Por Ladislau Dowbor*
Curiosamente, quando fazemos o que todos fazem, e não nos sentimos felizes, conseguimos nos convencer que os culpados somos nós. Parece que não somos normais. Mas é importante entender que o sentimento de frustração é geral. Manifesta-se neste sentimento difuso de perda de controle sobre a nossa realidade, sobre o que queremos fazer, sobre o mundo que nos cerca. O trabalho não é sofrimento: batalhar o futuro, fazer coisas que dão certo, ainda que com mil dificuldades, brincar com os amigos, tudo isto é essencial para o nosso senso de equilíbrio.
O que isto sugere de maneira ampla, é que as dinâmicas econômicas atuais geram simultâneamente mais produtos para elites, e menos sentimento de realização individual. O que nos venderam como visão de mundo, é que a felicidade consiste em ter em torno de nós apenas o esposo ou esposa, e os filhinhos, todos em idade simpática, um apartamento de dois quartos, sala, sofá e televisão. As opções de vida são relativas à cor do sofá, ao modelo da geladeira.
É importante ver a dupla face deste problema. Primeiro, todos devem ter o direito a ter os dois quartos, a saúde, a comida na mesa. Inclusive, assegurar o necessário a todos é uma condição preliminar para que possamos viver a vida em paz. Já dizia Marat na revolução francesa: “nada será legitimamente teu, enquanto a outrem faltar o necessário”. Este objetivo consiste sem dúvida num ideal social maior pelo qual temos de batalhar.
Mas este “necessário” não é suficiente. Quando temos os dois quartos e o sofá, a primeira coisa que queremos fazer é sair, é fazer alguma coisa. E este fazer alguma coisa envolve outras pessoas, convívio, festas, brincadeiras, esporte, coisas que nos façam sentir vivos. A sociedade atomizada em micro-unidades, que descartou os idosos para o asilo, os deficientes mentais para o manicômio, os revoltados para a cadeia, os pobres para a periferia, é uma sociedade desintegrada que parou de assumir a construção dos seus próprios espaços sociais, apenas administra privilégios.
Entender o desafio da pobreza, - coisa que devemos fazer sistematicamente - pode ser mais fácil do que entender a desarticulação social e o malestar que se generaliza. Este sistema leva, de um lado, a uma privação de grande parte da população mundial dos bens essenciais para uma sobrevivência com um mínimo de dignidade, e por outro lado, gera um perfil de produção e formas de organização socio-econômica que não trazem respostas aos que sairam desta privação. Quando vemos as cidades-dormitórios, os bairros sem uma praça ou áreas de sociabilidade, lazer e convívio, os condomínios fechados com as suas cercas eletrificados, arames farpados e guardas privados, temos de ir além do problema do modelo ser elitista e privar os pobres do essencial: a própria lógica é absurda.
Hoje as grandes empreiteiras de São Paulo, por exemplo, formam um pacto corrupto com políticos, e levam à construção de uma cidade inteiramente organizada em função do automóvel, chegando, entre túneis e elevados, a formar vários andares de vias, enquanto batalham contra qualquer uso público do espaço urbano, considerado “desperdício”. Um rio limpo não gera contratos, enquanto um rio poluido gera imensos contratos de despoluição, de desassoreamento, de canalização. A lógica das habitações é criar o máximo de construções para pequenas famílias, desarticulando o convívio entre gerações. De certa maneira, a capacidade técnica e gerencial das empresas evoluiu, mas a redução dos objetivos ao lucro imediato torna estes avanços socialmente pouco úteis. Isto porque a empresa não pensa no convívio social e nas infraestruturas correspondentes, mas na capacidade de compra individual do cliente.
É interessante a notícia de que uma atualização do famoso Kinsey Report de cinquenta anos atrás, quando foi feito o primeiro grande estudo sobre o comportamento sexual da população nos EUA, mostra que hoje se faz sexo incomparavelmente menos do que há meio século. Isto com a pílula, a permissividade, cinemas pornôs, camisinha, out-doors de poses as mais extravagantes em qualquer esquina, motéis por toda parte. Parecemos inundados por sexo. No entanto, parece que o comportamento amoroso se retrai. É viável uma mulher sentir um grande ardor sexual por seu simpático barrigudo de chinelo e camiseta, sentados anos seguidos no mesmo sofá, vendo as mesmas bobagens da tv? Trancar um casal num casulo é uma idéia romântica para vender como publicidade, e permite vender muitos apartamentos, mas é mortal para o convívio matrimonial.
