cultura do eucalipto, contestando alguns mitos, entre eles o que diz respeito ao consumo de água pela espécie. Para a produção de um quilo de madeira de eucalipto são consumidos 350 litros de água. Já um quilo de grãos de soja exige 2.000 litros de água.
Comparações entre espécies de eucaliptos com outras essências florestais mostram que plantios de eucalipto no Brasil consomem a mesma quantidade de água que as florestas nativas. Estudos comprovam que a água disponível para o eucalipto é proveniente, sobretudo, da camada superficial do solo. Normalmente suas raízes não ultrapassam 2,5 metros de profundidade e não conseguem chegar aos lençóis freáticos.
c) Quanto a prejudicar culturas que geram mais renda devemos lembrar que as pequenas e médias propriedades rurais, com ênfase às primeiras, sobrevivem não de uma única cultura, mas sim do conjunto delas, o que é chamado “sistema de produção”. Nestas propriedades a cultura do eucalipto faz parte deste sistema, coexistindo com a pecuária e agricultura tradicional e contribuindo na renda do conjunto de atividades. Trabalhos desenvolvidos conjuntamente entre Embrapa-Florestas, Emater e Seab demonstram que a atividade, quando inserida nos sistemas de produção, apresenta rentabilidade superior, sendo, contudo, um investimento de médio e longo prazos.
d) Sobre o empobrecimento do solo, pesquisas independentes já mostraram, também, os efeitos benéficos do eucalipto sobre diversas propriedades do solo, como estrutura, capacidade de armazenamento de água, drenagem e aeração, entre outras. Vale a pena frisar que quase tudo que o eucalipto retira do solo, ele devolve. Após a colheita, cascas, folhas e galhos, que possuem 70% dos nutrientes das árvores, permanecem no local e incorporam-se ao solo como matéria orgânica.
e) O argumento de que a fauna e a flora são afetados negativamente também merece atenção, pois quando os plantios são realizados de forma orientada e em respeito a Legislação Ambiental vigente, são entremeados com áreas cobertas com vegetação nativa, formando corredores que favorecem a preservação da fauna e da flora, oferecendo condições de abrigo, alimentação reprodução para várias espécies. Com a adoção de modernas técnicas de planejamento de uso do solo, fica garantida a biodiversidade dos sistemas aquáticos e terrestres. Também não se observa, em áreas de plantio do eucalipto, qualquer efeito de produção de substâncias tóxicas que impeçam o crescimento de outras espécies, prova disto são áreas implantadas no estado onde se realiza, com sucesso, o consórcio da árvore com pastagens (sistemas silvipastoris) e com a agricultura tradicional (sistemas silviagrícolas).
É preciso que tenhamos consciência da frágil realidade florestal do Paraná, que com uma conjuntura composta por mais de 1.200 indústrias e 350 mil trabalhadores, desponta como segundo produto da pauta de exportações do estado. Mas, não por largo horizonte, estamos na iminência de um “apagão” no setor caso não cuidemos imediatamente de suprir o déficit entre disponibilidade florestal e consumo. Diante do que precisamos cultivar no mínimo 57 mil hectares, a mais do que vem sendo realizado, para estabelecermos o equilíbrio a partir de 2021.
Daí a importância de levarmos aos paranaenses os meios para que em conjunto possamos alcançar essa meta. As opiniões precisam vir a público para que dúvidas se esclareçam e, pelo diálogo sereno e honesto, não só asseguremos o funcionamento do sistema como ainda possamos ampliá-lo, criando novas oportunidades de desenvolvimento sustentável no campo e nas cidades.
Nivaldo Passos Kruger é secretário especial de Desenvolvimento Florestal.
Fonte: Gazeta do Povo
Agricultores são pagos para preservar a Mata Atlântica
O Dia Nacional da Conservação do Solo é comemorado nesta quarta-feira (15). Uma das iniciativas bem sucedidas no Brasil é o pagamento de agricultores que preservam a mata atlântica, em Minas Gerais.
O aposentado Octávio de Almeida mostra com orgulho a mata que ocupa quase metade dos seis hectares de terra que herdou da família, em Matias Barbosa. Ele foi o pioneiro do projeto que paga os produtores que preservam a vegetação nativa.
No ano passado, Almeida recebeu R$ 450. O dinheiro ajuda a cuidar do sítio, que não tem renda própria. Esse é o lugar que o aposentado escolheu para descansar.
Já na propriedade vizinha, a renda foi bem maior. O produtor Hélio Domingos, que tira 220 litros de leite por dia, recebeu R$ 4.760, em 2008. Ele preserva 32 dos 105 hectares da fazenda, um número maior do que os 20% da reserva legal. “Por causa da nascente de água que refresca o terreno. É bom para tudo, para a própria natureza”, disse.
Os produtores também ganham arame e mourão, para fazer cerca em volta da mata, e isca para formigas, formicida e mudas. O projeto é uma parceira do governo de Minas Gerais e um banco alemão.
Na Zona da Mata mineira, o gerenciamento é feito por uma organização não-governamental que distribui os recursos aos produtores. “São selecionadas áreas que tenham potencial de recurso natural, como nascentes, minas e córregos. Elas são selecionadas mediante a importância que a área tem para o abastecimento de água, por exemplo”, explicou Theodoro Guerra, presidente da Associação do Meio Ambiente de Juiz de Fora.
Nove produtores recebem de R$ 140 a R$ 400 por hectare ao ano para preservar, recompor a mata ou plantar espécies nativas. Mais sete proprietários de terra serão beneficiados este ano para que a região se torne um corredor ecológico. “A gente viu na prática que o incentivo sensibiliza muito mais o produtor do que a multa e o castigo. A gente sente que hoje eles sentem a mata mais deles e mais valorizada”, disse a agrônoma Ana Paula Mares Guia.
Estima-se que 93% da Mata Atlântica já foi devastada em todo o país.
Fonte: Ambientebrasil
O aposentado Octávio de Almeida mostra com orgulho a mata que ocupa quase metade dos seis hectares de terra que herdou da família, em Matias Barbosa. Ele foi o pioneiro do projeto que paga os produtores que preservam a vegetação nativa.
No ano passado, Almeida recebeu R$ 450. O dinheiro ajuda a cuidar do sítio, que não tem renda própria. Esse é o lugar que o aposentado escolheu para descansar.
Já na propriedade vizinha, a renda foi bem maior. O produtor Hélio Domingos, que tira 220 litros de leite por dia, recebeu R$ 4.760, em 2008. Ele preserva 32 dos 105 hectares da fazenda, um número maior do que os 20% da reserva legal. “Por causa da nascente de água que refresca o terreno. É bom para tudo, para a própria natureza”, disse.
Os produtores também ganham arame e mourão, para fazer cerca em volta da mata, e isca para formigas, formicida e mudas. O projeto é uma parceira do governo de Minas Gerais e um banco alemão.
Na Zona da Mata mineira, o gerenciamento é feito por uma organização não-governamental que distribui os recursos aos produtores. “São selecionadas áreas que tenham potencial de recurso natural, como nascentes, minas e córregos. Elas são selecionadas mediante a importância que a área tem para o abastecimento de água, por exemplo”, explicou Theodoro Guerra, presidente da Associação do Meio Ambiente de Juiz de Fora.
Nove produtores recebem de R$ 140 a R$ 400 por hectare ao ano para preservar, recompor a mata ou plantar espécies nativas. Mais sete proprietários de terra serão beneficiados este ano para que a região se torne um corredor ecológico. “A gente viu na prática que o incentivo sensibiliza muito mais o produtor do que a multa e o castigo. A gente sente que hoje eles sentem a mata mais deles e mais valorizada”, disse a agrônoma Ana Paula Mares Guia.
Estima-se que 93% da Mata Atlântica já foi devastada em todo o país.
Fonte: Ambientebrasil
Contaminação do solo no Sudeste preocupa órgãos ambientais
“Nesta terra, em se plantando tudo dá”, dizia a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, primeiro documento escrito no País. Com a urbanização e o desenvolvimento industrial despreocupado com os recursos naturais, a frase já não é mais verdadeira em algumas partes do País. No Sudeste, região mais industrializada, a situação preocupa os órgãos responsáveis. No Estado de São Paulo, mais de 2,5 mil locais integram o cadastro de áreas com contaminação de solo da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). O número cresceu 10% em relação ao último levantamento, de novembro de 2007. Em Minas Gerais, o número é bem menor: 56 áreas. O Rio de Janeiro informou ter ações pontuais, mas não possui um levantamento sobre o assunto. Matéria de Hermano Freitas, no Portal Terra.
O promotor do Meio Ambiente de São Paulo, José Ismael Lutti, afirma que áreas consideradas contaminadas contém resíduos sólidos de metais pesados como chumbo, cromo e cádmio, ou líquidos, como derivados de petróleo. O material contamina os lençóis freáticos (córregos subterrâneos) e é absorvido pelas plantas que crescem na terra envenenada. Estes resíduos podem intoxicar animais e seres humanos pelo contato com a pele e a ingestão.
Em alguns locais onde a contaminação é maior, até a inalação de vapores emanados pelo solo pode envenenar pessoas com menos resistência, como crianças e idosos.
- Seu efeito é cumulativo e cada pessoa reage à intoxicação de uma forma. Em algumas, pode haver cirrose hepática e até câncer - diz o promotor.
Segundo o gerente do setor de Planejamento e Ações Especiais da Cetesb, Elton Gloeden, o crescimento nas áreas de solo contaminado conhecidas é contínuo desde 2001, ano em que o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) que determinou a fiscalização ambiental pelos Estados. Segundo a Cetesb, houve oito atualizações desde então: 255 áreas em 2002, 727 em 2003, 1.336 em 2004, 1.504 em maio de 2005, 1.596 em novembro de 2005, 1.664 em maio de 2006, 1.822 em novembro de 2006, 2.272 em novembro/2007, e agora 2.514 em novembro de 2008, o dado mais recente.
- O aumento é devido principalmente à ação de licenciamento dos postos de combustíveis que precisam apresentar documentos e laudos relativos à estanqueidade dos tanque -, diz Gloeden. Os postos de gasolina respondem por cerca de 78% dos locais com solo contaminado no Estado.
Procurado, o sindicato que representa os donos de postos de gasolina em São Paulo (Sincopetro) afirmou que nem todos os postos de combustíveis poluem. De acordo com a entidade, existe há 12 anos uma câmara para discutir os danos ambientais causados pela atividade. O Sincopetro ainda comparou os passivos ambientais dos postos ao de “qualquer indústria”.
Mina abandonada
O principal poluidor do solo em Minas Gerais também é o ramo dos postos de combustíveis. Segundo a Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais (Feam), dos 56 pontos de solo contaminado, 55 são locais onde estão ou estavam instalados postos de combustíveis. A substância química presente nestes locais é o hidrocarboneto.
- Esta é a primeira lista e marca o início das ações da Feam para o gerenciamento das áreas contaminadas no Estado de Minas Gerais - disse a autora do estudo, Rosângela Gurgel.
Chama atenção que a única área contaminada conhecida que não tem relação com postos de combustível seja uma mina do século XIX na cidade de Descoberto, na Zona da Mata. Segundo a Feam, neste local a contaminação é devida a grandes quantidades de mercúrio.
Rio
A Secretaria do Ambiente do Estado do Rio de Janeiro disse ter elaborado em março deste ano o Plano Estadual de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos. Segundo a pasta, o plano prevê a elaboração de um diagnóstico sobre a gestão de resíduos, da coleta à destinação e tratamento, além dos equipamentos disponíveis nos municípios.
Ainda de acordo com a secretaria, será feito um estudo de regionalização que irá propor as melhores alternativas para a formação de consórcios para gestão de resíduos, incluindo os municípios que irão sediar novos aterros sanitários. Atualmente, há 10 aterros sanitários no Estado.
Colaborou Ney Rubens, de Belo Horizonte.
* Matéria do Portal Terra, 18 de abril de 2009 • 18h40 • atualizado às 18h40
** Enviada por Edinilson Takara, leitor e colaborador do EcoDebate
Fonte: Portal EcoDebate
O promotor do Meio Ambiente de São Paulo, José Ismael Lutti, afirma que áreas consideradas contaminadas contém resíduos sólidos de metais pesados como chumbo, cromo e cádmio, ou líquidos, como derivados de petróleo. O material contamina os lençóis freáticos (córregos subterrâneos) e é absorvido pelas plantas que crescem na terra envenenada. Estes resíduos podem intoxicar animais e seres humanos pelo contato com a pele e a ingestão.
Em alguns locais onde a contaminação é maior, até a inalação de vapores emanados pelo solo pode envenenar pessoas com menos resistência, como crianças e idosos.
- Seu efeito é cumulativo e cada pessoa reage à intoxicação de uma forma. Em algumas, pode haver cirrose hepática e até câncer - diz o promotor.
Segundo o gerente do setor de Planejamento e Ações Especiais da Cetesb, Elton Gloeden, o crescimento nas áreas de solo contaminado conhecidas é contínuo desde 2001, ano em que o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) que determinou a fiscalização ambiental pelos Estados. Segundo a Cetesb, houve oito atualizações desde então: 255 áreas em 2002, 727 em 2003, 1.336 em 2004, 1.504 em maio de 2005, 1.596 em novembro de 2005, 1.664 em maio de 2006, 1.822 em novembro de 2006, 2.272 em novembro/2007, e agora 2.514 em novembro de 2008, o dado mais recente.
- O aumento é devido principalmente à ação de licenciamento dos postos de combustíveis que precisam apresentar documentos e laudos relativos à estanqueidade dos tanque -, diz Gloeden. Os postos de gasolina respondem por cerca de 78% dos locais com solo contaminado no Estado.
Procurado, o sindicato que representa os donos de postos de gasolina em São Paulo (Sincopetro) afirmou que nem todos os postos de combustíveis poluem. De acordo com a entidade, existe há 12 anos uma câmara para discutir os danos ambientais causados pela atividade. O Sincopetro ainda comparou os passivos ambientais dos postos ao de “qualquer indústria”.
Mina abandonada
O principal poluidor do solo em Minas Gerais também é o ramo dos postos de combustíveis. Segundo a Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais (Feam), dos 56 pontos de solo contaminado, 55 são locais onde estão ou estavam instalados postos de combustíveis. A substância química presente nestes locais é o hidrocarboneto.
