por Dayane Cunha — última modificação 28-10-2008 10:13:00
Segundo estimativas de especialistas, as perdas de materiais básicos na construção civil pode chegar a quase 50%, fator causado não só pela baixa qualidade de mão de obra e falta de controle dos administradores das obras, mas também pela falta de padronização dos materiais.
"Hoje quando alguém faz uma casa, geralmente tem que encomendar a porta, a janela, e outros componentes, para encaixar num espaço que varia muito, tendo que cortar tijolo, e aí começam as quebras, perdas e desperdícios", explicou Humberto Ramos Roman, do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), coordenador do Programa de Tecnologia de Habitação (Programa Habitare), financiado pelo governo federal.
A base de seu estudo é como fazer projetos para utilizar medidas padronizadas nos diferentes componentes de uma obra já existentes no mercado, além de dialogar com a indústria para implementar padrões em blocos, portas, janelas e projetos elétricos e hidráulicos.
O nome dado ao programa é Coordenação Modular, que já atraiu interesse do Ministério da Indústria e Comércio dentro de seu programa que busca competitividade em setores chaves da economia nacional. Para o setor de construção civil, considerado importante pela sua alta geração de empregos e a necessidade de combater o déficit habitacional de 8 milhões de moradias, o ministério também botou na pauta a industrialização do setor e a melhoria da qualificação dos trabalhadores.
A Coordenação Modular é um sistema que ordena a construção a partir de um módulo básico e racionaliza a fabricação dos componentes, o projeto, a execução e a manutenção das edificações. Embora o Brasil tenha sido um dos primeiros países a aprovar em 1950 uma norma a respeito (NB-25R), a sistemática não foi adotada.
O caos urbano das cidades brasileiras é um dos resultados desta falta de padronização, que, entre outros benefícios, poderia também combater o desperdício de energia.
Em entrevista à Revista Sustentabilidade, Roman falou sobre o conceito de industrialização e a proposta para diminuir o desperdício de materiais, por meio da padronização dos componentes da construção, como blocos, janelas, portas.
Revista Sustentabilidade: O que significa industrializar a construção civil?
Humberto Ramos Roman: O conceito de industrialização está associado à mecanização, à pré-fabricação, mas por outro lado existe uma corrente que considera também industrialização como qualquer processo que tenha um alto nível de racionalização e de organização, mesmo que seja na construção dita 'tradicional'.
Revista Sustentabilidade: Como assim?
Roman: Para garantir maior produtividade e melhor desempenho, características da industrialização, eu posso usar novos componentes e novos métodos organizacionais, ou seja, padronizar o processo de construção. Com isto, a pessoa que trabalha sabe como fazer aquilo repetidamente igual, evitando perdas e improvisação.
Revista Sustentabilidade: Como o projeto de coordenação modular entra na industrialização da construção civil?
Roman: Hoje quando alguém faz uma casa, geralmente tem que encomendar a porta, a janela, e outros componentes, para encaixar num espaço que varia muito, tendo que cortar tijolo, e aí começa as quebras, perdas e desperdícios. Toda esta perda acontece por falta de padronização de componentes, de projetos modulados. Com a coordenação modular o projetista já sabe o tamanho dos vãos, quando espaço deve deixar para as portas, janelas.
Revista Sustentabilidade: É na padronização, e não na mecanização, que seu projeto entra na industrialização?
Roman: Sim. Nenhuma indústria improvisa na fábrica. Imagina na linha de montagem o operário parar pensar onde vai pôr o trinco da porta ou como vai fazer a janela. Isto é impensável e a construção deveria ser assim também. Na maioria das vezes é na obra que se resolve muitas coisas e quando se decide sob pressão a chance de errar é bem maior.
Revista Sustentabilidade: E como anda este projeto?
Roman: Acho que ainda vai demorar um pouco para implementarmos, mas o projeto despertou interesse do Ministério da Indústria e Comércio, que vai trabalhar junto às indústrias para fazer componentes já coordenados, padronizados.
Revista Sustentabilidade: O que isto significa na prática?
Roman: Significa que quando o projetista for fazer uma casa, um edifício, ele já vai saber o vão que terá de deixar para a janela, porque todas elas vão ter os vãos parecidos. Isto evita corte em parede, o investimento em excesso, e aí começamos a ter uma construção sustentável no sentido de diminuir o consumo de materiais e as perdas, pois não existirá mais improvisação na obra.
Revista Sustentabilidade: Mas já não existe um padrão para bloco, tijolo e outros materiais?
Roman: Existem algumas normas que estabelecem dimensões dos materiais mas muitos setores nem sabem que elas existem, e fazem conforme o tamanho que é mais consumido na região.
Revista Sustentabilidade: Como padronização pode auxiliar na preservação do meio ambiente?
Roman: O caminho mais importante para a construção contribuir para a preservação do meio ambiente é fazer a construção organizada e racionalizada, que não leva à perda. Com a padronização, mesmo utilizando um material dito convencional, como o bloco, o importante é que ele tenha uma espessura adequada e padronizada, por exemplo.
Revista Sustentabilidade: A industrialização com pré-fabricados pode acabar com o déficit habitacional?
Roman: É muito simples fazer uma casa econômica, mas que não proporciona qualidade de vida. Nós também desenvolvemos um sistema de pré-fabricação e montamos uma casa em uma semana, mas o problema que se discute sobre o déficit é que tipo de habitação nós vamos fazer para estas pessoas.
Revista Sustentabilidade: Então como a industrialização da construção civil pode auxiliar nesta questão?
Roman: O que deve ser pensado desde agora, e a industrialização pode ajudar, é um melhor planejamento, pois fazer casa popular não quer dizer fazer casa ruim, que não tenha conforto térmico ou que use um material que se deteriora rapidamente. Se a industrialização tem materiais e processos adequados, duradouros e que a pessoa tenha alternativas para a ampliação de uma casa, isto seria um processo adequado para resolver o problema, porque elas poderiam aumentar e mudar a casa conforme a necessidade.
Revista Sustentabilidade: Como o senhor imagina que vai ocorrer esta parceria entre indústria, arquitetos para que o projeto se popularize?
Roman: Uma das primeiras coisas é um texto de uma nova norma de coordenação modular. O Brasil tem uma norma de 1950, que na verdade são 32 normas, totalmente defasadas.
Revista Sustentabilidade: Esta norma diz respeito às paredes?
Roman: Diz respeito às normas em geral. Como o projeto deve ser feito e como deve ser feito os componentes para que a construção tenha encaixe. Depois, os fabricantes de janelas, de portas, de tijolo, blocos, de outros componentes, terão que, a partir desta norma básica, fazer as normas para cada um dos componentes, para que eles estejam dentro de uma modulação e que possa se transformar num sistema de encaixe.
Revista Sustentabilidade: E como popularizá-la entre arquitetos, engenheiros, estudantes?
Roman: Outra ação é dar cursos sobre coordenação modular, porque nós percebemos que pouca gente sabe o que é coordenação modular. Na faculdade dificilmente isto é ensinado, não faz parte do currículo. Então estamos preparando um material didático para disseminar a coordenação.
Fonte: Revista Sustentabilidade
terça-feira, 25 de novembro de 2008
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