Estamos aqui no limite do quanto um economista pode responsavelmente penetrar em áreas alheias, ainda que faça parte da tradição do economista poder dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto. O que aqui tentamos delinear, é o fato das dinâmicas econômicas poderem ter um imenso impacto sobre a vida pessoal, a felicidade do casal, o nosso interesse amoroso.
Não é a família que está doente: é o processo de reprodução social e econômico que se tornou absurdo, levando a família de rodo.
O programa americano de TV “Sixty Minutes” levou recentemente ao ar uma reportagem sobre fast-food, a indústria do hamburguer. Estas empresas pesquisaram e concluiram que a excitação das papilas gustativas na criança está centrada no açucar, na gordura e no sal. Assim, temos o refrigerante que acompanha o hamburguer e as batatas fritas. Até aí, tudo bem. Mas as grandes redes como Burger King, McDonald e outros estão fazendo gigantescas campanhas de televisão para fazer as crianças preferir este tipo de comida, e constituem hoje as maiores redes de distribuição de brinquedos e outros brindes para estimular este consuno. Hoje, a grande ofensiva é para se instalar nas escolas, banindo as nutricionistas. Tentar oferecer frutas, legumes e outras comidas tradicionais ao lado deste tipo de estabelecimento, é covardia.
O resultado prático é que hoje, entre hamburgers e salgadinhos, a obesidade atinge 30% dos jóvens norte-americanos. Não é difícil imaginar o que é a vida de uma menina que, com 13 anos é obesa. Ou o que esta vida será. O programa entrevistou o dono de uma grande empresa de publicidade de fast-food, que visa público infantil, e inclusive utiliza crianças na geração da publicidade: perguntado se não achava covardia empurrar este tipo de comida para crianças que precisam de alimentação variada para crescer normalmente, o dono da empresa, um psicólogo, corrigiu: “nos não empurramos produtos, nos informamos as crianças para que possam fazer uma escolha responsável”. [1]
No conjunto, isto significa que somos empurrados sim a nos comportar de acordo com as necessidades das empresas, com os interesses econômicos, em vez das atividades econômicas responderem ás nossas necessidades.
Não é à toa que os gastos mundiais com publicidade atingem somas astronômicas, hoje da ordem de quase um trilhão de dólares. As empresas gastam este dinheiro, porque a publicidade funciona. Não porque somos bobos, mas porque somos influênciaveis, provavelmente uma das características mais ricas do ser humano, porque vinculada à sensibilidade.[2]
É patético as pessoas caminharem solitárias sobre uma esteira, que tiveram que comprar, e que depois de uma semana fica parada num canto, porque já não há mais espaço para jogar bola na vizinhança. Qual o sentido de pedalar numa bicicleta montada na garagem quando podemos utilizar bicicletas de verdade, para passear, através de ciclovias e controle de trânsito. Fabricamos tanta coisa inútil, geramos tanto desperdício, com um ritmo de trabalho que nos esfola e nos priva da simples alegria de viver.
Há lugar para vida inteligente
Havia um tempo em que os brados pela mudança vinham das esquerdas. Hoje, um prêmio nobel de economia como Stiglitz, que foi economista chefe do Banco Mundial, diz que o sistema como está não pode continuar. Hazel Henderson, uma das economistas mais importantes hoje no planeta, diz que a competição não serve mais como regulador geral da economia, e desenvolve a visão do win-win, literalmente ganha-ganha, mostrando que pode-se desenvolver um sistema onde todos ganham. David Korten, que denuncia o absurdo gerado pelos interesses das empresas transnacionais, não vem de movimentos de contestação, vem dos programas americanos de ajuda ao desenvolvimento, e elaborou uma das críticas mais bem estruturadas da forma de organização econômica que hoje prevalece. J. K. Galbraith aponta para uma “sociedade justa”. Peter Drucker, o antigo guru da administração empresarial, hoje dirige uma organização não-governamental e busca os rumos da “sociedade pós-capitalista”. E faz uma constatação óbvia mas poderosa: “não haverá empresas saudáveis numa sociedade doente”.[3]
A lista é muito grande. As pessoas que conhecem as dinâmicas do sistema, porque ajudaram a montá-lo, hoje tendem a tomar um pouco de recúo, buscam o sentido das coisas. O o sentido é relativamente claro: a economia deve servir-nos, para que tenhamos uma vida com qualidade, e não constituir um mecanismo complexo acessível apenas aos espertalhões, que termina por nos jogar em conflitos entre ricos e pobres, criando angústia e insegurança.