- Esta é a primeira lista e marca o início das ações da Feam para o gerenciamento das áreas contaminadas no Estado de Minas Gerais - disse a autora do estudo, Rosângela Gurgel.
Chama atenção que a única área contaminada conhecida que não tem relação com postos de combustível seja uma mina do século XIX na cidade de Descoberto, na Zona da Mata. Segundo a Feam, neste local a contaminação é devida a grandes quantidades de mercúrio.
Rio
A Secretaria do Ambiente do Estado do Rio de Janeiro disse ter elaborado em março deste ano o Plano Estadual de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos. Segundo a pasta, o plano prevê a elaboração de um diagnóstico sobre a gestão de resíduos, da coleta à destinação e tratamento, além dos equipamentos disponíveis nos municípios.
Ainda de acordo com a secretaria, será feito um estudo de regionalização que irá propor as melhores alternativas para a formação de consórcios para gestão de resíduos, incluindo os municípios que irão sediar novos aterros sanitários. Atualmente, há 10 aterros sanitários no Estado.
Colaborou Ney Rubens, de Belo Horizonte.
* Matéria do Portal Terra, 18 de abril de 2009 • 18h40 • atualizado às 18h40
** Enviada por Edinilson Takara, leitor e colaborador do EcoDebate
Fonte: Portal EcoDebate
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terça-feira, 21 de abril de 2009
EXPORTAÇÃO: Brasil perde com restrição à compra de derivados de madeira
Os EUA começam a fiscalizar no dia 1º de maio o cumprimento de uma lei que pode prejudicar US$ 1,75 bilhão em exportações brasileiras de papel, celulose, madeira e móveis. A nova Lei Lacey exige que exportadores de móveis, celulose e madeira do Brasil (e outros países) comprovem a origem de cada tipo de madeira usado nos produtos, para garantir que não provém de extração ilegal.
"O problema é que muitos dos produtos, sobretudo móveis, contêm componentes feitos de diversos tipos de madeira e haverá enorme custo para levantar todas as informações", diz Diego Bonomo, diretor executivo do Brazilian Information Center, que representa os interesse da indústria brasileira nos EUA.
Segundo ele, a burocracia pode inviabilizar a exportação de muitos produtos. "Todo mundo quer acabar com a extração ilegal de madeira, mas o alto custo das exigências da Lei Lacey será equivalente a uma barreira não-tarifária imposta pelos EUA." De acordo com Bonomo, as empresas menores serão as mais afetadas.
O governo americano abriu um período de consulta para que os países afetados fizessem comentários sobre a lei e pedissem modificações. As consultas acabaram nesta semana, mas o governo brasileiro não se manifestou. Outros países protestaram. O Canadá pediu que materiais de embalagem de madeira (caixas, caixotes) sejam isentos da exigência de declaração de importação.
"Embalagens de madeira tipicamente são feitas de inúmeros tipos de madeira, misturados repetidamente, remontados, remanufaturados e despachados entre vários países. A imposição de uma declaração de importação para essas embalagens criaria custos extraordinários", disse o governo canadense em carta.
Para a Indonésia, a medida fere as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), porque é discriminatória contra os exportadores - americanos não terão de cumpri-la.
A Lei Lacey foi introduzida em 1900 para combater o tráfico de plantas e animais silvestres. Quando foi aprovada a Lei Agrícola de 2008, foi incluída uma emenda à Lei Lacey que ampliou o escopo de proteção para "plantas e produtos de plantas", com o intuito de reprimir a extração ilegal de madeira em outros países, e criou a exigência de uma declaração de importação.
Na declaração, precisa estar especificado o nome científico de cada planta usada no produto, o valor da importação, a quantidade da planta e o nome do país onde a planta foi cultivada. As violações do Lei Lacey podem levar a apreensão dos produtos, multa e até prisão. A declaração começou a ser exigida em 15 de dezembro, mas o monitoramento começa dia 1º.
Fonte: Portal REMADE
"O problema é que muitos dos produtos, sobretudo móveis, contêm componentes feitos de diversos tipos de madeira e haverá enorme custo para levantar todas as informações", diz Diego Bonomo, diretor executivo do Brazilian Information Center, que representa os interesse da indústria brasileira nos EUA.
Segundo ele, a burocracia pode inviabilizar a exportação de muitos produtos. "Todo mundo quer acabar com a extração ilegal de madeira, mas o alto custo das exigências da Lei Lacey será equivalente a uma barreira não-tarifária imposta pelos EUA." De acordo com Bonomo, as empresas menores serão as mais afetadas.
O governo americano abriu um período de consulta para que os países afetados fizessem comentários sobre a lei e pedissem modificações. As consultas acabaram nesta semana, mas o governo brasileiro não se manifestou. Outros países protestaram. O Canadá pediu que materiais de embalagem de madeira (caixas, caixotes) sejam isentos da exigência de declaração de importação.
"Embalagens de madeira tipicamente são feitas de inúmeros tipos de madeira, misturados repetidamente, remontados, remanufaturados e despachados entre vários países. A imposição de uma declaração de importação para essas embalagens criaria custos extraordinários", disse o governo canadense em carta.
Para a Indonésia, a medida fere as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), porque é discriminatória contra os exportadores - americanos não terão de cumpri-la.
A Lei Lacey foi introduzida em 1900 para combater o tráfico de plantas e animais silvestres. Quando foi aprovada a Lei Agrícola de 2008, foi incluída uma emenda à Lei Lacey que ampliou o escopo de proteção para "plantas e produtos de plantas", com o intuito de reprimir a extração ilegal de madeira em outros países, e criou a exigência de uma declaração de importação.
Na declaração, precisa estar especificado o nome científico de cada planta usada no produto, o valor da importação, a quantidade da planta e o nome do país onde a planta foi cultivada. As violações do Lei Lacey podem levar a apreensão dos produtos, multa e até prisão. A declaração começou a ser exigida em 15 de dezembro, mas o monitoramento começa dia 1º.
Fonte: Portal REMADE
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Alcance Territorial da Legislação Ambiental e Indigenista
Embora várias leis, decretos e resoluções visassem a proteção ambiental, elas não contemplaram as realidades sócio-econômicas existentes, nem a história da ocupação do Brasil. Os resultados dessa pesquisa da Embrapa são inequívocos: em termos legais, apenas 25% do país seria passível de ocupação agrícola. Cerca de 75% do território está legalmente destinado a minorias e a proteção e preservação ambiental. Como na realidade, mais de 50% do território já está ocupado, configura-se um enorme divórcio entre a legitimidade e a legalidade do uso das terras e muito conflitos.
Nos últimos anos, um número significativo de áreas foi destinado à proteção ambiental e ao uso exclusivo de algumas populações, enquanto uma série de medidas legais restringiu severamente a possibilidade de remoção da vegetação natural, exigindo sua recomposição e o fim das atividades agrícolas nessas áreas. A pesquisa da Embrapa mapeou, mediu e avaliou, pela primeira vez, diversos cenários de alcance territorial dessa legislação no Brasil, com base em imagens de satélite, cartografia digital e dados secundários.
Essas medidas legais colocam na ilegalidade grande parte da produção de arroz de várzea do RS, SP e MA; de búfalos no AM, AP, PA e MA; do café em SP, MG, PR e BA; da maça em SC; da uva e vinho no RS, SC e SP; da pecuária no Pantanal; da pecuária leiteira em MG, SP, RJ e ES; da cana de açúcar em SP, RJ, MG e NE; dos reflorestamentos em MG, SP, MA e TO; da pecuária de corte em grande parte do Brasil, da citricultura em SP, BA e SE; da irrigação no NE; da mandioca no NE e AM; do tabaco em SC e BA; da soja em MT, MS, GO, SP e PR, entre os casos de maior impacto social e econômico.
Tem sido absolutamente insuficiente a eventual busca de compatibilização do alcance territorial da legislação ambiental com outras demandas territoriais dos indígenas ou quilombolas; com programas sociais de assentamentos e reforma agrária e com o crescimento da economia agrícola, urbana, industrial e energético - mineradora.
O impasse entre legalidade e legitimidade no uso e ocupação das terras deve agravar-se face as demandas e expectativas por mais terras por parte de ambientalistas, indigenistas, movimentos sociais, agricultores etc. Questões de governança territorial e impasses na gestão desses conflitos já chegam ao Supremo Tribunal Federal.
Para o ordenamento territorial, a impressão é de que o Brasil acabou. A prosseguir o atual alcance e desencontros da legislação territorial, o quadro de ‘ilegalidade’ e o confronto entre a legitimidade de demandas sociais e econômicas e a legalidade, todos perdem. Perde-se também, sobretudo, a perspectiva de qualquer tipo de desenvolvimento sustentável.
Fonte: EMBRAPA
Nos últimos anos, um número significativo de áreas foi destinado à proteção ambiental e ao uso exclusivo de algumas populações, enquanto uma série de medidas legais restringiu severamente a possibilidade de remoção da vegetação natural, exigindo sua recomposição e o fim das atividades agrícolas nessas áreas. A pesquisa da Embrapa mapeou, mediu e avaliou, pela primeira vez, diversos cenários de alcance territorial dessa legislação no Brasil, com base em imagens de satélite, cartografia digital e dados secundários.
Essas medidas legais colocam na ilegalidade grande parte da produção de arroz de várzea do RS, SP e MA; de búfalos no AM, AP, PA e MA; do café em SP, MG, PR e BA; da maça em SC; da uva e vinho no RS, SC e SP; da pecuária no Pantanal; da pecuária leiteira em MG, SP, RJ e ES; da cana de açúcar em SP, RJ, MG e NE; dos reflorestamentos em MG, SP, MA e TO; da pecuária de corte em grande parte do Brasil, da citricultura em SP, BA e SE; da irrigação no NE; da mandioca no NE e AM; do tabaco em SC e BA; da soja em MT, MS, GO, SP e PR, entre os casos de maior impacto social e econômico.
Tem sido absolutamente insuficiente a eventual busca de compatibilização do alcance territorial da legislação ambiental com outras demandas territoriais dos indígenas ou quilombolas; com programas sociais de assentamentos e reforma agrária e com o crescimento da economia agrícola, urbana, industrial e energético - mineradora.
O impasse entre legalidade e legitimidade no uso e ocupação das terras deve agravar-se face as demandas e expectativas por mais terras por parte de ambientalistas, indigenistas, movimentos sociais, agricultores etc. Questões de governança territorial e impasses na gestão desses conflitos já chegam ao Supremo Tribunal Federal.
Para o ordenamento territorial, a impressão é de que o Brasil acabou. A prosseguir o atual alcance e desencontros da legislação territorial, o quadro de ‘ilegalidade’ e o confronto entre a legitimidade de demandas sociais e econômicas e a legalidade, todos perdem. Perde-se também, sobretudo, a perspectiva de qualquer tipo de desenvolvimento sustentável.
Fonte: EMBRAPA
A Mata Atlântica finalmente desvelada
Felipe Lobo
14/04/2009, 07:30
Na última quarta-feira (9), uma edição especial da conceituada revista Biological Conservation foi publicada na Internet e provou que a união entre sociedade civil, governo e centros acadêmicos pode render bons frutos para a natureza. Tudo graças ao artigo científico A Mata Atlântica Brasileira: Quanto sobrou e como está distribuída a floresta remanescente? Implicações para a conservação, escrito por profissionais da Universidade de São Paulo em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e com a não-governamental SOS Mata Atlântica. Nele, os autores fazem um raio-x completo e inédito sobre todos os remanescentes de um dos biomas mais ameaçados do planeta.
A idéia de se estudar a divisão geográfica dos fragmentos florestais (veja aqui) da Mata Atlântica e as possíveis estratégias para sua conservação surgiu há quase dois anos, durante uma reunião dos editores da revista, na Europa. Entre eles, estava Jean Paul Metzger, pesquisador do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e responsável pela sugestão. “Eu propus uma edição especial com doze textos sobre o ecossistema. Ficou super completo, pois juntamos as melhores cabeças para falar do atual estado de preservação e o que devemos fazer”, explica.
Ao voltar para o Brasil, Jean questionou Milton Cézar Ribeiro, seu aluno de doutorado em Ecologia de Paisagens, sobre o interesse em desenvolver um trabalho amplo acerca dos fragmentos da floresta mais desmatada no país. Resposta positiva, eles convidaram outros três pesquisadores para completarem a equipe e iniciaram as análises com base em dados já coletados pelo Inpe e SOS – os mesmos que serviram para a confecção do último Atlas de Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, elaborado em parceria pelas duas instituições.
De acordo com Flávio Ponzoni, pesquisador do Inpe e um dos autores do artigo, o atlas é apenas um diagnóstico do bioma como um todo. Muito diferente do que se vê na Biological Conservation. “Neste estudo o Milton foi bem além. Ele pegou os polígonos e fez uma abordagem mais ecológica disso. Viu os tamanhos, o efeito de borda e discutiu em quais sentidos os esforços para a conservação deveriam ser feitos”.
Surpresas e dificuldades
Os resultados de 18 meses de pesquisa são surpreendentes. “Até agora não existiam informações básicas atualizadas sobre o quanto, onde e como estavam distribuídos os remanescentes da floresta, o que dificulta o estabelecimento de políticas para cuidar das espécies”, disse a O Eco, do Canadá (onde faz parte da tese), Milton Ribeiro, autor principal do estudo. Segundo ele, trata-se da maior área já analisada com este nível de detalhamento em todo o mundo.
O trabalho seguiu padrões rígidos de qualidade. Além de incluir nas análises todos os fragmentos com menos de cem hectares (excluídos pela SOS no Atlas), os pesquisadores foram a campo verificar massas de vegetação teoricamente subestimadas pelo banco de dados disponível. O esforço teve recompensa: em vez de restar apenas 7% do ecossistema, como diz o senso comum, é possível que a Mata Atlântica cubra de 11,4 a 16% do seu território original.
“A notícia ruim é que há muitos fragmentos pequenos. Eles representam um terço da Mata Atlântica e eram excluídos de outros estudos. Achava-se que eles não tinham valor para a conservação, mas sabemos que não é bem essa a estratégia!”, diz Metzger, cuja opinião é compartilhada por Milton. Para o futuro doutor, os conjuntos de mata inferiores a cem hectares podem não ser suficientes para manter populações de animais e plantas estritamente florestais, mas são fundamentais para a dispersão de indivíduos, o fluxo gênico e a redução do isolamento entre frações maiores.
“Ao mesmo tempo, existem espécies que precisam de menos área disponível para sobreviver. Além disso, caso haja menos fragmentos, o sucesso no processo de dispersão diminui, o que pode reduzir a variabilidade genética em longo prazo e prejudicar a biodiversidade”, completa Ribeiro. Apesar da boa notícia em relação ao tamanho real da Mata Atlântica, uma informação tirou o sono dos autores do estudo: apenas 1% da floresta sobrevive em unidades de conservação, muito longe dos 10% recomendados internacionalmente.
Estratégias de conservação
Outras descobertas também apontam para um cenário difícil na proteção do bioma, rico em biodiversidade e em avanços de atividades insustentáveis. Quase a metade da vegetação em pé, por exemplo, sofre o “efeito de borda” por estar a menos de cem metros de ambientes alterados por ações humanas – sejam áreas agrícolas, urbanas ou pastagens. As conseqüências desta proximidade são perturbações como pragas, ventos mais intensos e série de outros problemas capazes de desestabilizar os ciclos naturais.
“Até podemos manter esta área produtiva, mas de outra forma. Algumas alternativas são agroflorestas, plantações de mudas exóticas, ou seja, algo que estimule sistemas que tenham misturas com componentes arbóreos. Basta tentar fazer com que o contraste seja menor”, avalia Metzger. Outro importante impasse é a distância média entre os derradeiros resquícios de árvores: quase um quilômetro e meio. A baixa conectividade, explica Ribeiro, pode causar extinções locais.
O artigo científico, que também contou com a colaboração de Márcia Hirota (SOS Mata Atlântica) e Alexandre Camargo Martensen (USP), não faz apenas um diagnóstico, mas sugere caminhos para manter e restaurar o ecossistema. Um deles é criar unidades de conservação de proteção integral com os maiores fragmentos, como aqueles da Serra do Mar. No interior de estados como São Paulo, Minas gerais e Pernambuco, onde os resquícios são pequenos, é preciso interligar a mata com uma linha de mosaicos em parceria com propriedades privadas. Neste caso, as políticas públicas devem visar o suporte às reservas legais e a aquisição de novas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).
Para tanto, uma das prioridades é definir onde estão as matas originais e em estágios sucessivos de crescimento. De acordo com Metzger, a diferença entre elas e as secundárias é grande. Mas nada que tire a importância das últimas. “Temos uma comparação boa em São Paulo entre esses dois tipos de vegetação. Enquanto na primária vivem 160 espécies de aves, na replantada, que é contínua, existem apenas cem”. Independente do valor é sempre melhor que a floresta esteja de pé, e não deitada.
Fonte: O Eco
14/04/2009, 07:30
Na última quarta-feira (9), uma edição especial da conceituada revista Biological Conservation foi publicada na Internet e provou que a união entre sociedade civil, governo e centros acadêmicos pode render bons frutos para a natureza. Tudo graças ao artigo científico A Mata Atlântica Brasileira: Quanto sobrou e como está distribuída a floresta remanescente? Implicações para a conservação, escrito por profissionais da Universidade de São Paulo em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e com a não-governamental SOS Mata Atlântica. Nele, os autores fazem um raio-x completo e inédito sobre todos os remanescentes de um dos biomas mais ameaçados do planeta.
A idéia de se estudar a divisão geográfica dos fragmentos florestais (veja aqui) da Mata Atlântica e as possíveis estratégias para sua conservação surgiu há quase dois anos, durante uma reunião dos editores da revista, na Europa. Entre eles, estava Jean Paul Metzger, pesquisador do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e responsável pela sugestão. “Eu propus uma edição especial com doze textos sobre o ecossistema. Ficou super completo, pois juntamos as melhores cabeças para falar do atual estado de preservação e o que devemos fazer”, explica.
Ao voltar para o Brasil, Jean questionou Milton Cézar Ribeiro, seu aluno de doutorado em Ecologia de Paisagens, sobre o interesse em desenvolver um trabalho amplo acerca dos fragmentos da floresta mais desmatada no país. Resposta positiva, eles convidaram outros três pesquisadores para completarem a equipe e iniciaram as análises com base em dados já coletados pelo Inpe e SOS – os mesmos que serviram para a confecção do último Atlas de Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, elaborado em parceria pelas duas instituições.
De acordo com Flávio Ponzoni, pesquisador do Inpe e um dos autores do artigo, o atlas é apenas um diagnóstico do bioma como um todo. Muito diferente do que se vê na Biological Conservation. “Neste estudo o Milton foi bem além. Ele pegou os polígonos e fez uma abordagem mais ecológica disso. Viu os tamanhos, o efeito de borda e discutiu em quais sentidos os esforços para a conservação deveriam ser feitos”.
Surpresas e dificuldades
Os resultados de 18 meses de pesquisa são surpreendentes. “Até agora não existiam informações básicas atualizadas sobre o quanto, onde e como estavam distribuídos os remanescentes da floresta, o que dificulta o estabelecimento de políticas para cuidar das espécies”, disse a O Eco, do Canadá (onde faz parte da tese), Milton Ribeiro, autor principal do estudo. Segundo ele, trata-se da maior área já analisada com este nível de detalhamento em todo o mundo.
O trabalho seguiu padrões rígidos de qualidade. Além de incluir nas análises todos os fragmentos com menos de cem hectares (excluídos pela SOS no Atlas), os pesquisadores foram a campo verificar massas de vegetação teoricamente subestimadas pelo banco de dados disponível. O esforço teve recompensa: em vez de restar apenas 7% do ecossistema, como diz o senso comum, é possível que a Mata Atlântica cubra de 11,4 a 16% do seu território original.
“A notícia ruim é que há muitos fragmentos pequenos. Eles representam um terço da Mata Atlântica e eram excluídos de outros estudos. Achava-se que eles não tinham valor para a conservação, mas sabemos que não é bem essa a estratégia!”, diz Metzger, cuja opinião é compartilhada por Milton. Para o futuro doutor, os conjuntos de mata inferiores a cem hectares podem não ser suficientes para manter populações de animais e plantas estritamente florestais, mas são fundamentais para a dispersão de indivíduos, o fluxo gênico e a redução do isolamento entre frações maiores.
“Ao mesmo tempo, existem espécies que precisam de menos área disponível para sobreviver. Além disso, caso haja menos fragmentos, o sucesso no processo de dispersão diminui, o que pode reduzir a variabilidade genética em longo prazo e prejudicar a biodiversidade”, completa Ribeiro. Apesar da boa notícia em relação ao tamanho real da Mata Atlântica, uma informação tirou o sono dos autores do estudo: apenas 1% da floresta sobrevive em unidades de conservação, muito longe dos 10% recomendados internacionalmente.
Estratégias de conservação
Outras descobertas também apontam para um cenário difícil na proteção do bioma, rico em biodiversidade e em avanços de atividades insustentáveis. Quase a metade da vegetação em pé, por exemplo, sofre o “efeito de borda” por estar a menos de cem metros de ambientes alterados por ações humanas – sejam áreas agrícolas, urbanas ou pastagens. As conseqüências desta proximidade são perturbações como pragas, ventos mais intensos e série de outros problemas capazes de desestabilizar os ciclos naturais.
“Até podemos manter esta área produtiva, mas de outra forma. Algumas alternativas são agroflorestas, plantações de mudas exóticas, ou seja, algo que estimule sistemas que tenham misturas com componentes arbóreos. Basta tentar fazer com que o contraste seja menor”, avalia Metzger. Outro importante impasse é a distância média entre os derradeiros resquícios de árvores: quase um quilômetro e meio. A baixa conectividade, explica Ribeiro, pode causar extinções locais.
O artigo científico, que também contou com a colaboração de Márcia Hirota (SOS Mata Atlântica) e Alexandre Camargo Martensen (USP), não faz apenas um diagnóstico, mas sugere caminhos para manter e restaurar o ecossistema. Um deles é criar unidades de conservação de proteção integral com os maiores fragmentos, como aqueles da Serra do Mar. No interior de estados como São Paulo, Minas gerais e Pernambuco, onde os resquícios são pequenos, é preciso interligar a mata com uma linha de mosaicos em parceria com propriedades privadas. Neste caso, as políticas públicas devem visar o suporte às reservas legais e a aquisição de novas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs).
Para tanto, uma das prioridades é definir onde estão as matas originais e em estágios sucessivos de crescimento. De acordo com Metzger, a diferença entre elas e as secundárias é grande. Mas nada que tire a importância das últimas. “Temos uma comparação boa em São Paulo entre esses dois tipos de vegetação. Enquanto na primária vivem 160 espécies de aves, na replantada, que é contínua, existem apenas cem”. Independente do valor é sempre melhor que a floresta esteja de pé, e não deitada.
Fonte: O Eco
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O maravilhoso lixo eletrônico
Por Glorinha Glock*
Porto Alegre, 20 de abril (Terramérica) - Com peças de um e de outro equipamento sem uso, os alunos do Centro de Recuperação de Computadores (CRC) de Porto Alegre colocaram em funcionamento 1.700 máquinas em três anos de trabalho. No final de 2009, deverão chegar a 2.500 computadores, que serão distribuídos em escolas, ONGs e centros de informática, aproximando a tecnologia das pessoas que ainda estão longe dela nesta cidade de 1,5 milhão de habitantes, capital do Rio Grande do Sul.
A matéria-prima do CRC é o lixo eletrônico descartado pelo governo federal, bancos, empresas e usuários individuais, que trocam seus computadores por outros mais modernos ou não conseguem consertá-los. Antes, computadores, impressoras e acessórios eram jogados em aterros sanitários ou armazenados em depósitos até serem descartados como entulho. Agora, ganham mais um tempo de vida útil, ou são usados como matéria-prima para expressões artísticas.
O projeto faz parte do Programa Brasileiro de Inclusão Digital e é resultado de uma associação entre o Ministério do Planejamento e a Rede Marista de Educação e Solidariedade, parte da congregação católica dos Irmãos Maristas. Centros como o de Porto Alegre foram instalados em Minas Gerais e São Paulo, no sudeste e sul, e no Distrito Federal, centro do país. Como nos demais, o CRC de Porto Alegre fica em um bairro da periferia. Ali, 88 jovens de famílias vulneráveis recebem uma bolsa auxílio para aprender a desmontar, recondicionar, adaptar e montar equipamentos, instalar software livre, programar e configurar computadores.
Sobretudo, descobrem o valor de cada peça, não apenas das máquinas, mas deles mesmos como cidadãos. “O curso é importante por seu aspecto profissional e pelo convívio com as pessoas, que aqui interagem”, explica Kieth Garcia Reges, de 16 anos. Na era “do descartável”, ela e seus companheiros são uma exceção. “Deixamos de desejar muitas coisas e aprendemos a usar mais o que temos em casa”, disse. São poucas as pessoas que podem se dar ao luxo de mexer sem medo em um computador e “se der um problema podem consertar”, acrescenta.
Reges conserta computadores, carregadores de celular, alto-falantes, ventiladores. E multiplica seus conhecimentos. Convidou dois colegas para apresentarem um trabalho sobre resíduos eletrônicos em uma mostra pedagógica que acontecerá em sua escola. No pavilhão instalado na sede do Centro Social Marista (Cesmar) de Porto Alegre, Rafael de Vasconcelos, de 17 anos e apaixonado por Robótica, foi mais longe. Começou como voluntário aos 15 anos, foi monitor e logo contratado como aprendiz. Hoje é educador. Com a bolsa que recebe, paga seus estudos na Faculdade de Engenharia Elétrica e Eletrônica, onde acaba de entrar. “Quando estou na aula me sinto feliz de ver que aprendo a misturar estas coisas que ajudam a melhorar o mundo”, afirma.
Os olhos de Rafael não enxergam apenas a vantagem da velocidade e eficiência dos equipamentos que faz funcionar. Ele reconhece, por exemplo, que a fabricação de um computador tem mais custos para o meio ambiente do que os imaginados pelo consumidor. Tudo que chega ao CRC é aproveitado. Muitas peças que não podem ser reparadas são desmontadas e estudadas nas aulas de Robótica, território de Rafael. Quem vê a montanha de carcaças de caça-níqueis no pátio do Cesmar não imagina a quantidade de produtos gerados a partir desses equipamentos ilegais apreendidos pela Receita Federal e doados com a condição de terem seus materiais reaproveitados.
Orgulhoso, Rafael conta como transformou uma velha tela em um luminoso de divulgação. “Demoramos meses para mapear a parte eletrônica, depois plugamos na porta paralela do computador e fizemos um programa para imprimir palavras e letras”, descreve, contagiado pelo jargão da informática. O conhecimento adquirido é repassado aos novos estudantes. A madeira dos caça-níqueis também é usada para fabricar bancos, enfeites e mesas, em um novo projeto, que será implementado este ano, para criar novos ofícios e renda. Nos fundos do CRC, os resíduos que não podem ser recondicionados se transformam em arte. A tampa de um enorme computador IBM serviu de tela para pintar grafites com motivos da Páscoa, que decoraram o Cesmar na Semana Santa.
Quando era novo, há uns 12 anos, este computador custava cerca de US$ 27 mil, observa Tarcício Postingher, coordenador técnico do Centro. “A tecnologia evoluiu tanto que ele já não pode funcionar como os modelos atuais”, explica. Desmontado, se transformou em quadros que expressam a criatividade e o talento dos jovens. De suas peças metálicas surgem pequenas figuras de jogadores de futebol, pintadas e colocadas sobre uma base, como nos troféus. Quando os materiais não podem ser reaproveitados, o próprio CRC se encarrega de dar um destino apropriado. Embora incipiente, está sendo desenvolvido no Brasl um mercado de empresas que coletam lixo eletrônico, conhecido como e-lixo, composto sobretudo por placas de informática, telefonia e eletroeletrônicos.
Uma dessas empresas é a Lorene. “Processamos cerca de 200 toneladas de e-lixo por mês’, afirma seu gerente de produção, Eduardo Manuel Ribeiro de Almeida. Desse processo de purificação, emergem metais nobres, como ouro, prata, platina, paládio e cobre, que retornam ao ciclo produtivo, reduzindo a necessidade de extração de minerais da natureza, explica o engenheiro Almeida. O coordenador do CRC, Postingher, com formação em Teologia e pós-graduado em Informática, aponta os desafios futuros. “Em 2008, foram vendidos neste país 12 milhões de computadores. Isto significa que em dois ou três anos será preciso dar-lhes um destino final”, afirmou. Além da adaptação às novas tecnologias, é preciso formar profissionais com uma visão global.
Atento aos debates das tecnologias da informação verde, Postingher recorda que um dos principais problemas dos centros e indústrias da área de informática é economizar eletricidade. Uma possibilidade é contar com um único servidor virtual que administre dez serviços ao mesmo tempo, reduzindo a quantidade de computadores e de energia, afirma. Desta forma, o prejuízo ao meio ambiente é menor. “Esta mudança de mentalidade é difícil, pois todo mundo quer consumir. Os seres humanos devem ser preparados, e isso exige um processo educativo”, concluiu.
* Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).
Crédito da imagem: Clarinha Glock/IPS
Legenda: Carcaças de máquinas caça-níqueis se transformam em arte.
LINKS
Libertar o cientista interior e superar a brecha digital
http://www.ipsnoticias.net/nota.asp?idnews=91289" target="_blank">http://www.ipsnoticias.net/nota.asp?idnews=91289
Celular engana pobreza
http://www.ipsnoticias.net/interna.asp?idnews=35396" target="_blank">http://www.ipsnoticias.net/interna.asp?idnews=35396
Computadores para a inclusão
http://www.computadoresparainclusao.gov.br/index.php" target="_blank">http://www.computadoresparainclusao.gov.br/index.php
Rede Marista de Educação e Solidariedade, Brasil
http://www.maristas.org.br/" target="_blank">http://www.maristas.org.br/
Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.
Fonte: Envolverde
Porto Alegre, 20 de abril (Terramérica) - Com peças de um e de outro equipamento sem uso, os alunos do Centro de Recuperação de Computadores (CRC) de Porto Alegre colocaram em funcionamento 1.700 máquinas em três anos de trabalho. No final de 2009, deverão chegar a 2.500 computadores, que serão distribuídos em escolas, ONGs e centros de informática, aproximando a tecnologia das pessoas que ainda estão longe dela nesta cidade de 1,5 milhão de habitantes, capital do Rio Grande do Sul.
A matéria-prima do CRC é o lixo eletrônico descartado pelo governo federal, bancos, empresas e usuários individuais, que trocam seus computadores por outros mais modernos ou não conseguem consertá-los. Antes, computadores, impressoras e acessórios eram jogados em aterros sanitários ou armazenados em depósitos até serem descartados como entulho. Agora, ganham mais um tempo de vida útil, ou são usados como matéria-prima para expressões artísticas.
O projeto faz parte do Programa Brasileiro de Inclusão Digital e é resultado de uma associação entre o Ministério do Planejamento e a Rede Marista de Educação e Solidariedade, parte da congregação católica dos Irmãos Maristas. Centros como o de Porto Alegre foram instalados em Minas Gerais e São Paulo, no sudeste e sul, e no Distrito Federal, centro do país. Como nos demais, o CRC de Porto Alegre fica em um bairro da periferia. Ali, 88 jovens de famílias vulneráveis recebem uma bolsa auxílio para aprender a desmontar, recondicionar, adaptar e montar equipamentos, instalar software livre, programar e configurar computadores.
Sobretudo, descobrem o valor de cada peça, não apenas das máquinas, mas deles mesmos como cidadãos. “O curso é importante por seu aspecto profissional e pelo convívio com as pessoas, que aqui interagem”, explica Kieth Garcia Reges, de 16 anos. Na era “do descartável”, ela e seus companheiros são uma exceção. “Deixamos de desejar muitas coisas e aprendemos a usar mais o que temos em casa”, disse. São poucas as pessoas que podem se dar ao luxo de mexer sem medo em um computador e “se der um problema podem consertar”, acrescenta.
Reges conserta computadores, carregadores de celular, alto-falantes, ventiladores. E multiplica seus conhecimentos. Convidou dois colegas para apresentarem um trabalho sobre resíduos eletrônicos em uma mostra pedagógica que acontecerá em sua escola. No pavilhão instalado na sede do Centro Social Marista (Cesmar) de Porto Alegre, Rafael de Vasconcelos, de 17 anos e apaixonado por Robótica, foi mais longe. Começou como voluntário aos 15 anos, foi monitor e logo contratado como aprendiz. Hoje é educador. Com a bolsa que recebe, paga seus estudos na Faculdade de Engenharia Elétrica e Eletrônica, onde acaba de entrar. “Quando estou na aula me sinto feliz de ver que aprendo a misturar estas coisas que ajudam a melhorar o mundo”, afirma.
Os olhos de Rafael não enxergam apenas a vantagem da velocidade e eficiência dos equipamentos que faz funcionar. Ele reconhece, por exemplo, que a fabricação de um computador tem mais custos para o meio ambiente do que os imaginados pelo consumidor. Tudo que chega ao CRC é aproveitado. Muitas peças que não podem ser reparadas são desmontadas e estudadas nas aulas de Robótica, território de Rafael. Quem vê a montanha de carcaças de caça-níqueis no pátio do Cesmar não imagina a quantidade de produtos gerados a partir desses equipamentos ilegais apreendidos pela Receita Federal e doados com a condição de terem seus materiais reaproveitados.
Orgulhoso, Rafael conta como transformou uma velha tela em um luminoso de divulgação. “Demoramos meses para mapear a parte eletrônica, depois plugamos na porta paralela do computador e fizemos um programa para imprimir palavras e letras”, descreve, contagiado pelo jargão da informática. O conhecimento adquirido é repassado aos novos estudantes. A madeira dos caça-níqueis também é usada para fabricar bancos, enfeites e mesas, em um novo projeto, que será implementado este ano, para criar novos ofícios e renda. Nos fundos do CRC, os resíduos que não podem ser recondicionados se transformam em arte. A tampa de um enorme computador IBM serviu de tela para pintar grafites com motivos da Páscoa, que decoraram o Cesmar na Semana Santa.
Quando era novo, há uns 12 anos, este computador custava cerca de US$ 27 mil, observa Tarcício Postingher, coordenador técnico do Centro. “A tecnologia evoluiu tanto que ele já não pode funcionar como os modelos atuais”, explica. Desmontado, se transformou em quadros que expressam a criatividade e o talento dos jovens. De suas peças metálicas surgem pequenas figuras de jogadores de futebol, pintadas e colocadas sobre uma base, como nos troféus. Quando os materiais não podem ser reaproveitados, o próprio CRC se encarrega de dar um destino apropriado. Embora incipiente, está sendo desenvolvido no Brasl um mercado de empresas que coletam lixo eletrônico, conhecido como e-lixo, composto sobretudo por placas de informática, telefonia e eletroeletrônicos.
Uma dessas empresas é a Lorene. “Processamos cerca de 200 toneladas de e-lixo por mês’, afirma seu gerente de produção, Eduardo Manuel Ribeiro de Almeida. Desse processo de purificação, emergem metais nobres, como ouro, prata, platina, paládio e cobre, que retornam ao ciclo produtivo, reduzindo a necessidade de extração de minerais da natureza, explica o engenheiro Almeida. O coordenador do CRC, Postingher, com formação em Teologia e pós-graduado em Informática, aponta os desafios futuros. “Em 2008, foram vendidos neste país 12 milhões de computadores. Isto significa que em dois ou três anos será preciso dar-lhes um destino final”, afirmou. Além da adaptação às novas tecnologias, é preciso formar profissionais com uma visão global.
Atento aos debates das tecnologias da informação verde, Postingher recorda que um dos principais problemas dos centros e indústrias da área de informática é economizar eletricidade. Uma possibilidade é contar com um único servidor virtual que administre dez serviços ao mesmo tempo, reduzindo a quantidade de computadores e de energia, afirma. Desta forma, o prejuízo ao meio ambiente é menor. “Esta mudança de mentalidade é difícil, pois todo mundo quer consumir. Os seres humanos devem ser preparados, e isso exige um processo educativo”, concluiu.
* Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).
Crédito da imagem: Clarinha Glock/IPS
Legenda: Carcaças de máquinas caça-níqueis se transformam em arte.
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Libertar o cientista interior e superar a brecha digital
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Celular engana pobreza
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Computadores para a inclusão
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Rede Marista de Educação e Solidariedade, Brasil
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Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.
Fonte: Envolverde
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quinta-feira, 16 de abril de 2009
As sementes da discórdia
Pesquisas discutem impacto do contrabando de sementes da seringueira por ingleses
Carlos Haag
Edição Impressa 158 - Abril 2009
O trocadilho é inevitável e, talvez, perdoável: o tempo na história de Henry Wickham sempre foi elástico. Ele surrupiou as sementes da seringueira em 1876, mas apenas em 1895 é que os ingleses resolveram iniciar a plantação da borracha na Malásia em bases comerciais e, assim, só no final de sua vida é que ele ganhou o agradecimento oficial do Império Britânico, virando Sir, a contragosto da rainha Vitória, que o considerava “um homenzinho desagradável”. Por décadas discutiu-se, sem resultados satisfatórios, se ele agiu como um ladrão comum ou era um “homem do seu tempo”, e ele chegou a ganhar o apelido, justo ou injusto, de “pai da biopirataria”. Muito tempo depois, a partir da Eco-92, se começou a discutir com sutilezas essa questão. “Na década anterior prevaleciam, na legislação internacional, os conceitos derivados do farmer’s rights da Organizacão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentacão, fundamentados no princípio do bem comum da humanidade, e propondo que os recursos naturais fossem acessíveis a todos. A discussão agora é se – o Brasil impondo uma lei de acesso muito rígida – eles irão pesquisar em outros países ou então tentarão coletar sem autorização oficial, o que caracteriza a biopirataria. O maior interesse para o desenvolvimento nacional é, na verdade, um grande desafio: transformar toda biopirataria potencial em bioparceria a fim de reforçar as capacidades tecnológicas do país”, avalia Ana Flávia Granja e Barros, professora adjunta da Universidade de Brasília/Instituto de Relações Internacionais. O tempo parece não ter ajudado tanto a recuperar a reputação de Wickham. Teria sido ele o real responsável pela decadência do ciclo brasileiro da borracha?
“Havia, muito antes desse contrabando, um entusiasmo pela ‘teologia natural’, em especial do Império Britânico. Argumentava-se que, se a unidade do Jardim do Éden havia se perdido, o livre comércio permitiria a redescoberta das suas riquezas agrícolas. Daí, em 1851, a Macintosh&Co., a maior manufatureira de borracha britânica, ter presenteado o príncipe Albert, marido da rainha Vitória, com uma barra de borracha em que estava inscrito o poema Charity, de William Cowper, cujos dizeres afirmavam: ‘O ramo do comércio foi criado para associar todos os ramos da humanidade. Cada clima necessita o que outros climas produzem e, assim, oferecem algo para o uso geral de todos’. Roubar sementes, então, poderia ser uma ‘ação nobre’ pelo ‘bem comum’ da humanidade”, explica a historiadora Emma Reisz, do Jesus College, em Oxford, autora de The political economy of empire in the tropics: rubber in the British Empire, que será lançado no final do ano na Inglaterra. “Wickham, por essa razão, nunca viu o contrabando das sementes como um roubo, mas como um ato de patriotismo e salvação pessoal. Muito antes da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), a biopirataria de Henry deu à Inglaterra o primeiro monopólio global de um recurso estratégico na história do homem”, completa Joe Jackson, autor do recém-lançado The thief at the end of the world, biografia de Wickham. Se o homem era desprezado pela nobreza, o fruto de sua aventura encheu de glória o The Royal Botanical Gardens, em Kew (que celebra, este ano, seus 250 anos), uma louvada instituição de pesquisa botânica, que acolheu e incentivou não apenas o furto das sementes brasileiras, mas de muitas outras, entre as quais, por exemplo, a cinchona ou quinina, surrupiada por pesquisadores ingleses do Peru segundo o espírito do “bem comum da humanidade”. Em verdade, o desejo pelo quinino se devia menos ao altruísmo universalista e mais à necessidade imperialista de combater a malária que atacava os soldados britânicos em países distantes, atrapalhando o comércio colonial.
“A parceria entre governos coloniais e jardins botânicos na transferência e no desenvolvimento de plantas úteis funcionava como um benefício mútuo. O subsídio do Estado a esses centros cresceu quando os governos perceberam o potencial estratégico da botânica. Os institutos, por sua vez, retribuíram o investimento nacional pesquisando e aprimorando sementes para as plantations”, explica a historiadora Lucile Brockway, da City University of New York, autora de Science and colonial expansion. “A monocultura tropical em mãos europeias teve um grande avanço, mas também produziu desequilíbrios políticos e ecológicos imensos e com os quais o mundo moderno ainda hoje precisa lidar.” O século XIX, continua a pesquisadora, deu ênfase à “botânica econômica”, ou seja, à “botânica colonial”, e instituições como Kew Gardens, de início percebidas pelo governo como “caprichos reais” ou “divertimento das massas”, ganharam status na hierarquia imperial como “câmara de compensação” na troca de informações botânicas e centro de intercâmbio de plantas pelo Império Britânico, enviando espécimes e sementes para onde houvesse potencial comercial.
Assim, em 1850, quando Thomas Hancock, dono da Macintosh, expressou publicamente a sua preocupação com o monopólio da borracha pelo Brasil, que, afirmava, não era confiável em termos de oferta e preços, Sir William Hooker, seu amigo e diretor de Kew Gardens, prontificou-se a “oferecer toda e qualquer ajuda para quem desejar transferir a seringueira do Brasil para o território imperial”. “A ‘mão invisível’ do mercado, ao que parece, precisava de uma forcinha. Mas obter as mudas brasileiras exigiam conhecimento botânico e coragem para enfrentar a floresta diante de um preço de mercado comparativamente baixo, o que não justificava o esforço”, nota Emma. O governo britânico não se interessou e foi apenas a partir de 1870, por pressão das autoridades inglesas na Índia que necessitavam da borracha, que o India Office, em Londres, passou a considerar o assunto com gravidade, nos moldes do que se fizera com a quinina. Afinal, um relatório oficial sobre a situação no Brasil alertava do perigo de se perder um “bem da humanidade” pelas mãos de “um seringueiro bêbado que, depois de uma noitada de cachaça, poderia destruir todas as árvores em seu caminho”. “Era uma questão de civilismo arrancar a borracha do Brasil e, em 1873, o India Office destinou verba para obter mudas ou sementes da seringueira”, diz Emma.
