Mônica Pinto / Ecoclima
Primeiro glaciólogo brasileiro, professor do Instituto de Geociências da UFRGS e pesquisador do CNPq, Jefferson Cardia Simões chamou a atenção da mídia em 2005, quando se tornou, integrando uma expedição chilena, o primeiro brasileiro a chegar por vias terrestres ao Pólo Sul Geográfico.
Geólogo, Ph.D. em Glaciologia pela Universidade de Cambridge (Inglaterra) e pós-doutor pelo Laboratoire de Glaciologie et Géophysique de l'Environnement (LGGE) du Centre National de la Recherche Scientifique - CNRS (França), ele introduziu no Brasil a ciência glaciológica e a Geografia das Regiões Polares, lecionando nos programas de pós-graduação em Geociências e Geografia da UFRGS, onde orienta alunos de mestrado e doutorado.
Simões criou o Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da UFRGS, centro brasileiro de estudos sobre a neve e o gelo; coordena projetos do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e foi coordenador-geral da rede de pesquisas Antártica, as Mudanças Globais e o Brasil, no período entre 2002 e 2006.
O brasileiro marcou presença em 19 expedições polares e, recentemente, liderou a primeira expedição científica nacional ao interior do continente antártico. O cientista coordena a participação brasileira nas investigações de testemunhos de gelo antárticos, que possibilitaram mensurar a concentração dos gases de efeito estufa antes das medições modernas, iniciadas somente em 1958.
Segundo ele, uma série destes testemunhos de gelo possibilita o conhecimento quanto à evolução e variabilidade naturais do CO2 (dióxido de carbono), CH4 (metano) e também do N2O (óxido nitroso), ao longo dos últimos 800 mil anos.
“São esses estudos a demonstrarem que, desde o início da Revolução Industrial, a concentração de CO2 já aumentou 36% e a de metano quase 130%”, diz Jefferson Simões. “Estes estudos também mostram a variabilidade natural do sistema climático, ajudando a separarmos esta daquela induzida pelo homem”.
Um dos conferencistas no III Seminário Brasileiro sobre Mudanças Climáticas e Sequestro de Carbono, que acontece de 14 a 17 deste mês, em Foz do Iguaçu (PR), ele vai discorrer sobre “O registro das variações de dióxido de carbono e metano nas amostras de gelo da Antártica e da Groenlândia” (veja mais informações sobre o evento na página inicial do Instituto Ecoclima - www.ecoclima.org.br).
Confira sua entrevista:
Ecoclima - O que há de verdade e de mito no derretimento do gelo planetário, causado pelas mudanças climáticas?
Jefferson Cardia Simões - Existe na imprensa uma grande confusão pelo uso generalizado do termo “calota polar”. Temos fenômenos bastante diferentes ocorrendo nas duas regiões polares e no gelo nas montanhas nas regiões temperadas e nos trópicos.
O Ártico é um oceano congelado circundado por terra. Esse gelo está sumindo rapidamente e já temos previsões que o Oceano Ártico não vá mais estar congelado no auge do verão já em 2050. Isto tem sérias consequências para o clima do planeta e para os organismo vivos que lá habitam – como o urso polar -, mas não afetará o nível dos mares, visto que o mar congelado já está flutuando.
Na Antártica, o descongelamento é somente na parte mais quente do continente (a Península Antártica) e onde só está menos de 2% do volume de gelo total do continente. O descongelamento aí é rápido. Por outro lado, ainda não temos evidência de qualquer descongelamento do resto do gelo do manto antártico. É bom lembrar que 90% do volume de gelo do planeta está na Antártica.
As geleiras que estão desaparecendo rapidamente são as das regiões montanhosas como Andes, Himalaia, Alpes etc. Algumas geleiras da Bolívia e do Peru perderam mais de 25% de sua área nos últimos 40 anos. A Groenlândia, na parte sul, apresenta também um rápido derretimento.
Ecoclima - No Brasil, qual é, afinal, o entendimento científico quanto à possibilidade de inundação das cidades litorâneas?
Jefferson - Os quadros mais realistas mostram um aumento do nível do mar de até 60 cm até o ano 2.100. Os piores cenários chegam a 1,2 m. Evidentemente, isto implica em altos custos sociais e econômicos, afetando moradias nas regiões mais baixas, mudanças na estrutura portuaria, maiores custos na defesa costeira. É, claro, serão as populações mais carentes que sofrerão o impacto desse aumento do nível do mar.
Ecoclima - Já se prevê impacto do derretimento sobre a oferta de água potável, notoriamente hoje já escassa. Como isso se processa?
Jefferson - Em muitas regiões costeiras, a água potável provem de aquíferos formados por sedimentos - areia, por exemplo. Conforme o mar avança continente adentro, uma cunha de água salgada também avança subterraneamente, contaminando o aqüífero, ou seja, a água torna-se mais salgada.
Ecoclima - Sabe-se que a bacia amazônica sofre direta influência das neves andinas. O que a Ciência já previu em relação aos impactos da transformação nessas influências?
Jefferson - Na verdade, não se sabe. Os estudos sobre este assunto iniciaram este ano, sob a liderança do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, instalado no Instituto de Geociências da UFRGS. Questões a serem respondidas: como o aumento do derretimento das geleiras andinas afetará as nascentes dos rios amazônicos? Quais as consequências para a vazão desses rios? E para os processos erosivos e carga de sedimentos transportados a jusante?
Fonte: Ecoclima
terça-feira, 14 de abril de 2009
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