15/12/2008
Traduzimos trecho do livro do jormalista uruguaio Victor L. Bachetta, sobre a indústria de celulose, que estará em Porto Alegre, segunda-feira, para palestra.
Ulisses A. Nenê
Bacchetta fará palestra no Semapi
A Fraude da Celulose foi lançado no Uruguai em setembro e seu autor, o jornalista Victor L. Bacchetta, é um dos convidados para o lançamento do Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente, dia 15, segunda-feira, em Porto Alegre. O evento começa pela manhã, às 09 horas, no Plenarinho da Assembléia Legislativa do RS, e continua às 18 horas, no auditório do Semapi (R. Lima e Silva, 280), onde ele será o palestrante.
Traduzimos parte do primeiro capítulo do livro de Bacchetta, que faz uma rigorosa análise da indústria de celulose e seus monocultivos de eucalipto, dedicando trechos ao Brasil, em 228 páginas e seis capítulos: Antecedentes e marco internacional, Os impactos da florestação, Lidando com indústrias de celulose, O conflito fronteiriço, A discussão pública, Balanço e perspectivas.
“A complexidade e a amplitude dos problemas causados pela implantação no Uruguai de monocultivos de árvores em grande escala e a instalação de grandes plantas de produção de celulose, assim como as dificuldades para realizar na sociedade um debate sério em torno destes temas, nos levaram a produzir este novo aporte à discussão”, diz o jornalista.
Ele nasceu em 1943, em Montevidéo, estudou alguns anos de engenharia e passou a dedicar-se ao jornalismo. Trabalhou em diversos jornais, foi exilado durante a ditadura militar, período em que viveu em Buenos Aires, La Habana, Cidade do México, Rio de Janeiro e Santiago do Chile. No Brasil foi correspondente de veículos do México, Peru, Espanha, Suécia, Suíça e Estados Unidos, e para as agências ALASEI, EFE e IPS.
O que Bacchetta relata neste livro sobre o Uruguai e outros países guarda muita semelhança com o que ocorre no Brasil e serve como um alerta. Leia a seguir a primeira parte do livro.
Capítulo 1
Antecedentes e marco internacional
A indústria de cloro se muda para o Sul
A imigração da industria de cloro do Norte para o Sul foi anunciada com vários anos de antecedência. Quando no Chile adquiriram notoriedade, em 2005, os impactos sociais e ambientais das indústrias de celulose, no Uruguai a história estava começando, mas a prioridade dos governos era captar este investimento.
“Ásia, América Latina e a costa do Pacífico: esse será quase seguramente o rumo que tomarão na década atual as indústrias de cloro, após haverem sido ‘desterradas’ da Europa e Estados Unidos pelos contínuos protestos das organizações ecologistas”, diziam Kenny Bruno e Jed Greer no artigo “A nova ameaça tóxica”, publicado na Revista del Sur, de Montevidéo, em agosto de 1993.Doze anos mais tarde, a previsão era uma realidade.
Segundo Bruno y Greer, a evolução geral das indústrias tóxicas atravessava quatro etapas: 1) desenvolvimento no norte industrializado; 2) expansão até o Sul menos industrializado; 3) decadência no Norte, em virtude de fatores ambientais, sanitários e econômicos; e 4) permanência no Sul, onde, devido à falta de regulamentação ou descumprimento das normas vigentes, provocam mais danos que no Norte.
O cloro se encontra na base de alguns dos produtos mais tóxicos, persistentes e cumulativos nos organismos vivos. A química do cloro combina o elemento cloro com hidrocarbonos para formar uma grande variedade de compostos químicos organoclorados. O gás de cloro foi um dos primeiros gases tóxicos utilizados na guerra (Segunda Guerra Mundial) para atacar o sistema nervoso do ser humano.
Os agrotóxicos DDT e pentaclorofenol, os PCB, os CFC que agridem a camada de ozônio, o Agente Laranja, uma variedade de dissolventes tóxicos, como o tretracloroetileno e percloroetileno, subprodutos como as dioxinas e os furanos, pertencem aos organoclorados. Seus efeitos incluem o câncer, malformações de nascimento, problemas reprodutivos, de desenvolvimento e neurológicos, falta de imunidade e danos na pele, fígado, rins e outros órgãos.
A evolução da indústria de cloro se encontra hoje na América Latina entre o final da segunda e a terceira etapas de sua expansão. Enquanto a produção de celulose e papel, enquanto as tecnologias na Europa e Estados Unidos tendem a prescindir totalmente do cloro, no Sul se instalaram e seguem instalando-se fábricas de “alta tecnologia” com processos de branqueamento baseados em compostos de cloro (p. ex. o ECF).
Frente às economias sedentas de capital da América Latina, a indústria de celulose se apresenta com uma grande campanha publicitária como portadora de grandes benefícios e das tecnologias mais avançadas, promete crescimento e desenvolvimento social, assim como preocupação pelo meio ambiente. Os governos locais, jogando pelas regras do modelo neoliberal, acolhem alegremente estes investimentos e prometem controlá-los.
Inclusive no Chile, Argentina, Brasil e Uruguai, onde a velha direita foi vencida depois por partidos ou alianças de esquerda, os novos governos não alteraram o modelo espirante e seguiram disputando os megraprojetos da indústria florestal e de celulose. Quando os desastres ambientais ocorrem são considerados “acidentes” e as populações procuram defender-se ante a pouco convincente fiscalização das autoridades.
No Chile, um jogo de mentiras1
O governo chileno autorizou, em junho de 2005, a reabertura da planta de Celulose Arauco y Constitución (Celco), na província de Valdívia, 790 quilômetros ao sul Santiago. A indústria havia sido fechada dia 18 de janeiro anterior, ao constatar-se inúmeras irregularidades no meio de crescentes protestos da população pela grande mortandade de cisnes de pescoço negro no Santuário Natural Carlos Anwandter em Rio Cruces, 15 quilômetros abaixo do vertedouro da indústria da Celco.
A indústria havia começado a operar em fevereiro de 2004 e, pouco depois, ambientalistas e vizinhos da zona denunciaram que centenas de habitantes das populações vizinhas de San José de la Mariquina, Rucaco, Rayula y Ciruelos, sofriam problemas respiratórios, irritações nos olhos e dores de cabeça, entre outras afecções, atribuídas a emissões de gases tóxicos da indústria, já que esta era o único elemento novo na zona.
Até outubro desse ano habitavam o Santuário uns 6.000 cisnes de pescoço negro, sua maior colônia na América do Sul, mas sete meses depois restavam menos de mil. Um estudo da Universidade Austral concluiu que a morte de 120 cisnes e a emigração de outros 4.000 se deveu aos despejos da Celco, que eliminaram um microorganismo que é seu alimento, e o alto índice de ferro e parasitas encontrados em seus organismos.
A Comissão Regional de Meio Ambiente (Coirmã) condicionou a reabertura da planta ao fechamento de um cano que extraía água de poços não autorizados, ao compromisso de não superar os valores de produção permitidos, ao controle em linha de diversos parâmetros operativos e à contratação de auditorias nacionais e estrangeiras. E fixou um prazo de dois anos para estudar e construir uma saída ao mar alternativa para o atual verte douro.
A Coirmã aplicou à Calco uma multa irrisória de 10.000 dólares por duas violações das normas e aceitou seus despejos de efluentes em outras cinco, entre outubro e dezembro de 2004.
Quatro das cinco exigências da Corema eram ações de médio e largo prazo. “Os impactos ambientais ficarão em evidência de forma tardia, quando já forem irreversíveis”, assegurou a Fundação Terra. Por outro lado, a decisão de levar a saída do vertedouro para o oceano significava voltar ao projeto original da Celco, que foi descartado entre 1996 e 1998 devido à firme resistência e mobilizações dos habitantes da costa.
“Se em 10 meses ocorreram mudanças significativas, que esperamos que aconteça em 24 meses mais”, declarou o doutor Eduardo Jaramillo, coordenador do estudo da Universidade Austral. Enquanto isto, no Lafquen Mapu (território Mapuche da costa) e suas comunidades o sinal de alerta se espalhou rapidamente ao saber-se que a Celco projetava instalar um novo vertedouro nos limites costeiros da Nona e Décima regiões.
“A empresa cumpriu as sugestões e determinações da Corema regional”, foi a curta declaração feita em Santiago pelo ministro Secretário Geral de Governo, Francisco Vida. Fontes locais informaram que a Celco estava perdendo 1.000.000 de dólares em vendas e 250.000 dólares de matérias-primas por dia de inatividade e atribuíram a este fator a celeridade da Corema para decidir a reabertura da indústria.
Uruguai, um novo sócio no clube
A instalação no Uruguai de grandes projetos de fabricação de celulose da empresa espanhola Ence e da finlandesa Botnia foi autorizada por governos dos partidos tradicionais Blanco e Colorado que haviam implantado a lei florestal aprovada em 1987, através da qual, mediante subsídios e isenções tributárias, abriu-se o país aos investimentos estrangeiros em plantações de árvores para produção de polpa de papel.
Surpreendentemente o novo governo da Frente Ampla, que assumiu a 1º. de Março de 2005, adotou como suas as decisões de seus predecessores, e começou a defender os projetos com base na prioridade do “desenvolvimento”. Eram argumentos similares aos utilizados 50 anos atrás que, justamente, na Europa destruíram seu meio ambiente e fizeram que nesses paises se começasse a eliminar as tecnologias do cloro e seus derivados.