Várias tentativas foram feitas, mas as sementes não vingavam em Kew, o que abalou o ânimo de Hooker, mesmo ao receber uma carta de Wickham em que prometia ser capaz não apenas de reconhecer a árvore correta, como também de enviar milhares de sementes com segurança para Kew Gardens. Típico aventureiro da época, Henry, aos 27 anos, partiu para a América Central para tentar ficar rico e acabou em Santarém, onde viu in loco a riqueza do boom da borracha. Antes, no Orinoco, aprendera, com índios, a recolher o látex. Seus relatos de viagem, com desenhos das folhas da Hevea, convenceram o India Office de que ele tinha potencial, após deixar seu projeto engavetado por seis meses. Em 1876 Wickham voltou ao Brasil com a mulher, a mãe, o irmão e a cunhada (perdeu aqui boa parte da família, vítima de doenças tropicais), e escreveu a Hooker de Seringal, às margens do Tapajós (não muito distante da futura empresa de Ford) avisando que coletara as sementes. A bordo do navio Amazonas, com 70 mil sementes a bordo, declarou na alfândega brasileira que “levava apenas espécimes exóticos e delicados para o jardim botânico”. Para tanto, contou com o auxílio do cônsul inglês e do “barão de S.”, “muito compreensivo”. “Eles agiram não contra os desejos do governo brasileiro, mas exatamente como se este não existisse e as únicas autoridades naquele canto do mundo fossem os cônsules britânicos”, observa Warren Dean. As sementes chegaram intactas em Londres e foram enviadas para a Ásia britânica.
“Porém, o desenvolvimento de plantations em larga escala naquela região foi lento pela falta de capital e pelo desinteresse dos comerciantes ingleses, que só reagiram quando o potencial da borracha estourou com a indústria de carros”, analisa o economista Aldo Musacchio, do Ibmec São Paulo. Em 1900, as plantações asiáticas produziam apenas quatro toneladas de látex ante as 27 mil toneladas obtidas por meio do extrativismo no Brasil. Em 1916, as plantations britânicas iriam produzir Hevea suficiente para abastecer 95% da demanda mundial por borracha de alta qualidade. A Amazônia entrou em parafuso. “Por que os produtores brasileiros não reagiram? Ao contrário do que se pensa, não houve um ‘erro fatal’ da oligarquia da borracha, mas uma ação ‘otimizada’ dadas as opções existentes”, analisa o economista Zephyr Frank, da Stanford University. “Incapaz de deter o contrabando de sementes, a única opção para os brasileiros seria um grande investimento na produção que afastasse a concorrência incipiente por meio do aumento da produtividade, da importação de mão de obra, diminuição de custos de trabalho e com a organização de plantations. Mas o país, naquele momento, não tinha capacidade de mobilizar esses recursos de capital (nem interesse, por causa do café) e trabalho necessários para virar o jogo”, explica. “Como o mercado da borracha é imprevisível e demorado (acompanha o tempo de crescimento das árvores, entre seis e oito anos), os brasileiros optaram por ‘sentar e esperar’, pois investir em plantations era caro demais e sem garantias; além do mais, o extrativismo era lucrativo a seu modo. A opção era deixar os ingleses invadirem o mercado até o excesso de produção, como ocorreu em 1922.”
O tempo, dessa vez, estava a favor da borracha brasileira. O domínio britânico centrava-se nas relações coloniais privilegiadas, que propiciavam mão de obra farta e barata. Com o declínio do Império e a pressão americana, que demandava mais borracha a custos menores, a vantagem inicial perdeu-se. “A questão da borracha foi, ao mesmo tempo, emblemática do poder colonial e um indicativo de sua decadência. Quando quiseram manter o cartel já não tinham mais poder para impedir os americanos de buscar borracha em outros lugares, como fez Ford no Brasil”, diz Emma. Havia ainda o fator ecológico. “Os britânicos exaltaram a civilidade das plantations em contraste com a suposta incivilidade dos seringais, percepção comungada pelas elites cafeicultoras no poder. A política oficial, em especial após a República, comprou essa ideia e promoveu essas plantations, sem dar importância aos conhecimentos locais e às visões dos produtores locais de borracha, que discordavam da promoção da monocultura. Para eles, o extrativismo garantia a perenidade da produção e não destruía a terra e as árvores, ao contrário da opção ‘civilizada’”, analisa a historiadora Rosineide Bentes, da Universidade do Estado do Pará. “A promoção da monocultura colidiu com a concepção ecológica dos seringalistas, para quem preservar a floresta tinha um profundo significado econômico e ecológico. Eles perceberam, antes dos cientistas, que as plantations eram alvo fácil de pragas. A monocultura, assim, não proliferou na Amazônia também porque os produtores acreditavam que ela destruiria seu principal capital: a floresta nativa de goma elástica. Assim, sem se submeter nem à selva, nem às forças industrializantes, por opção própria, eles fizeram história”, acredita a pesquisadora.
Fonte: Pesquisa FAPESP Online
Carlos Haag
Edição Impressa 158 - Abril 2009
O trocadilho é inevitável e, talvez, perdoável: o tempo na história de Henry Wickham sempre foi elástico. Ele surrupiou as sementes da seringueira em 1876, mas apenas em 1895 é que os ingleses resolveram iniciar a plantação da borracha na Malásia em bases comerciais e, assim, só no final de sua vida é que ele ganhou o agradecimento oficial do Império Britânico, virando Sir, a contragosto da rainha Vitória, que o considerava “um homenzinho desagradável”. Por décadas discutiu-se, sem resultados satisfatórios, se ele agiu como um ladrão comum ou era um “homem do seu tempo”, e ele chegou a ganhar o apelido, justo ou injusto, de “pai da biopirataria”. Muito tempo depois, a partir da Eco-92, se começou a discutir com sutilezas essa questão. “Na década anterior prevaleciam, na legislação internacional, os conceitos derivados do farmer’s rights da Organizacão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentacão, fundamentados no princípio do bem comum da humanidade, e propondo que os recursos naturais fossem acessíveis a todos. A discussão agora é se – o Brasil impondo uma lei de acesso muito rígida – eles irão pesquisar em outros países ou então tentarão coletar sem autorização oficial, o que caracteriza a biopirataria. O maior interesse para o desenvolvimento nacional é, na verdade, um grande desafio: transformar toda biopirataria potencial em bioparceria a fim de reforçar as capacidades tecnológicas do país”, avalia Ana Flávia Granja e Barros, professora adjunta da Universidade de Brasília/Instituto de Relações Internacionais. O tempo parece não ter ajudado tanto a recuperar a reputação de Wickham. Teria sido ele o real responsável pela decadência do ciclo brasileiro da borracha?
“Havia, muito antes desse contrabando, um entusiasmo pela ‘teologia natural’, em especial do Império Britânico. Argumentava-se que, se a unidade do Jardim do Éden havia se perdido, o livre comércio permitiria a redescoberta das suas riquezas agrícolas. Daí, em 1851, a Macintosh&Co., a maior manufatureira de borracha britânica, ter presenteado o príncipe Albert, marido da rainha Vitória, com uma barra de borracha em que estava inscrito o poema Charity, de William Cowper, cujos dizeres afirmavam: ‘O ramo do comércio foi criado para associar todos os ramos da humanidade. Cada clima necessita o que outros climas produzem e, assim, oferecem algo para o uso geral de todos’. Roubar sementes, então, poderia ser uma ‘ação nobre’ pelo ‘bem comum’ da humanidade”, explica a historiadora Emma Reisz, do Jesus College, em Oxford, autora de The political economy of empire in the tropics: rubber in the British Empire, que será lançado no final do ano na Inglaterra. “Wickham, por essa razão, nunca viu o contrabando das sementes como um roubo, mas como um ato de patriotismo e salvação pessoal. Muito antes da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), a biopirataria de Henry deu à Inglaterra o primeiro monopólio global de um recurso estratégico na história do homem”, completa Joe Jackson, autor do recém-lançado The thief at the end of the world, biografia de Wickham. Se o homem era desprezado pela nobreza, o fruto de sua aventura encheu de glória o The Royal Botanical Gardens, em Kew (que celebra, este ano, seus 250 anos), uma louvada instituição de pesquisa botânica, que acolheu e incentivou não apenas o furto das sementes brasileiras, mas de muitas outras, entre as quais, por exemplo, a cinchona ou quinina, surrupiada por pesquisadores ingleses do Peru segundo o espírito do “bem comum da humanidade”. Em verdade, o desejo pelo quinino se devia menos ao altruísmo universalista e mais à necessidade imperialista de combater a malária que atacava os soldados britânicos em países distantes, atrapalhando o comércio colonial.
“A parceria entre governos coloniais e jardins botânicos na transferência e no desenvolvimento de plantas úteis funcionava como um benefício mútuo. O subsídio do Estado a esses centros cresceu quando os governos perceberam o potencial estratégico da botânica. Os institutos, por sua vez, retribuíram o investimento nacional pesquisando e aprimorando sementes para as plantations”, explica a historiadora Lucile Brockway, da City University of New York, autora de Science and colonial expansion. “A monocultura tropical em mãos europeias teve um grande avanço, mas também produziu desequilíbrios políticos e ecológicos imensos e com os quais o mundo moderno ainda hoje precisa lidar.” O século XIX, continua a pesquisadora, deu ênfase à “botânica econômica”, ou seja, à “botânica colonial”, e instituições como Kew Gardens, de início percebidas pelo governo como “caprichos reais” ou “divertimento das massas”, ganharam status na hierarquia imperial como “câmara de compensação” na troca de informações botânicas e centro de intercâmbio de plantas pelo Império Britânico, enviando espécimes e sementes para onde houvesse potencial comercial.
Assim, em 1850, quando Thomas Hancock, dono da Macintosh, expressou publicamente a sua preocupação com o monopólio da borracha pelo Brasil, que, afirmava, não era confiável em termos de oferta e preços, Sir William Hooker, seu amigo e diretor de Kew Gardens, prontificou-se a “oferecer toda e qualquer ajuda para quem desejar transferir a seringueira do Brasil para o território imperial”. “A ‘mão invisível’ do mercado, ao que parece, precisava de uma forcinha. Mas obter as mudas brasileiras exigiam conhecimento botânico e coragem para enfrentar a floresta diante de um preço de mercado comparativamente baixo, o que não justificava o esforço”, nota Emma. O governo britânico não se interessou e foi apenas a partir de 1870, por pressão das autoridades inglesas na Índia que necessitavam da borracha, que o India Office, em Londres, passou a considerar o assunto com gravidade, nos moldes do que se fizera com a quinina. Afinal, um relatório oficial sobre a situação no Brasil alertava do perigo de se perder um “bem da humanidade” pelas mãos de “um seringueiro bêbado que, depois de uma noitada de cachaça, poderia destruir todas as árvores em seu caminho”. “Era uma questão de civilismo arrancar a borracha do Brasil e, em 1873, o India Office destinou verba para obter mudas ou sementes da seringueira”, diz Emma.
Várias tentativas foram feitas, mas as sementes não vingavam em Kew, o que abalou o ânimo de Hooker, mesmo ao receber uma carta de Wickham em que prometia ser capaz não apenas de reconhecer a árvore correta, como também de enviar milhares de sementes com segurança para Kew Gardens. Típico aventureiro da época, Henry, aos 27 anos, partiu para a América Central para tentar ficar rico e acabou em Santarém, onde viu in loco a riqueza do boom da borracha. Antes, no Orinoco, aprendera, com índios, a recolher o látex. Seus relatos de viagem, com desenhos das folhas da Hevea, convenceram o India Office de que ele tinha potencial, após deixar seu projeto engavetado por seis meses. Em 1876 Wickham voltou ao Brasil com a mulher, a mãe, o irmão e a cunhada (perdeu aqui boa parte da família, vítima de doenças tropicais), e escreveu a Hooker de Seringal, às margens do Tapajós (não muito distante da futura empresa de Ford) avisando que coletara as sementes. A bordo do navio Amazonas, com 70 mil sementes a bordo, declarou na alfândega brasileira que “levava apenas espécimes exóticos e delicados para o jardim botânico”. Para tanto, contou com o auxílio do cônsul inglês e do “barão de S.”, “muito compreensivo”. “Eles agiram não contra os desejos do governo brasileiro, mas exatamente como se este não existisse e as únicas autoridades naquele canto do mundo fossem os cônsules britânicos”, observa Warren Dean. As sementes chegaram intactas em Londres e foram enviadas para a Ásia britânica.
“Porém, o desenvolvimento de plantations em larga escala naquela região foi lento pela falta de capital e pelo desinteresse dos comerciantes ingleses, que só reagiram quando o potencial da borracha estourou com a indústria de carros”, analisa o economista Aldo Musacchio, do Ibmec São Paulo. Em 1900, as plantações asiáticas produziam apenas quatro toneladas de látex ante as 27 mil toneladas obtidas por meio do extrativismo no Brasil. Em 1916, as plantations britânicas iriam produzir Hevea suficiente para abastecer 95% da demanda mundial por borracha de alta qualidade. A Amazônia entrou em parafuso. “Por que os produtores brasileiros não reagiram? Ao contrário do que se pensa, não houve um ‘erro fatal’ da oligarquia da borracha, mas uma ação ‘otimizada’ dadas as opções existentes”, analisa o economista Zephyr Frank, da Stanford University. “Incapaz de deter o contrabando de sementes, a única opção para os brasileiros seria um grande investimento na produção que afastasse a concorrência incipiente por meio do aumento da produtividade, da importação de mão de obra, diminuição de custos de trabalho e com a organização de plantations. Mas o país, naquele momento, não tinha capacidade de mobilizar esses recursos de capital (nem interesse, por causa do café) e trabalho necessários para virar o jogo”, explica. “Como o mercado da borracha é imprevisível e demorado (acompanha o tempo de crescimento das árvores, entre seis e oito anos), os brasileiros optaram por ‘sentar e esperar’, pois investir em plantations era caro demais e sem garantias; além do mais, o extrativismo era lucrativo a seu modo. A opção era deixar os ingleses invadirem o mercado até o excesso de produção, como ocorreu em 1922.”
O tempo, dessa vez, estava a favor da borracha brasileira. O domínio britânico centrava-se nas relações coloniais privilegiadas, que propiciavam mão de obra farta e barata. Com o declínio do Império e a pressão americana, que demandava mais borracha a custos menores, a vantagem inicial perdeu-se. “A questão da borracha foi, ao mesmo tempo, emblemática do poder colonial e um indicativo de sua decadência. Quando quiseram manter o cartel já não tinham mais poder para impedir os americanos de buscar borracha em outros lugares, como fez Ford no Brasil”, diz Emma. Havia ainda o fator ecológico. “Os britânicos exaltaram a civilidade das plantations em contraste com a suposta incivilidade dos seringais, percepção comungada pelas elites cafeicultoras no poder. A política oficial, em especial após a República, comprou essa ideia e promoveu essas plantations, sem dar importância aos conhecimentos locais e às visões dos produtores locais de borracha, que discordavam da promoção da monocultura. Para eles, o extrativismo garantia a perenidade da produção e não destruía a terra e as árvores, ao contrário da opção ‘civilizada’”, analisa a historiadora Rosineide Bentes, da Universidade do Estado do Pará. “A promoção da monocultura colidiu com a concepção ecológica dos seringalistas, para quem preservar a floresta tinha um profundo significado econômico e ecológico. Eles perceberam, antes dos cientistas, que as plantations eram alvo fácil de pragas. A monocultura, assim, não proliferou na Amazônia também porque os produtores acreditavam que ela destruiria seu principal capital: a floresta nativa de goma elástica. Assim, sem se submeter nem à selva, nem às forças industrializantes, por opção própria, eles fizeram história”, acredita a pesquisadora.
Fonte: Pesquisa FAPESP Online
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terça-feira, 14 de abril de 2009
Acriapa colhe 130 kg de mel de abelhas nativas
A colheita de mel de abelhas nativas, criadas por produtores da APA de Guaraqueçaba, aconteceu de janeiro a março e chegou a marca de 130 kg, 225% a mais que no ano passado. O mel colhido das espécies Jataí, Mandaçaia, Tubuna e Manduri está sendo beneficiado, envasado e comercializado pelos produtores da Acriapa - Associação de criadores de abelhas nativas da APA de Guaraqueçaba - nas reservas naturais da SPVS, em Antonina e Guaraqueçaba. A Acriapa é uma associação formada por 25 produtores, com o apoio da SPVS e da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, e representa uma alternativa de geração de renda compatível com a conservação da natureza. Mais informações pelo telefone (41) 3205-6339.
Fonte: Informativo SPVS
Fonte: Informativo SPVS
Ótima!
"Diz que o Lula va emprestar dinheiro pro FMI. Mudou tudo. O poste mijou no cachorro!"
José Simão na Folha de São Paulo de 12/04/09
José Simão na Folha de São Paulo de 12/04/09
Ciência ainda investiga impactos do derretimento da neve nos Andes sobre a bacia amazônica
Mônica Pinto / Ecoclima
Primeiro glaciólogo brasileiro, professor do Instituto de Geociências da UFRGS e pesquisador do CNPq, Jefferson Cardia Simões chamou a atenção da mídia em 2005, quando se tornou, integrando uma expedição chilena, o primeiro brasileiro a chegar por vias terrestres ao Pólo Sul Geográfico.
Geólogo, Ph.D. em Glaciologia pela Universidade de Cambridge (Inglaterra) e pós-doutor pelo Laboratoire de Glaciologie et Géophysique de l'Environnement (LGGE) du Centre National de la Recherche Scientifique - CNRS (França), ele introduziu no Brasil a ciência glaciológica e a Geografia das Regiões Polares, lecionando nos programas de pós-graduação em Geociências e Geografia da UFRGS, onde orienta alunos de mestrado e doutorado.
Simões criou o Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da UFRGS, centro brasileiro de estudos sobre a neve e o gelo; coordena projetos do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e foi coordenador-geral da rede de pesquisas Antártica, as Mudanças Globais e o Brasil, no período entre 2002 e 2006.
O brasileiro marcou presença em 19 expedições polares e, recentemente, liderou a primeira expedição científica nacional ao interior do continente antártico. O cientista coordena a participação brasileira nas investigações de testemunhos de gelo antárticos, que possibilitaram mensurar a concentração dos gases de efeito estufa antes das medições modernas, iniciadas somente em 1958.
Segundo ele, uma série destes testemunhos de gelo possibilita o conhecimento quanto à evolução e variabilidade naturais do CO2 (dióxido de carbono), CH4 (metano) e também do N2O (óxido nitroso), ao longo dos últimos 800 mil anos.
“São esses estudos a demonstrarem que, desde o início da Revolução Industrial, a concentração de CO2 já aumentou 36% e a de metano quase 130%”, diz Jefferson Simões. “Estes estudos também mostram a variabilidade natural do sistema climático, ajudando a separarmos esta daquela induzida pelo homem”.
Um dos conferencistas no III Seminário Brasileiro sobre Mudanças Climáticas e Sequestro de Carbono, que acontece de 14 a 17 deste mês, em Foz do Iguaçu (PR), ele vai discorrer sobre “O registro das variações de dióxido de carbono e metano nas amostras de gelo da Antártica e da Groenlândia” (veja mais informações sobre o evento na página inicial do Instituto Ecoclima - www.ecoclima.org.br).
Confira sua entrevista:
Ecoclima - O que há de verdade e de mito no derretimento do gelo planetário, causado pelas mudanças climáticas?
Jefferson Cardia Simões - Existe na imprensa uma grande confusão pelo uso generalizado do termo “calota polar”. Temos fenômenos bastante diferentes ocorrendo nas duas regiões polares e no gelo nas montanhas nas regiões temperadas e nos trópicos.
O Ártico é um oceano congelado circundado por terra. Esse gelo está sumindo rapidamente e já temos previsões que o Oceano Ártico não vá mais estar congelado no auge do verão já em 2050. Isto tem sérias consequências para o clima do planeta e para os organismo vivos que lá habitam – como o urso polar -, mas não afetará o nível dos mares, visto que o mar congelado já está flutuando.
Na Antártica, o descongelamento é somente na parte mais quente do continente (a Península Antártica) e onde só está menos de 2% do volume de gelo total do continente. O descongelamento aí é rápido. Por outro lado, ainda não temos evidência de qualquer descongelamento do resto do gelo do manto antártico. É bom lembrar que 90% do volume de gelo do planeta está na Antártica.
As geleiras que estão desaparecendo rapidamente são as das regiões montanhosas como Andes, Himalaia, Alpes etc. Algumas geleiras da Bolívia e do Peru perderam mais de 25% de sua área nos últimos 40 anos. A Groenlândia, na parte sul, apresenta também um rápido derretimento.
Ecoclima - No Brasil, qual é, afinal, o entendimento científico quanto à possibilidade de inundação das cidades litorâneas?
Jefferson - Os quadros mais realistas mostram um aumento do nível do mar de até 60 cm até o ano 2.100. Os piores cenários chegam a 1,2 m. Evidentemente, isto implica em altos custos sociais e econômicos, afetando moradias nas regiões mais baixas, mudanças na estrutura portuaria, maiores custos na defesa costeira. É, claro, serão as populações mais carentes que sofrerão o impacto desse aumento do nível do mar.
Ecoclima - Já se prevê impacto do derretimento sobre a oferta de água potável, notoriamente hoje já escassa. Como isso se processa?
Jefferson - Em muitas regiões costeiras, a água potável provem de aquíferos formados por sedimentos - areia, por exemplo. Conforme o mar avança continente adentro, uma cunha de água salgada também avança subterraneamente, contaminando o aqüífero, ou seja, a água torna-se mais salgada.
Ecoclima - Sabe-se que a bacia amazônica sofre direta influência das neves andinas. O que a Ciência já previu em relação aos impactos da transformação nessas influências?
Jefferson - Na verdade, não se sabe. Os estudos sobre este assunto iniciaram este ano, sob a liderança do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, instalado no Instituto de Geociências da UFRGS. Questões a serem respondidas: como o aumento do derretimento das geleiras andinas afetará as nascentes dos rios amazônicos? Quais as consequências para a vazão desses rios? E para os processos erosivos e carga de sedimentos transportados a jusante?
Fonte: Ecoclima
Primeiro glaciólogo brasileiro, professor do Instituto de Geociências da UFRGS e pesquisador do CNPq, Jefferson Cardia Simões chamou a atenção da mídia em 2005, quando se tornou, integrando uma expedição chilena, o primeiro brasileiro a chegar por vias terrestres ao Pólo Sul Geográfico.
Geólogo, Ph.D. em Glaciologia pela Universidade de Cambridge (Inglaterra) e pós-doutor pelo Laboratoire de Glaciologie et Géophysique de l'Environnement (LGGE) du Centre National de la Recherche Scientifique - CNRS (França), ele introduziu no Brasil a ciência glaciológica e a Geografia das Regiões Polares, lecionando nos programas de pós-graduação em Geociências e Geografia da UFRGS, onde orienta alunos de mestrado e doutorado.
Simões criou o Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da UFRGS, centro brasileiro de estudos sobre a neve e o gelo; coordena projetos do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e foi coordenador-geral da rede de pesquisas Antártica, as Mudanças Globais e o Brasil, no período entre 2002 e 2006.
O brasileiro marcou presença em 19 expedições polares e, recentemente, liderou a primeira expedição científica nacional ao interior do continente antártico. O cientista coordena a participação brasileira nas investigações de testemunhos de gelo antárticos, que possibilitaram mensurar a concentração dos gases de efeito estufa antes das medições modernas, iniciadas somente em 1958.
Segundo ele, uma série destes testemunhos de gelo possibilita o conhecimento quanto à evolução e variabilidade naturais do CO2 (dióxido de carbono), CH4 (metano) e também do N2O (óxido nitroso), ao longo dos últimos 800 mil anos.
“São esses estudos a demonstrarem que, desde o início da Revolução Industrial, a concentração de CO2 já aumentou 36% e a de metano quase 130%”, diz Jefferson Simões. “Estes estudos também mostram a variabilidade natural do sistema climático, ajudando a separarmos esta daquela induzida pelo homem”.
Um dos conferencistas no III Seminário Brasileiro sobre Mudanças Climáticas e Sequestro de Carbono, que acontece de 14 a 17 deste mês, em Foz do Iguaçu (PR), ele vai discorrer sobre “O registro das variações de dióxido de carbono e metano nas amostras de gelo da Antártica e da Groenlândia” (veja mais informações sobre o evento na página inicial do Instituto Ecoclima - www.ecoclima.org.br).
Confira sua entrevista:
Ecoclima - O que há de verdade e de mito no derretimento do gelo planetário, causado pelas mudanças climáticas?
Jefferson Cardia Simões - Existe na imprensa uma grande confusão pelo uso generalizado do termo “calota polar”. Temos fenômenos bastante diferentes ocorrendo nas duas regiões polares e no gelo nas montanhas nas regiões temperadas e nos trópicos.
O Ártico é um oceano congelado circundado por terra. Esse gelo está sumindo rapidamente e já temos previsões que o Oceano Ártico não vá mais estar congelado no auge do verão já em 2050. Isto tem sérias consequências para o clima do planeta e para os organismo vivos que lá habitam – como o urso polar -, mas não afetará o nível dos mares, visto que o mar congelado já está flutuando.
Na Antártica, o descongelamento é somente na parte mais quente do continente (a Península Antártica) e onde só está menos de 2% do volume de gelo total do continente. O descongelamento aí é rápido. Por outro lado, ainda não temos evidência de qualquer descongelamento do resto do gelo do manto antártico. É bom lembrar que 90% do volume de gelo do planeta está na Antártica.
As geleiras que estão desaparecendo rapidamente são as das regiões montanhosas como Andes, Himalaia, Alpes etc. Algumas geleiras da Bolívia e do Peru perderam mais de 25% de sua área nos últimos 40 anos. A Groenlândia, na parte sul, apresenta também um rápido derretimento.
Ecoclima - No Brasil, qual é, afinal, o entendimento científico quanto à possibilidade de inundação das cidades litorâneas?
Jefferson - Os quadros mais realistas mostram um aumento do nível do mar de até 60 cm até o ano 2.100. Os piores cenários chegam a 1,2 m. Evidentemente, isto implica em altos custos sociais e econômicos, afetando moradias nas regiões mais baixas, mudanças na estrutura portuaria, maiores custos na defesa costeira. É, claro, serão as populações mais carentes que sofrerão o impacto desse aumento do nível do mar.
Ecoclima - Já se prevê impacto do derretimento sobre a oferta de água potável, notoriamente hoje já escassa. Como isso se processa?
Jefferson - Em muitas regiões costeiras, a água potável provem de aquíferos formados por sedimentos - areia, por exemplo. Conforme o mar avança continente adentro, uma cunha de água salgada também avança subterraneamente, contaminando o aqüífero, ou seja, a água torna-se mais salgada.
Ecoclima - Sabe-se que a bacia amazônica sofre direta influência das neves andinas. O que a Ciência já previu em relação aos impactos da transformação nessas influências?
Jefferson - Na verdade, não se sabe. Os estudos sobre este assunto iniciaram este ano, sob a liderança do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, instalado no Instituto de Geociências da UFRGS. Questões a serem respondidas: como o aumento do derretimento das geleiras andinas afetará as nascentes dos rios amazônicos? Quais as consequências para a vazão desses rios? E para os processos erosivos e carga de sedimentos transportados a jusante?
Fonte: Ecoclima
Mata atlântica pode ter 150 mil km² restaurados
9/4/2009
Projeto quer restabelecer floresta em uma área equivalente ao Estado do Ceará até 2050; atualmente, bioma conta com 7% da cobertura original
Alexandre Gonçalves
Um pacto para restaurar 150 mil quilômetros quadrados da mata atlântica - uma área equivalente ao Estado do Ceará - foi lançado ontem em São Paulo. A meta é recuperar 30% da área original do bioma até 2050. Atualmente, floresta bem preservada corresponde a 7% da cobertura original da mata atlântica, sem contar trechos que demandam proteção e cuidado especial (13%). A iniciativa pretende restaurar 10% do bioma original que desapareceu.