Esta mudança passa por uma alteração de formas de organização social. Em particular, temos de organizar nas nossas cidades sistemas descentralizados e participativos de decisão sobre como organizamos os nossos espaços urbanos, pois sem isto continuaremos vítimas das incorporadoras, imobiliárias, empreteiras e outros especuladores urbanos. Não se trata aqui apenas do fato que é um processo corrupto: é um processo corrupto que organiza a sociedade de forma pouco inteligente.
Não basta reorganizar o nosso espaço urbano, para que seja user-friendly como dizem hoje os informáticos. Temos de reorganizar o tempo, principal recurso não renovável de que dispomos para viver de maneira agradável e inteligente. Reduzir a jornada para 6 horas já seria um bom passo, abrindo possibilidades para o convívio, o lazer, a cultura, a família, e com isto dinamizando um consumo mais rico e mais inteligente.[4]
Temos também de aprender a nos organizar. A máquina do Estado e o mundo empresarial são insuficientes, simplesmente porque ambos devem servir à sociedade, e uma sociedade não organizada não tem como impor as suas prioridades. As ONGs, as organizações de base comunitária, as associações dos mais diversos tipos precisam desempenhar um papel chave, e tornar-se parte do cotidiano de cada um de nós.
Temos de democratizar a informação. A descentralização das formas de comunicação, com rádios comunitárias, emissoras locais de TV, constitui um elemento essencial de criação de um vínculo local, de promoção cultura, de integração dos diversos grupos e atores, de divulgação de iniciativas. A principal novela é a nossa própria vida, e vale a pena.
Temos de criar mecanismos que nos permitam resgatar o controle das nossas poupanças. Há inúmeros exemplos de bom funcionamento de formas inovadoras, que vão desde as formas socialmente responsável de aplicações financeiras desenvolvidas nos Estados Unidos, até as cagnottes na França, o crédito solidário no Brasil. Os bancos trabalham com o nosso dinheiro, e devemos aprender a fazer valer o nosso direito em assegurar que as nossas poupanças sejam utilizadas em iniciativas socialmente úteis, e não em especulação.
E temos, óbviamente, de resgatar o imenso fosso social que o processo capitalista está gerando, entre ricos e pobres. Não haverá paz social, não haverá tranquilidade nas ruas, não haverá convívio enriquecedor nas comunidades enquanto dezenas de milhões de pessoas continuarem numa miséria dramática e revoltante.
E a família? A família tem justamente de ajudar na reconstrução deste entorno econômico, social, urbanístico, trabalhista, cultural que a viabilize. Não bastam discursos ideológicos de que a família é o esteio da sociedade. É preciso viabilizá-la, e com isto viabilizar a própria sociedade desnorteada que criamos.
[1] O Instituto Alana tem desenvolvideo um amplo trabalho de conscientização sobre a publicidade destinada a crianças. Ver http://www.alana.org.br
[2] Sobre este tema, ver L. Dowbor, O. Ianni e Hélio Silva - Os desafios da comunicação - Vozes, Petrópolis 1999, em particular o nosso Economia da Comunicação; na mesma coleção, Os desafios do consumo, Vozes, 2008
[3] Joseph Stiglitz - A Globalização e os seus descontentes; Hazel Henderson - Construindo um Mundo onde Todos Ganham, editora Cultrix; Davida Korten -O Mundo Pós-Corporativo - Editora Vozes, Petrópolis, 2000; J.K. Galbraith - A Sociedade Justa - Editora Campus, Rio de janeiro 1996; para escritos recentes de Peter Drucker, ver www.pfdf.org
[4] Um trabalho interessante sobre o tema é Do tempo do trabalho aos tempos da cidade, escrito por Maria-Carmen Belloni, Jean Yves Boulin e Annie Junter-Loiseau, capítulo de As novas fronteiras da desigualdade:hhomens e mulheres no mercado de trabalho, coletânea organizada por Margaret Maruani e Helena Hirata, Senac, São Paulo 2003
* Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e da UMESP, e consultor de diversas agências das Nações Unidas. É autor de “Democracia Econômica”, “A Reprodução Social”, “O Mosaico Partido”, pela editora Vozes, além de “O que Acontece com o Trabalho?” (Ed. Senac) e co-organizador da coletânea “Economia Social no Brasil“ (ed. Senac) Seus numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social estão disponíveis no site http://dowbor.org
Fonte: Envolverde
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário