Por Ladislau Dowbor*
Nas sociedades tradicionais, havia uma certa continuidade na organização da produção, de uma geração para outra. Na era rural de agricultura famíliar, a inserção produtiva ocorria naturalmente, pelo fato de haver coincidência do domicílio e do espaço produtivo. O filho ia gradualmente aprendendo com o pai as fainas agrícolas, organizavam-se diversas formas de divisão de trabalho na família. Em outros termos, e mantendo a nossa visão de que a família constitui um processo de reprodução social, o trabalho representava uma continuidade entre gerações. Esta dimensão não desapareceu. É importante lembrar que o mundo rural representa ainda a metade da população mundial, e de que a metade da população mundial ainda cozinha com lenha. Às vezes ficamos tão concentrados na ponta da sociedade, nos executivos apressados e nos toyotismos modernos, que passamos a achar que só existe isto, e esquecemos que o mundo articula de maneira complexa eras e ritmos diferenciados. No Brasil, com 17 milhões de trabalhadores, o mundo rural ainda representa o maior setor empregador do país. A indústria tem uns 13 milhões de trabalhadores.
Mas o mundo do nosso convívio é hoje essencialmente urbano. E nas cidades, são relativamente raros os casos de continuidade profissional, salvo no caso de pequenas empresas famíliares. Não há mais coincidência entre o espaço residencial e o espaço de trabalho, e cada vez mais a casa é para onde se volta cansado à noite, e de onde saem sonolentos pais e filhos para a labuta diária de manhãzinha. Há subúrbios que constituem hoje cidades-dormitório, mas de forma geral as nossas casas viraram casas-dormitório.
Com a esterilização da poupança das famílias, estas ficam com muito pouca iniciativa sobre o seu trabalho. A pessoa não “organiza” as suas atividades, “busca” emprego no espaço anônimo da cidade. Com o aprofundamento da divisão do trabalho na sociedade, há empresas especializadas para cada coisa, e o acesso ao que nos é necessário na vida cotidiana passa a depender de renda. Não nos damos conta, às vezes, de que na vida famíliar o bolo se fazia em casa, frequentemente o pão, quando hoje cada vez menos se cozinha em casa. O que perdemos, em grande parte, é o sentimento de que a nossa vida depende de nós, do nosso esforço e gosto de iniciativa. Sentimo-nos empurrados por forças cujos mecanismos nos escapam.
Em Imperatriz do Maranhão, o meu pai idoso - já nos noventa - era cuidado por uma jóvem de 80, que além de cuidar do meu pai aproveitava a horta que os netos montaram para ela, em estrados de palmeiras rachadas ao meio, para cultivar cebolinha, salsa, ervas diversas, que ia todo dia vender numa cestinha, pela vizinhança. Cultivava assim não apenas ervas, mas um círculo de amigos. Gerava a sua própria renda, mas cada um na família ajudava. Imagem do passado? Não necessariamente, pois hoje com as novas tecnologias há amplos espaços de colaboração famíliar ou de vizinhança, resgatando novas formas de articulação do trabalho, novas solidariedades.
Não é a volta a um passado bucólico que estmos aqui sugerindo. É essencial entender que o espaço da família era um espaço onde se fazia coisas juntos, como era o caso das comuniddes. O desaparecimento desta dimensão da organização social gera uma sociedade de indivíduos que rosnam uns para os outros na luta pelo dinheiro, e esquecem que a qualidade de vida é uma construção social. Vencer na vida, da forma como nos apresentam diariamente na televisão, é um processo de guerra contra os outros, e resulta em morarmos num condomínio caro e cercado de guaritas. É o sucesso.
Construir uma sociedade civilizada passa por dinâmicas sociais mais complexas, que até as empresas mais retrógradas estão começando a aprender, na linha da responsabilidade social e ambiental.
De certa forma, este raciocínio nos leva ao fato que o trabalho não é apenas uma tarefa técnica que consiste em produzir o mais rápido possível, o mais possível, buscando o máximo de dinheiro possível. O trabalho deve constituir um elemente essencial da organização do convívio social. A ruptura profunda gerada, entre o universo do trabalho e o universo famíliar, tende naturalmente a desestruturar esta última. E o trabalho, privado da sua dimensão afetiva de relacionamento, na correria do just-in-time, na malvadeza cientificamente assumida do lean-and-mean, na patologia cristã de que só é virtuoso o que nos faz sofrer, o que nos sacrifica, gera gradualmente um deserto onde vemos pouco sentido no que fazemos no emprego, a não ser no dinheiro do fim do mês, na compra de mais uma televisão, na troca do sofá.
A sociabilidade no trabalho é funcional, interessada, presa à hierarquia de quem manda e de quem obedece, eivada de rivalidades, ciumes, cotoveladas discretos, sorrisos amarelos. A sabedoria popular brasileira, neste caso, é rica: “cuidado com o calo que você pisa, pode pertencer a um saco que amanhã você terá de puxar”.
Não se trata aqui de um olhar sombrio. Pelo contrário, as tecnologias, os avanços científicos, nos permitem hoje resgatar uma outra cultura do trabalho. As barreiras que criamos são rigorosamente artificiais. Porque uma criança vê o seu pai e a sua mãe desaparecerem diariamente para um espaço misterioso chamado “trabalho”, sem nunca ter oportunidade de visitar as suas empresas, de ver o que fazem? É natural a portaria com todas as suas seguranças? É natural o constrangimento com que uma mãe recebe no emprego um telefonema do filho, do marido? Afinal o trabalho deve ser para nós, ou nós para o trabalho?
Muitíssima gente está mudando os seus enfoques no mundo. O executivo uniformizado de ataché-case, caneta Mont Blanc, e outros apetrechos correspondentes, - versão sofisticada do homem-sanduiche, ostentando um cartaz de sou melhor que você - está sendo gradualmente substituido por gente que se veste à vontade, e busca viver, inclusive no trabalho. Muitas empresas têm hoje salas de sesta, para que o trabalhador possa tomar uma soneca quando precise. A redução do leque hierárquico está na ordem do dia. A qualidade de vida no emprego é amplamente discutida. O filme Beleza Americana, ainda que um pouco forçado, faz parte desta tomada de consciência da forma absurda como estamos sendo organizados para sermos eficientes para a produção, e inúteis para a vida.
A pressão pela redução da jornada de trabalho, essencial para melhorar a nossa produtividade, e para resgatar o elo temporal entre a vida famíliar, a vida profissional e atividades sociais complementares, está gradualmente voltando a constituir uma reivindicação social de peso, como foi a luta pela jornada de 8 horas há décadas atrás.
Na cidade de Lausanne, na Suiça, a prefeita decidiu mudar o tratamento dado ao idoso que vive só: em vez de colocá-lo numa clínica, com enfermeira, papinha e televisão, fez com a ajuda de estudantes universitários uma pesquisa que lhe permitiu identificar vizinhos de cada idoso, dispostos a ajudá-lo. Com um pequeno salário e um pouco de treinamento, organizou na cidade uma rede de solidariedade que lhe permitiu economizar recursos públicos, e melhorar o capital social, o simples gosto de vida das pessoas. Não há dúvida que uma enfermeira especializada, numa clínica bem equipada, saberia ministrar a papinha de maneira mais eficiente (e com custos muito maiores, o que contribui para aumentar o Pib). Mas é disto que se trata? Na Polônia, vimos prédios onde o andar térreo é reservado para pequenos apartamentos onde os idosos podem ficar perto da família que mora nos andares de cima, e ao mesmo tempo guardar certa privacidade. Organizar o convívio social é assim tão complicado?
De certa maneira, trata-se de desarticular um mecanismo perverso, onde o acesso às coisas elementares da vida exige cada vez mais dinheiro, as famílias devem se organizar para maximizar a renda, os filhos já entram na primeira infância na filosofia da competição, pois estão se preparando para a vida, carregando as suas imensas sacolas de material escolar. Perde-se o convívio famíliar, a sociabilidade comunitária, gera-se um bando de zumbis eficientes que não param mais para perguntar o mais evidente: estamos todos correndo para onde?
Trata-se, evidentemente, de inverter a equação. Não devemos organizar as nossas vidas para o trabalho, mas organizar o trabalho para que as nossas vidas sejam agradáveis. A economia é um meio, não é um fim.
Utopia? Há uma década, ainda se media os países apenas de acordo com o Pib, na linha das estatísticas do Banco Mundial. Os indicadores de desenvolvimento humano (IDH), a partir de 1990, passaram a comparar também a qualidade de vida, ao acrescentar às comparações dados de saúde e de educação. Na metodologia Calvert-Henderson, no ano 2000, está se passando a avaliar a eficiência das nações a partir da qualidade de vida dos seus cidadãos, em torno de 12 grupos de indicadores: educação, emprego, energia, meio-ambiente, saúde, direitos humanos, renda, infraestrutura, segurança nacional, segurança pública, lazer e habitação.[1]
Isto nos leva ao conceito de produtividade social, ou de produtividade sistêmica. Um plano de saúde, ao maximizar o ritmo de rotação de pacientes por médico, está gerando um taylorismo social que sem dúvida se demostra muito eficiente em termos micro-ecnômicos. Esta eficiência é medida em termos de rentabilidade da seguradora ou do banco que controla o conjunto. E o resultado prático, em termos sociais, é uma saúde deficiente, pois o que assegura a produtividade social da saúde é muito mais o esforço preventivo do que o luxo das instalações hospitalares. Em outros termos, quando hoje falamos em responsabilidade social e ambiental das empresas, levamos cada administrador a levantar um pouco os olhos, para além dos muros da empresa, e a pensar simplesmente: isto é útil para a sociedade?
O Instituto Souza Cruz publicou em janeiro 2003 “Marco Social: Educação para Valores”. O Instituto Souza Cruz é mantido pela Souza Cruz, que por sua vez pertence à British American Tobacco, que investe anualmente centenas de milhões dólares em publicidade para convencer jóvens a fumar: a população alvo predileta é a de 14 anos, quando o vínculo com a nicotina se torna praticamente assegurado para o resto da vida. A publicação, bastante luxuosa, começa com uma citação de Anísio Teixeira (!) sobre os valores, e a diretora do Instituto, no capítulo “Educação para Valores”, afirma que Flávio de Andrade, presidente da Souza Cruz, “nutria uma grande preocupação com o acesso de crianças e adolescentes menores de 18 anos a cigarro, álcool e drogas ilícitas”.
Quem não ficaria comovido? No entanto, um economista tradicional nos saberá explicar que a Souza Cruz gera empregos, dinamiza a plantação de fumo, provoca a expansão de clínicas de tratamento de câncer, estimula a venda de produtos para branquear os dentes, patrocina belíssimas corridas de fórmula 1. Houve até um relatório que demostrou que o cigarro, ao acelerar a morte dos idosos, reduzia o déficit da previdência social, e portanto melhorava as contas nacionais. O que não se faz pela economia!
A visão que queremos aqui esboçar, é que a transformação da família pertence a um conjunto de mudanças mais amplas, e que não se trata apenas de lamentar a sua dissolução: trata-se de repensar o processo de rearticulação do nosso tecido social.
No belíssimo filme Janelas da Alma, Wim Wenders, que já nos deu tantas obras primas de cinema, faz uma afirmação profunda: “Humanity is craving for meaning“, a humanidade anseia pelo sentido das coisas. De certa maneira, o sentido das coisas se resgata numa articulação mais ampla dos diversos universos, do indivíduo, da família, da comunidade, do trabalho, das esferas econômicas, politicas e culturais. Os sentimentos de perda de iniciativa e controle sobre as nossas vidas, de individualismo feroz, de vale-tudo por dinheiro, são tanto mais absurdos quanto o enriquecimento da sociedade permitiria justamente dispormos de mais tempo para a família, de mais convívio social, em clima menos violento.
O nosso sistema sabe aumentar a produção, ou pelo menos sabia, antes do domínio dos gigantes financeiros e da globalização selvagem. Mas a organização social capaz de tornar este aumento de produção socialmente útil depende de dinâmicas totalmente diferentes das dinâmicas de mercado. A vida não se resume a uma corrida desesperada para equilibrar a conta no banco com as contas do shopping. A construção da qualidade de vida - inclusive a sobrevivência da família - constituem um processo de articulação social que não resultará automáticamente dos mecanismos de mercado ou do eventual enriquecimento individual.
Referenciais individuais e sociais
Não é tão difícil assim colocar-se no lugar do jóvem. Sai da escola sem nunca ter visitado uma empresa, uma repartição pública, uma ONG. A separação radical entre as fases de estudo e do trabalho, produz uma geração de jóvens desorientados, à procura da sua utilidade na vida. Se cruzarmos esta situação com as dinâmicas do trabalho vistas acima, a ausência de perspectivas torna-se muito forte, a não ser em alguns grupos privilegiados. Na realidade, no processo produtivo onde os conhecimentos passam a desempenhar um papel preponderante, em vez de estudo e trabalho serem etapas distintas da vida, devem crescentemente constituir um processo articulado onde aquisição de conhecimentos e a sua aplicação produtiva devem emriquecer-se permanentemente.
Sentir-se inútil numa fase da vida em que o jóvem chega disposto a fazer e acontecer, gera sem dúvida um sentimento de profunda frustração. Poder fazer uma coisa útil constitui um favor, alguém deu um emprego. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que no conjunto, o who you know (quem você conhece) tornou-se um fator mais importante de avanço profissional do que o what you know (o quê você conhece, as suas competências). O mundo para o jóvem passa a ser visto como um universo opaco e fechado, gerando desânimo e passividade.
Esta tendência tem de ser colocada numa perspectiva mais ampla. As nossas crianças e os nossos jóvens são criados num referencial de família muito frágil: com os dois pais no trabalho, o trabalho distante da casa, casais frequentemente separados, o silêncio no binômio sofá-televisão: constrói-se assim muito pouco balizamento entre o bem e o mal, muito pouco sentido de vida.
Um outro universo que contribuía muito para a construção de valores era a rua, a vizinhança. Ali, não era ainda o mundo¸ mas também já não era a família, alí a criança e o jóvem testavam a sua presença social, delimitavam gradualmente os valores da amizade, o peso das rivalidades, construiam os seus espaços de sociabilidade. Hoje, nenhuma mãe em sã consciência diz à criança que vá brincar na rua. Fica sossegada quando as crianças estão sentadas no sofá, comendo salgadinho, e vendo “vale tudo por dinheiro”. Porque na rua é o perigo, são as drogas, as gangues, os acidentes de carro, o medo. Não inserimos mais as crianças no mundo, buscamos apenas protegê-las. E quando chega o momento inevitável de sua inserção, desabam sobre elas desafios difíceis de suportar.
Os pais perdidos entram em intermináveis discussões sobre se devem ser mais permissivos, ou colocar mais limites, sorrir ou gritar, e terminam, quando têm dinheiro, lamentando-se com o analista. O analista pode sem dúvida ajudar quando os problemas são individuais, mas não resolverão grande coisa quando se trata de um processo socialmente desestruturador.
A escola pequena, de bairro, frequentada por pessoas que convivem de uma maneira na escola, e de outra nas ruas da vizinhança, mas pertencendo ao mesmo tecido de relações sociais, era outro espaço de construção de referências. Boa parte disto subsiste no interior. Nas grandes cidades, e frente a uma construção escolar onde se buscam absurdas economias de escala (quanto maior, mais barato), gera-se um universo de gente que só se encontra na escola. Os universos sociais do local de residência e do local de estudo só se cruzam eventualmente. Na própria classe média, é patético ver mães que passam horas no trânsito para levar uma criança a brincar com outra no outro lado da cidade, porque já não aguenta a solidão em casa. E no outro lado da cidade, o coleguinha terá os mesmos video-games, o mesmo “vale tudo por dinheiro” na televisão. Se juntarmos os efeitos de desestruturação do referencial famíliar, da ausência do referencial de vizinhança, e da perda da presença social local da escola, e acrescentarmos o cinismo dos valores martelados horas a fio na televisão, que valores queremos que eles tenham?
Os pais ficam indignados: eles bebem, eles fumam, eles se drogam, eles transformam o sexo numa aeróbica banalizada, eles não vêm sentido nas coisas…O que é que nos fizemos para dar sentida às suas vidas? Todos nós estamos ocupados em ganhar a vida, em subir nos degraus absurdos do sucesso¸ como é que as crianças vão entendem o nosso sacrifício como útil?
A compreensão de que se matar de trabalho para construir uma vida sem sentido, ainda que com a garagem que ostenta um belo carro, e entulhada de esteiras de ginástica e outras relíquias de entusiasmos consumistas passageiros, sem tempo para fazer as diversas coisas que poderiam ser agradáveis, ou belas, - filtra gradualmente para dentro das nossas consciências, ainda que continuemos todos a correr sem rumo. Será que os nossos filhos realmente não vêm o absurdo das nossas próprias vidas? E que rumo isto aponta para elas? A verdade é que a vida reduzida a uma corrida individual pelo sucesso econômico, com a ilusão de que tendo sucesso, e portanto dinheiro, compraremos o resto, é uma absurda ilusão que nos levou à civilização de guetos de riqueza e miséria que hoje vivemos.
É significativo que em muitos lugares jóvens, e até crianças, às vezes com apoio dos professores - outra classe á procura do sentido do que ensina - estão arregaçando as mangas e começando a tomar iniciativas organizadas. Vimos na Itália um movimento de crianças pela recuperação das praças. Um filme-reportagem feito pelas próprias crianças mostra a passeata, a negociação com a prefeitura, e o resgate progressivo de praças transformadas em estacionamento, para que voltem a ter água, árvores, espaço para brinquedos e jogos, uma dimensão de estética, de lazer, de convívio. Em muitas cidades já há câmaras-mirins, e não se podem aprovar projetos de espaços públicos sem o aporte do interesse organizado das crianças. Em muitos lugares, foram organizados trajetos seguros, acompanhando as principais rotas das crianças entre as escolas e lugares de lazer, parar melhorar a sua mobilidade e sentimento de liberdade: a tecnologia é simples, são aqueles passinhos pintados na calçada, semáforos, algum reforço de policiamento. O que estas experiências têm em comum, é o sentimento, por parte das crianças, de estarem recuperando o seu direito à cidade, à cidadania.
Em Valparaíso, vimos uma experiência de crianças de rua que, com o apoio de uma ONG, passaram a resgatar os espaços vazios de um bairro, a organizar as suas próprias bandas de música, eventos culturais, a ponto que hoje as seis escolas formais do bairro se associaram ao projeto, e desenvolvem atividades de resgate dos espaços públicos, fazem aulas sobre meio-ambiente melhorando o próprio meio ambiente, estudam ciências sociais melhorando o ambiente social. Aqui também, a cidade é dêles, e fazer uma coisa útil e prazeirosa não é o resultado de um emprego que lhes “dão”, mas de uma iniciativa que lhes pertence.[2]
O que isto aponta, na realidade, é que estamos evoluindo de uma visão em que a organização social se resume a um Estado que faz coisas para nós, e de empresas que produzem coisas para nós, para uma visão em que a sociedade organizada volta a ser dona dos processos sociais, e articula as atividades do Estado e das empresas em função da qualidade de vida que procuramos. A expansão das organizações da sociedade civil, a força do terceiro setor, o resgate das funções sociais do Estado, o surgimento da responsabilidade social e ambiental das empresas, a crítica às grandes corporações da especulação financeira, do monopólio de produtos farmacêuticos, de comercialização de armas, o próprio surgimento muito mais amplo da noção de um outro mundo é possível, pertencem todos a um deslocamento profundo de valores que estamos começando a sentir na sociedade em geral.
Como indivíduos, podemos melhorar a nossa casa, batalhar o estudo para os nossos filhos, comprar um carro melhor. Mas as mudanças sociais dependem de organização social. O sentimento de desorientação é sentido como sofrimento individual, mas as raízes são mais amplas. (continua)
[1] Os dados do IDH podem ser consultados em http://www.undp.org/hdro e os indicadores Calvert-Henderson estão sistematizados em Calvert-Henderson Quality of Life Indicators: a new tool for assessing national trends - Bethesda, USA, 2000, http://www.calvertgroup.com - Um raciocínio ajuda a entender a importância da mudança das metodologias de avaliação dos nossos avanços: com os critérios estreitamente econômicos do Banco Mundial, somos a 9ª potência mundial; ao olharmos as nossas condições reais de vida, na perspectiva dos Indicadores de Desenvolvimento Humano, o nosso lugar baixa para um modesto 69º. Ver Os novos Indicadores de riqueza, de Jean Gadrey e Jany-Catrice, Senac, 2007
[2] Os exemplos são inúmeros. Há algum tempo, ajudamos a elaborar um livro chamado Cities for Children, que apresenta idéias sobre como poderiam ser organizadas as cidades se levássemos em conta as crianças. Significativmente, o título original era Managing Cities as if Children Mattered, gerindo as cidades como se as crianças tivessem importância. Sheridan Bartlett et al., Cities for Children, Earthscan, London 1999 http://www.earthscan.co.uk
* Ladislau Dowbor, é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e da UMESP, e consultor de diversas agências das Nações Unidas. É autor de “Democracia Econômica”, “A Reprodução Social”, “O Mosaico Partido”, pela editora Vozes, além de “O que Acontece com o Trabalho?” (Ed. Senac) e co-organizador da coletânea “Economia Social no Brasil“ (ed. Senac) Seus numerosos trabalhos sobre planejamento econômico e social estão disponíveis no site http://dowbor.org
Fonte: Envolverde
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
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