Um grupo técnico desenhou um mapa com as regiões onde pode ocorrer a restauração. Solos com pouco potencial agrícola ou às margens de rios receberam prioridade, pois presume-se que não será difícil convencer agricultores e pecuaristas a reflorestar tais áreas.
"Temos solos de baixa produtividade que geram apenas R$ 200 por hectare", explica Ricardo Ribeiro Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal (Lerf) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e um dos responsáveis pelo estudo. "Com manejo adequado, seria possível obter R$ 1.500 por hectare de floresta restaurada."
Miguel Calmon, coordenador-geral do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, afirma que a iniciativa não apontará infratores do Código Florestal, que desmataram além do permitido. "Não queremos uma caça às bruxas", diz Calmon. "Queremos mostrar que vale a pena para o agricultor recuperar a mata." Um livro organizado por pesquisadores do Lerf reúne o conhecimento necessário para restaurar a mata.
Calmon explica que o financiamento das iniciativas não virá de filantropia. "Queremos criar mecanismos para que os produtores recebam pelos serviços ambientais prestados pela floresta preservada nas suas propriedades." A mata atlântica garante o abastecimento de água para quase 130 milhões de pessoas no País. "Também vamos buscar interessados em comprar créditos de carbono", afirma Calmon.
Mais de 50 entidades aderiram, incluindo organizações não governamentais, empresas, universidades e governos. O site www.pactomataatlantica.org.br recolherá as inscrições. O pedido depende de aprovação. A adesão implica cumprimento das diretrizes apresentadas no protocolo do pacto, disponível no site.
Fonte: Portal do Meio Ambiente
Projeto quer restabelecer floresta em uma área equivalente ao Estado do Ceará até 2050; atualmente, bioma conta com 7% da cobertura original
Alexandre Gonçalves
Um pacto para restaurar 150 mil quilômetros quadrados da mata atlântica - uma área equivalente ao Estado do Ceará - foi lançado ontem em São Paulo. A meta é recuperar 30% da área original do bioma até 2050. Atualmente, floresta bem preservada corresponde a 7% da cobertura original da mata atlântica, sem contar trechos que demandam proteção e cuidado especial (13%). A iniciativa pretende restaurar 10% do bioma original que desapareceu.
Um grupo técnico desenhou um mapa com as regiões onde pode ocorrer a restauração. Solos com pouco potencial agrícola ou às margens de rios receberam prioridade, pois presume-se que não será difícil convencer agricultores e pecuaristas a reflorestar tais áreas.
"Temos solos de baixa produtividade que geram apenas R$ 200 por hectare", explica Ricardo Ribeiro Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal (Lerf) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e um dos responsáveis pelo estudo. "Com manejo adequado, seria possível obter R$ 1.500 por hectare de floresta restaurada."
Miguel Calmon, coordenador-geral do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, afirma que a iniciativa não apontará infratores do Código Florestal, que desmataram além do permitido. "Não queremos uma caça às bruxas", diz Calmon. "Queremos mostrar que vale a pena para o agricultor recuperar a mata." Um livro organizado por pesquisadores do Lerf reúne o conhecimento necessário para restaurar a mata.
Calmon explica que o financiamento das iniciativas não virá de filantropia. "Queremos criar mecanismos para que os produtores recebam pelos serviços ambientais prestados pela floresta preservada nas suas propriedades." A mata atlântica garante o abastecimento de água para quase 130 milhões de pessoas no País. "Também vamos buscar interessados em comprar créditos de carbono", afirma Calmon.
Mais de 50 entidades aderiram, incluindo organizações não governamentais, empresas, universidades e governos. O site www.pactomataatlantica.org.br recolherá as inscrições. O pedido depende de aprovação. A adesão implica cumprimento das diretrizes apresentadas no protocolo do pacto, disponível no site.
Fonte: Portal do Meio Ambiente
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Carbono do desmatamento colocaria o Brasil entre os maiores poluidores do mundo
9/4/2009
Alana Gandra
Rio de Janeiro, RJ - As emissões de carbono provenientes do desmatamento são significativas e colocariam o Brasil, caso fossem contabilizadas, na quarta ou quinta posição entre os maiories emissores de carbono do Mundo.
Por causa disso, segundo o presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado de Carbono (Abemc), Flávio Gazani, os países industrializados deverão exercer forte pressão para incluir os projetos de conservação florestal no novo acordo que deverá substituir o Protocolo de Quioto, a partir de 2012. “Por isso, eu acho que o país vai sofrer uma pressão muito grande nas próximas negociações”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.
Para o presidente da Abemc, as nações industrializadas procuram incluir esse tipo de projeto no protocolo “mais preocupadas com a nossa floresta, ainda com grandes áreas preservadas. Porque as suas [florestas] quase não existem atualmente”.
O governo brasileiro é contra a inclusão dos projetos de conservação florestal no acordo, por uma questão de soberania nacional, explicou Gazani. “A posição do Itamaraty tem sido historicamente contra a inclusão de projetos de desmatamento ou de conservação florestal. Até por receio de algum tipo de moção anti-desenvolvimentista, conservacionista, imposta ao nosso país”, afirmou.
Nenhum país pode, atualmente, incluir projetos de conservação florestal no Protocolo de Quioto como projetos de redução de emissões de gases poluentes, o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). O protocolo permite apenas duas modalidades de projetos de MDL na área florestal: reflorestamento de áreas degradadas ou aflorestamento, ou seja, o plantio em áreas que nunca tiveram árvores. “Conservação florestal, ou desmatamento evitável, não é elegível como projeto de MDL”, disse Flávio Gazani.
Os projetos que não são aceitos pelo Protocolo de Quioto são aceitos pelo mercado voluntário, que funciona em paralelo ao mercado regulado, e é movido pelas iniciativas de empresas que têm medidas voluntárias de redução de emissão.
Um exemplo é o projeto do governo do Amazonas que recebeu financiamento do Bradesco, por meio do programa Banco do Planeta. Foi criada a Fundação Amazonas Sustentável, considerada uma ferramenta fundamental na implementação da Política Estadual de Mudanças Climáticas no estado. Ela tem por objetivo combater o desmatamento, além de contribuir para a construção de uma relação harmônica entre o homem e a floresta, por meio da promoção de projetos de uso sustentável dos recursos florestais.
O novo tratado climático que substituirá o Protocolo de Quioto deve ser concluído até dezembro próximo, na reunião da Organização das Nações Unidas, programada para ocorrer em Copenhague, na Dinamarca.
Fonte: Portal do Meio Ambiente
Alana Gandra
Rio de Janeiro, RJ - As emissões de carbono provenientes do desmatamento são significativas e colocariam o Brasil, caso fossem contabilizadas, na quarta ou quinta posição entre os maiories emissores de carbono do Mundo.
Por causa disso, segundo o presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado de Carbono (Abemc), Flávio Gazani, os países industrializados deverão exercer forte pressão para incluir os projetos de conservação florestal no novo acordo que deverá substituir o Protocolo de Quioto, a partir de 2012. “Por isso, eu acho que o país vai sofrer uma pressão muito grande nas próximas negociações”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.
Para o presidente da Abemc, as nações industrializadas procuram incluir esse tipo de projeto no protocolo “mais preocupadas com a nossa floresta, ainda com grandes áreas preservadas. Porque as suas [florestas] quase não existem atualmente”.
O governo brasileiro é contra a inclusão dos projetos de conservação florestal no acordo, por uma questão de soberania nacional, explicou Gazani. “A posição do Itamaraty tem sido historicamente contra a inclusão de projetos de desmatamento ou de conservação florestal. Até por receio de algum tipo de moção anti-desenvolvimentista, conservacionista, imposta ao nosso país”, afirmou.
Nenhum país pode, atualmente, incluir projetos de conservação florestal no Protocolo de Quioto como projetos de redução de emissões de gases poluentes, o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). O protocolo permite apenas duas modalidades de projetos de MDL na área florestal: reflorestamento de áreas degradadas ou aflorestamento, ou seja, o plantio em áreas que nunca tiveram árvores. “Conservação florestal, ou desmatamento evitável, não é elegível como projeto de MDL”, disse Flávio Gazani.
Os projetos que não são aceitos pelo Protocolo de Quioto são aceitos pelo mercado voluntário, que funciona em paralelo ao mercado regulado, e é movido pelas iniciativas de empresas que têm medidas voluntárias de redução de emissão.
Um exemplo é o projeto do governo do Amazonas que recebeu financiamento do Bradesco, por meio do programa Banco do Planeta. Foi criada a Fundação Amazonas Sustentável, considerada uma ferramenta fundamental na implementação da Política Estadual de Mudanças Climáticas no estado. Ela tem por objetivo combater o desmatamento, além de contribuir para a construção de uma relação harmônica entre o homem e a floresta, por meio da promoção de projetos de uso sustentável dos recursos florestais.
O novo tratado climático que substituirá o Protocolo de Quioto deve ser concluído até dezembro próximo, na reunião da Organização das Nações Unidas, programada para ocorrer em Copenhague, na Dinamarca.
Fonte: Portal do Meio Ambiente
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Florestas de Uso Múltiplo
Uma proposta inovadora de produção florestal, aliando preservação ambiental com uso econômico, foi desenvolvida pelo pesquisador Guenji Yamazoe e está sendo aplicada em propriedades rurais no estado de São Paulo.
Trata-se das “florestas de uso múltiplo”. Por este modelo de reflorestamento, investe-se na diversificação de produtos, em busca de um manejo sustentável da área produtiva. Para o produtor rural, que necessita do retorno econômico, o modelo também pode ser adotado em áreas de reserva legal, que podem ser exploradas comercialmente. A idéia é que o produtor obtenha retorno econômico já durante a fase de crescimento da floresta, primeiro com a intercalação de cultivos anuais (algodão e amendoim, por exemplo), depois com frutas e finalmente com extração de madeira, com cada um destes grupos sendo plantado dentro de uma faixa, obedecendo a critérios ecológicos e econômicos.
A curto prazo, em quatro a cinco anos, já haverá produção de frutos com potencial econômico, como araçá, uvaia, cambuci, cabeludinha, grumixama, etc., além de sementes de espécies pioneiras, que têm crescimento rápido e vida curta. A médio prazo, ou seja em 10 – 15 anos, o produtor também obterá rentabilidade com a extração de madeira branca, como guapuruvu, tamboril e caixeta, além da produção de palmito juçara, cujos frutos podem ser aproveitados para a produção de alimento. A longo prazo, em 30 anos, já haverá a possibilidade de produzir madeira nobre de alto valor comercial, como jatobá, jequitibá e guanandi.
A sociedade brasileira e mundial não pode mais perder tempo com lamentações sobre o desmatamento. É necessário investir no replantio de árvores nativas. Se isto for feito seguindo alguns critérios, fornecerá um ótimo retorno econômico. Após os investimentos iniciais e depois que a floresta estiver em pé, bastará manejá-la de forma sustentada (ou seja, não retirando mais do que aquilo que é produzido anualmente) para obter-se uma rentabilidade regular e sem prazo para acabar, como os juros de uma aplicação financeira.
Monika Naumann
Eng. Florestal / Gestora Ambiental
http://matasnativas.wordpress.com/
Fonte: Painel Florestal
Trata-se das “florestas de uso múltiplo”. Por este modelo de reflorestamento, investe-se na diversificação de produtos, em busca de um manejo sustentável da área produtiva. Para o produtor rural, que necessita do retorno econômico, o modelo também pode ser adotado em áreas de reserva legal, que podem ser exploradas comercialmente. A idéia é que o produtor obtenha retorno econômico já durante a fase de crescimento da floresta, primeiro com a intercalação de cultivos anuais (algodão e amendoim, por exemplo), depois com frutas e finalmente com extração de madeira, com cada um destes grupos sendo plantado dentro de uma faixa, obedecendo a critérios ecológicos e econômicos.
A curto prazo, em quatro a cinco anos, já haverá produção de frutos com potencial econômico, como araçá, uvaia, cambuci, cabeludinha, grumixama, etc., além de sementes de espécies pioneiras, que têm crescimento rápido e vida curta. A médio prazo, ou seja em 10 – 15 anos, o produtor também obterá rentabilidade com a extração de madeira branca, como guapuruvu, tamboril e caixeta, além da produção de palmito juçara, cujos frutos podem ser aproveitados para a produção de alimento. A longo prazo, em 30 anos, já haverá a possibilidade de produzir madeira nobre de alto valor comercial, como jatobá, jequitibá e guanandi.
A sociedade brasileira e mundial não pode mais perder tempo com lamentações sobre o desmatamento. É necessário investir no replantio de árvores nativas. Se isto for feito seguindo alguns critérios, fornecerá um ótimo retorno econômico. Após os investimentos iniciais e depois que a floresta estiver em pé, bastará manejá-la de forma sustentada (ou seja, não retirando mais do que aquilo que é produzido anualmente) para obter-se uma rentabilidade regular e sem prazo para acabar, como os juros de uma aplicação financeira.