Avaliado em 1,2 bilhões de dólares, o projeto da Botnia foi anunciado como o maior investimento da história do Uruguai, mas no país se aplicaria somente 20% do total. A concessão de zona franca e porto livre implicava que a fábrica não pagaria impostos e os 300 postos de trabalho da planta não compensavam os 2000 empregos do turismo, a pesca, a apicultura e outras atividades da zona que seria afetadas.
Isto sem contar os muito prováveis prejuízos dessa produção sobre o meio ambiente da região circundante, situada no ramo médio do fronteiriço Rio Uruguai, que inclui importantes populações do lado uruguaio (Fray Bentos, com 23 mil habitantes) e do lado argentino (Gualeguaychú, com 65.700 habitantes). Deviam agregar-se também os impactos da florestação, que seria incrementada pela proximidade das indústrias.
Se quisesse prever o futuro, o caso uruguaio poderia se projetar no chileno. A tecnologia de produção de celulose é a mesma (ECF) mas, além disso, a Botnia-Uruguai pensa produzir o dobro da Celco. O ecossistema do Rio Cruces, sem o santuário, se assemelha bastante ao do Rio Uruguai, por sua rica e não menos frágil biodiversidade. Até um executivo da Celco, Ronald Beare, foi contratado como gerente geral da Botnia-Uruguai.
Contra o Uruguai corria, também, a menor experiência e capacidade de controle frente a empreendimentos industriais deste porte, em comparação com o Chile, Argentina e Brasil. A Dinama uruguaia (órgão ambiental) levou menos de um ano para revisar o Informe Ambiental Resumido (IAR) da Botnia, enquanto a Celco no Chile consumiu seis anos de estudos e ainda assim teve problemas. Alguns técnicos uruguaios decidiram fazer uma análise por sua própria conta.
O engenheiro químico Ignácio Stolkin, com uma importante trajetória acadêmica e científica internacional, e outros técnicos analisaram o IAR da Botnia e concluíram que carecia de rigor e seriedade científica, que era vago, tinha contradições e não indicava fontes bibliográficas que permitissem verificar suas afirmações. Este mesmo grupo recusou logo a autorização da Dinama, afirmando que ela não poderia pretender controlar algo com base nisso.
A Botnia alegava que as dioxinas e furanos não são detectáveis em efluentes de plantas ECF e não se propôs a medi-los. A Dinama não aceitou este critério e fixou um limite de emissão anual, algo que os recusantes estimam igual “altamente perigoso”. Para estes técnicos era impossível que uma firma como a Botnia ignore a presença de dioxinas nos 14 milhões de metros cúbicos diários de gases de efeitos estufa que emitirá a sua fábrica.
“Marketing verde” e opinião pública
Desde sua entrada no país, as indústrias florestal e de celulose realizam uma campanha de relações públicas e publicidade extremamente agressiva e eficiente. À parte as típicas artimanhas de sedução, como os presentes à comunidade (“contas coloridas”) e as viagens para mostrar como fazem as coisas na metrópole (“espelhinhos”), acreditando-se no discurso oficial, não há ninguém mais avançado tecnológica, social e ambientalmente que elas.
No Chile, o grupo Acção pelos Cisnes denunciou uma “campanha de desinformação” da Celco. A empresa distribuía panfletos, realizava visitas casa por casa e telefonava aos vizinhos para dizer-lhes que eles cumpriam as normas, que as dioxinas não eram uma ameaça para a saúde e que a indústria regaria mais de 10 mil empregos. “Dados e argumentos que faltam seriamente com a verdade”, afirmou a porta-voz do grupo, Cláudia Sepúlveda.
No Uruguai, a ofensiva propagandística não tem sido menor. Ao anunciar, em maio de 2005, o começo da fase de construção da planta em Fray Bentos, a Botnia revelou que havia contratado os serviços da Research Uruguay, uma empresa de pesquisas de opinião. Na hora de ter que fazer valer seu ponto de vista sobre a população, não se poupam recursos econômicos e nem aportes “científicos”, inclusive de técnicos e profissionais locais.
Frente a estas campanhas das empresas, que são apoiadas pelo governo e a grande imprensa, as populações afetadas e as organizações ecologistas enfrentam grandes dificuldades para se fazerem ouvir. O diário chileno El Mercúrio define estes grupos como uma “trava” ao desenvolvimento, mas enquanto os projetos seguem, os lucros são enormes. Ao final a população pode fazer-se respeitar, mas o dano provocado costuma ser irreversível.
1No original, “juego de la mosqueta”, aquele jogo em que um trapaceiro esconde uma bolinha com três dedais ou conchas para que alguém adivinhe onde ela está.
Fonte: Portal do Meio Ambiente
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
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