Monika Naumann
Eng. Florestal / Gestora Ambiental
http://matasnativas.wordpress.com/
Fonte: Painel Florestal
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Não é necessário derrubar mais nenhuma árvore não só na Amazônia, como em nenhum outro bioma , diz pesquisador
Por Aldrey Riechel, do Amazônia.org.br Resultado de uma pesquisa de pós-graduação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o geógrafo Eduardo Girardi, desenvolveu um estudo sobre os principais temas da questão agrária no Brasil. O resultado foi a elaboração de mais de 300 mapas identificando geograficamente a luta pela terra no Brasil levando em consideração aspectos de problemas como pobreza, desflorestamento, concentração fundiária, violência no campo e também a luta pela terra, produção agropecuária dentre outros. O trabalho foi desenvolvido usando conceitos da Geografia Crítica que busca identificar os atores da sociedade que geram conflitos, como por exemplo, a expansão da pecuária na Amazônia. Foram mapeadas as violências no campo e as ocupações e assentamentos desde o fim da década de 1970 e início da década de 1980, para também servir de como um banco de informações geográfica. O trabalho está inteiramente disponível na internet. (www.fct.unesp.br/nera/atlas) Confira abaixo a entrevista exclusiva com Eduardo Girardi: Amazonia.org.br - Qual foi o principal objetivo da pesquisa e realização do Atlas da Questão Agrária do Brasil? Eduardo Girardi - A tese de doutorado é mais ampla do que o Atlas. Ela também engloba discussões sobre a proposta teórico-metodológica para uma Cartografia Geográfica Crítica. Assim como esta proposta teórico-metodológica, o Atlas da Questão Agrária Brasileira está inserido na corrente da Geografia Crítica, pois enfatiza os problemas do campo Brasileiro. Neste contexto e, falando especificamente do Atlas, o objetivo foi desenvolver uma análise dos principais temas da questão agrária no Brasil a partir de uma compreensão mais ampla do que a abordagem economicista, que vê o campo como lugar unicamente de produção e cujo objetivo principal é aumentar a produtividade e a rentabilidade. Como trabalho geográfico, nosso enfoque foi o espaço e os territórios, de forma que procuramos a expressão territorial dos problemas. A análise do espaço e do território não exclui a sociedade, pelo contrário, analisar esses aspectos é estudar como a sociedade constrói espaços e territórios por meio de seu trabalho, produção, morada, crenças, posicionamentos políticos, trocas, relacionamentos etc. Isso permitiu selecionar temas diversificados enfocando os problemas sócio-territoriais da questão agrária no Brasil. Em resumo, o objetivo foi analisar os problemas da questão agrária sob a ótica da Geografia com a ajuda dos mapas e com isso tornar esses problemas mais evidentes e compreensíveis aos governos, movimentos sociais camponeses, academia e aos outros setores da sociedade interessados. A finalidade foi contribuir ao debate da questão agrária como necessária à sociedade e inerente ao planejamento territorial e desenvolvimento do país. Amazonia.org.br - Porque utilizar conceitos da Geografia crítica como metodologia para a elaboração do trabalho? Eduardo Girardi - A Geografia Crítica teve como base, no seu surgimento, o referencial marxista. Atualmente, embora este referencial ainda seja importante nessa corrente teórica da Geografia, ele não é único. As análises da Geografia Crítica estão baseadas mais amplamente na teoria social, que considera os problemas da sociedade para a promoção da mudança social. Sendo assim, a Geografia crítica está comprometida com a mudança e por isso enfatiza os problemas sociais. Porém, como a especificidade da Geografia é o espaço geográfico, a análise geográfica enfatiza o papel da sociedade na produção do espaço e como esse espaço interfere na organização da sociedade em um processo dialético. Eduardo Girardi - Neste contexto, a partir do espaço, o homem produz territórios por meio de relações de poder. Esses territórios são definidos e delimitados pelos objetivos dos grupos de interesse, dos movimentos sociais, das igrejas, dos indivíduos, do Estado e das empresas - os quais são os sujeitos territoriais. Esta noção de espaço e de território foi desenvolvida no interior da Geografia Crítica. Desta forma, estudar a questão agrária a partir da Geografia Crítica permite procurar e identificar esses sujeitos territoriais, suas ações e configurações no território nacional no que se refere à questão agrária. Um exemplo é a territorialização do agronegócio nos cerrados e na fronteira agropecuária da Amazônia. Esta é a importância dos conceitos da Geografia Crítica: procurar os problemas que realmente afetam a sociedade e geram desigualdade social, pobreza e concentração de riqueza e poder. Amazonia.org.br - O Atlas foi construído usando conceitos críticos sobre a questão agrária do país. Como o estudo contribui para o debate sobre o tema da reforma agrária? Eduardo Girardi - Este mapa é fruto da interpretação da questão agrária, uma representação do território Brasileiro na qual tento mostrar as principais estruturas da questão agrária do país. Por ser um mapa de síntese sua elaboração foi bastante desafiadora. Ele foi elaborado a partir dos diversos mapas que compõem o Atlas. Nem todos os temas presentes no Atlas estão representados diretamente no mapa, mas ajudaram a compreender as estruturas representadas, e por isso estão lá de forma indireta. O mapa "O Brasil Agrário" mostra estruturas como a oposição norte-sul entre as ocupações de terra e o assentamento das famílias; a região do leste do Pará e norte do Maranhão, onde a violência no campo é mais intensa; a região onde predomina o agronegócio nos cerrados e na borda da Amazônia e a região de agricultura mais dinâmica e diversificada do país, localizada no Centro-Sul. Em relação aos demais mapas do Atlas, eles contribuem por três motivos: a) representam a expressão territorial dos diversos temas, o que permite análises e ações mais pontuais; b) permitem verificar novas informações em análises de conjunto; c) confirmam ou refutam características já conhecidas da questão agrária, precisando seu aspectos territoriais. Por exemplo, com o mapeamento foi possível confirmar a relação entre grande estabelecimento e subutilização das terras verificada na fronteira agropecuária; outra constatação importante é proveniente do mapeamento dos tipos de assentamentos: "reformadores" e "não reformadores". Os não reformadores, referentes às unidades de conservação consideradas pelos governos como assentamentos, projetos de colonização e reconhecimento de posse, são predominantes principalmente na Amazônia. Esses assentamentos também são importantes para o fortalecimento do campesinato, principalmente o Amazônico, mas eles não podem, no conjunto das ações de reforma agrária no país, suplantar os assentamentos em regiões de ocupação consolidada, como o Sudeste, Sul e Nordeste. Por fim, outro exemplo é o mapa que representa a população que reside em zonas urbanas e está envolvida em atividades agropecuárias. Este processo é configurado principalmente na região do agronegócio, demonstrando a tendência de intensificação das relações capitalistas no campo promovida por este sistema, já que coincide com a região onde predominam as relações de assalariamento no campo, representada em um outro mapa. Amazonia.org.br - Foi possível identificar e traçar um perfil do campesinato amazônico pela análise geográfica? Eduardo Girardi - As metodologias de análise geográfica são muito diversas, podendo abordar desde o indivíduo e a construção de seu espaço quotidiano até análises macro, em escala mundial. Na análise desenvolvida no Atlas, realizada por meio de leituras e mapeamentos, é possível identificar e confirmar algumas características particulares ao campesinato da Amazônia. Eduardo Girardi - O campesinato amazônico é formado a partir das investidas para a ocupação da Amazônia, tem presença marcante dos camponeses nordestinos, que migraram para a região em busca de melhores condições de produção e vida. Populações ribeirinhas caboclas e migrantes do Sul também são representativas neste campesinato. Projetos de colonização do Estado, assentamentos rurais e pequenas posses foram as principais formas pelas quais este campesinato se implantou na região. As atividades extrativistas e a pequena produção agropecuária para abastecimento regional são características marcantes. Como no campesinato do Nordeste, no campesinato amazônico os baixos rendimentos e os indicadores sociais abaixo da média expressam a qualidade de vida precária dessa população. A violência sofrida por este campesinato é intensa e é resultado da dos avanços do latifúndio sobre o território camponês. Amazonia.org.br - A partir do trabalho, foi possível apresentar alguma proposta para a melhoria da questão agrária do país e principalmente da Amazônia? Eduardo Girardi - Embora o objetivo do trabalho não tenha sido a elaboração de um programa de desenvolvimento agrário para o Brasil ou a estruturação de uma proposta de política pública, nos posicionamos em relação ao problema a partir de nossos referenciais teóricos e constatações. O trabalho tem características mais de diagnóstico, mas é totalmente possível desenvolvê-lo par o nível mais pragmático que é a política pública. A assunção geral de nossas colocações políticas é de que a realização da reforma agrária é uma questão de opção política, o que não é novidade, mas representa um posicionamento frente aos que dizem ser desnecessária a sua realização. Outro posicionamento que assumimos é de que a reforma agrária deve ser conduzida pela priorização incondicional do campesinato pelas políticas do Estado, preterindo o agronegócio*. Isso implica em promover outro tipo de desenvolvimento, diferente daquele permitido pelo modelo agrícola predominante hoje. O campesinato deve ter sua função social reconhecida e a ele deve ser dada proteção contra o capitalismo no campo, que visa a sua desintegração e pauperização. O campo deve ser visto como um lugar de produção e reprodução social. Além disso, a questão agrária faz parte do emaranhado de problemas estruturais nos quais está ancorado o subdesenvolvimento do país. Questão urbana e questão ambiental fazem parte deste emaranhado interdependente. Com relação especificamente à Amazônia, nossas constatações são de que não é necessário derrubar mais nenhuma árvore não só na Amazônia, mas em nenhum outro bioma. Mesmo assim, as áreas passíveis de crescimento da produção agropecuária e susceptíveis de reforma agrária são de milhões de hectares. Em resumo, a ocupação da Amazônia deve ser cessada imediatamente e deve-se proceder com a promoção da melhoria de vida das pessoas que aí se estabeleceram, promovendo assim o desenvolvimento. Amazônia.org.br - E como seria possível desenvolver a região sem derrubar nenhuma árvore? Eduardo Girardi - Vejamos o que podemos concluir da dinâmica geral de apropriação de novas terras e o uso das terras no Brasil. Em 1998 havia na Amazônia Legal 55,8 milhões de hectares de terras exploráveis não exploradas; segundo os dados do INPE [Instituto Nacional de Pesquisa Espacial], de 1998 até 2007, foram desflorestados na região 54,5 milhões de hectares (terras inexploráveis que se tornaram exploráveis) e entre 1996 e 2006 a área total de lavouras e de pastagens na Amazônia Legal cresceu 23 milhões de hectares, dos quais 45% relativos às pastagens. Esses três dados nos permitem contradizer todo discurso que mencione a necessidade de desflorestamento na Amazônia (ou em qualquer outra região) para a obtenção de novas terras para a produção agropecuária. Vejamos: se parte dos 55,8 milhões de hectares de terras exploráveis não exploradas da Amazônia Legal verificados em 1998 passassem a ser explorados desde então para a expansão dos 23 milhões de hectares de lavouras e pastagens ocorridas na região entre 1996 e 2006, ainda sobrariam, em 2007, cerca de 32,2 milhões de hectares disponíveis para a expansão da agropecuária regional só pelo aproveitamento das terras exploráveis não exploradas de 1998. Contudo, além das terras exploráveis não exploradas que havia em 1998, o intenso processo de desflorestamento continua até hoje, o que nos permite somar, ao saldo de 32,2 milhões de hectares de terras exploráveis não exploradas, os 54,5 milhões de hectares inutilmente desflorestados na Amazônia entre 1998 e 2007. Com isso, chegamos ao total de 86,7 milhões de hectares de terras exploráveis não exploradas disponíveis em 2007 para a expansão da agropecuária na Amazônia Legal, cuja área total dos imóveis rurais em 2003 era de 177 milhões de hectares e a área total de lavouras e pastagens em 2006 perfazia 77,3 milhões de hectares. Desta forma, mantendo-se o modelo técnico agrícola atual, a pecuária extremamente extensiva praticada na região e, considerando-se a mesma taxa de crescimento da agropecuária verificada entre 1996 e 2006, que foi de 4% ao ano, os 86,7 milhões de hectares disponíveis seriam suficientes para o crescimento contínuo da agropecuária na Amazônia Legal pelos próximos 22 anos, sem que fosse necessário tocar na floresta. é claro que consideramos neste contexto uma situação ideal em que não haja nenhum desvio nos dados; não ocorra nenhum progresso técnico na agropecuária nos próximos 22 anos e em que a taxa de crescimento da área ocupada pela agropecuária seja constante. O fato é que, apesar de ser um cenário ideal e que dificilmente todos os elementos considerados apresentarão a evolução considerada no cálculo, os possíveis desvios de cada um desses três elementos podem ser compensados mutuamente, um pelo outro, de forma que um cenário muito próximo pode se confirmar. A mudança no sistema de pecuária extremamente extensiva pode influenciar profundamente esta evolução, visto que 45% da área adicionada entre 1996 e 2006 são de pastagens, o que corresponde a 10,5 milhões de hectares. Desta forma, cabe aos cinco próximos governos, criar alternativas para o desenvolvimento da agropecuária na Amazônia Legal que evitem ocupação de novas áreas. Os dados da não utilização da terra corroboram com os dados das "posses" para evidenciar o processo de especulação fundiária na fronteira agropecuária. Isso nos leva, mais uma vez, a salientar a urgência de repensar a ocupação da Amazônia. A necessidade de abertura de novas terras na Amazônia é absolutamente infundada. O único objetivo da abertura de novas terras é a exploração de madeira e a apropriação de novas terras por grandes posseiros unicamente como reserva de valor. A produção de alimentos para o desenvolvimento social Brasileiro não exige a ocupação de mais nenhum centímetro quadrado da Amazônia ou outro bioma. Além disso, a grande proporção de terras exploráveis não exploradas em grandes estabelecimentos na Amazônia Legal indica a consolidação, em um futuro próximo, da parceira latifúndio-agronegócio. Esses grandes imóveis serão utilizados para produção do agronegócio assim que as terras forem necessárias. Os grandes imóveis com terras não exploradas são os futuros locus do agronegócio. Amazônia.org.br - Uma parte do trabalho tem função didática, como vocês pretendem incentivar a aplicação dessa parte do trabalho? Eduardo Girardi - Por se tratar de um trabalho acadêmico desenvolvido com financiamento público (Fapesp) e de interesse social, optamos por disponibilizá-lo livremente na internet. As pessoas e instituições (inclusive as editoras de livros didáticos) que quiserem utilizar o trabalho e os mapas o podem fazer livremente. Todos os mapas possuem uma nota de autorização de reprodução, desde que não alterados. Desta forma, esperamos que os mapas sejam utilizados em universidades e em escolas para o ensino e o debate do tema. Também estamos disponíveis para propostas de publicação integral ou parcial do trabalho em meio impresso, o que pode permitir o alcance de outros públicos e maior divulgação das idéias.
Fonte: http://www.cliptime.com.br/services/clippingm/noticia_email.asp?a=CONFEA&b=3070DDEF&c=8/4/2009
Fonte: http://www.cliptime.com.br/services/clippingm/noticia_email.asp?a=CONFEA&b=3070DDEF&c=8/4/2009
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